Gravações antigas mostram o alcance internacional da Rádio Nacional da Amazônia. Um dos registros foi transmitido pela emissora e captado em ondas curtas por um ouvinte no sudoeste da Virgínia, nos Estados Unidos. Outro áudio chegou ao cartunista Carlos Latuff, em Porto Alegre, no Sul do Brasil.
A propagação dos sinais é possível graças à ionosfera, camada da atmosfera que contém cargas elétricas. O professor de engenharia eletrônica Ronaldo Siqueira Barbosa explica que, dependendo da altura alcançada pela ionosfera — entre aproximadamente 400 e 700 quilômetros —, ocorre uma reflexão capaz de levar as ondas de rádio a grandes distâncias.
Segundo o professor, esse mecanismo permite transmissões de Brasília para o Canadá e a Europa. Em alguns casos, o sinal pode dar uma segunda volta pela ionosfera e retornar à própria capital federal.
O sinal da Rádio Nacional da Amazônia é transmitido por uma antena instalada no Parque do Rodeador, na zona rural de Brasília. A historiadora Lia Calabre explica que o alcance nacional da emissora é viabilizado pelas ondas curtas, capazes de atravessar oceanos e levar transmissões para além dos limites territoriais.
Inaugurada em setembro de 1977, durante o governo de Ernesto Geisel e em plena ditadura militar, a emissora foi criada como parte de um projeto de integração nacional. A proposta era alcançar áreas isoladas, como a região da Floresta Amazônica, onde até então chegavam principalmente rádios estrangeiras.
Tereza Cruvinel, primeira presidenta da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), da qual a Rádio Nacional faz parte desde 2007, afirma que o projeto original dos militares previa a criação de uma grande rede internacional de rádio. Com o fim do chamado milagre econômico, porém, os planos foram redirecionados para a implantação da Rádio Nacional da Amazônia.
De acordo com Cruvinel, a programação da emissora manteve características de serviço público, com informações para os moradores da Amazônia, valorização da cultura e das riquezas da região, além de serviços de mensagens.
As ondas curtas permitem que a Rádio Nacional da Amazônia chegue a locais sem sinal de satélite, internet ou telefone. Para Taís Ladeira, ex-gerente das rádios da EBC, a emissora teve papel importante na conexão entre comunidades rurais, ribeirinhos e moradores de regiões distantes dos grandes centros com o restante do país.
Apelidada de “Orelhão da Amazônia”, a rádio recebia cartas, ajudava ouvintes a reencontrar parentes e levava informações sobre direitos, como o registro civil de nascimento. No ano passado, a emissora ampliou sua faixa internacional e passou a oferecer conteúdos diários em inglês e espanhol, com o objetivo de alcançar mais ouvintes em diferentes partes do mundo.











