Os participantes da Cúpula do Brics, realizada neste fim de semana em Nova Delhi, na Índia, manifestaram “profunda preocupação” com a escalada das tensões no Oriente Médio. Na declaração do encontro, também criticaram a imposição de tarifas unilaterais no comércio internacional e defenderam uma participação maior do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O documento, divulgado neste sábado (12), recebeu o título “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”. O Brics é formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntos, os 11 países representam 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global.
Em 2025, o grupo foi presidido pelo Brasil, e a reunião anual ocorreu em julho, no Rio de Janeiro. No encontro de Nova Delhi, o Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Uma das expectativas em relação à cúpula era a posição do Brics sobre a guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro deste ano, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã sob o argumento de que o país desenvolvia armas nucleares. O Irã nega a acusação. Em retaliação, o país atacou os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, alinhados aos Estados Unidos e integrantes do Brics.
Com 35 páginas e 140 parágrafos, a declaração não menciona diretamente os países envolvidos nem utiliza a palavra “guerra” ao tratar do tema. No parágrafo 28, os signatários afirmam: “Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação”.
Em documentos diplomáticos, é comum evitar a citação direta de nomes e países em determinados trechos para facilitar a construção de consensos sobre a redação final.
A reunião contou com a presença do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e dos presidentes Xi Jinping, da China; Vladimir Putin, da Rússia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; e Masoud Pezeshkian, do Irã. Os Emirados Árabes Unidos enviaram o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan.
Em outro trecho, o Brics defende a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para torná-lo “mais democrático, representativo, eficaz e eficiente” e ampliar a representação dos países em desenvolvimento.
O Conselho de Segurança é formado por 15 países. Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França são os cinco membros permanentes, com poder de veto. O Brasil pleiteia há décadas um assento permanente.
A declaração destaca o apoio de China e Rússia às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel maior na ONU, incluindo o Conselho de Segurança. O texto, porém, não menciona especificamente a entrada do Brasil como membro permanente.
Os signatários também criticaram barreiras ao comércio internacional. “Manifestamos sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio”, afirma o documento.
A declaração não cita nominalmente os Estados Unidos nem o presidente Donald Trump, embora o país tenha aplicado tarifas a parceiros comerciais desde que Trump assumiu a Presidência, em 2025. Brasil, China e Índia estão entre os principais alvos das medidas.
Sobre pagamentos internacionais, o texto informa que os países avançam na busca por mecanismos eficientes de transações transfronteiriças em moedas locais. Não há menção à criação de uma moeda específica do Brics nem a uma proposta de substituição do dólar.
O documento também afirma que erradicar a pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a extrema, “é o maior desafio global e requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável”. A declaração registra ainda uma proposta do Brasil e da África do Sul para a criação de um painel internacional sobre desigualdade.











