Papa Leão XIV alerta contra uso da inteligência artificial em decisões humanas
Foto original adaptada visualmente por IA.
Inteligência Artificial

Papa Leão XIV alerta contra uso da inteligência artificial em decisões humanas

Compartilhar Facebook X WhatsApp Telegram

O Papa Leão XIV alertou nesta quarta-feira (16) para o risco de algoritmos assumirem decisões que, segundo ele, devem pertencer exclusivamente à consciência humana. A declaração foi feita durante a audiência geral no Vaticano.

De acordo com o pontífice, o avanço tecnológico e a expansão da inteligência artificial (IA) criam novas possibilidades, mas também podem tornar as relações humanas menos pessoais e mais virtuais. “Por outro lado, as relações tendem a tornar-se cada vez menos pessoais, mais virtuais, e corremos o risco de nos habituarmos a delegar aos algoritmos decisões que competem exclusivamente à consciência humana”, afirmou.

A fala ocorreu durante uma catequese dedicada à “comunidade humana”, baseada no segundo capítulo da Constituição Pastoral Gaudium et spes, um dos documentos do Concílio Vaticano II. Leão XIV relacionou o crescimento das tecnologias de comunicação e da IA à necessidade de preservar relações baseadas em respeito, dignidade e profundidade pessoal.

Segundo o papa, a tecnologia pode ajudar a derrubar barreiras e distâncias, mas esse processo deve contribuir para a formação de uma comunidade de pessoas, e não apenas para ampliar as interações virtuais. “Fazer com que as relações sociais tenham peso real e profundidade pessoal é a contribuição que a comunidade cristã se propõe a oferecer”, disse.

A preocupação com a transferência de decisões para sistemas de IA também aparece na primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, publicada em maio. No documento, ele defende que a inteligência humana, acompanhada de consciência e liberdade, continue orientando as inovações e estabelecendo seus limites.

Na encíclica, o pontífice diferencia a inteligência artificial da inteligência humana. Sistemas de IA podem superar pessoas em velocidade e capacidade de cálculo, mas, segundo ele, não têm consciência nem experiência humana. Também não vivenciam alegria, dor, amor, amizade, trabalho ou responsabilidade, nem possuem consciência moral para julgar o que é certo ou errado e assumir as consequências de uma decisão.

Leão XIV também chama atenção para o risco de a facilidade de obter respostas e orientações por meio da IA levar as pessoas a delegarem decisões em excesso. Para ele, a aparência de objetividade das respostas pode fazer com que os usuários se esqueçam de que elas refletem os parâmetros culturais de quem desenvolveu e treinou os sistemas.

Outro ponto destacado é a capacidade de a IA simular formas de comunicação humana. Conforme a encíclica, um sistema pode reproduzir uma linguagem de aconselhamento, empatia, amizade ou amor, sem que exista necessariamente uma relação pessoal autêntica por trás da interação.

O papa afirma ainda que a IA já participa de processos de tomada de decisão em áreas como comunicação, gestão e controle. Embora reconheça possíveis ganhos de eficiência e melhorias em determinados serviços, ele alerta para os riscos de uma adoção rápida e sem avaliação crítica. O impacto ambiental dos sistemas também é mencionado no documento.

Na comunicação pública e política, Leão XIV afirma que plataformas digitais e sistemas de IA podem acelerar a produção e o compartilhamento de informações, além de facilitar a criação de narrativas distorcidas e dificultar a distinção entre fatos e opiniões. Para ele, a tecnologia pode multiplicar a desinformação por meio da manipulação de textos, imagens e vídeos.

O pontífice sustenta que a qualidade da comunicação pública depende da confiança social e da busca compartilhada pela verdade factual. Em decisões morais ou irreversíveis, ele rejeita a ideia de que sistemas artificiais possam ser considerados agentes morais capazes de distinguir o bem do mal de forma equivalente à consciência humana.

Por essa razão, a encíclica afirma que decisões letais ou irreversíveis não devem ser confiadas a sistemas artificiais. Leão XIV também relaciona o tema ao uso da IA em conflitos armados, argumentando que a tecnologia pode tornar a violência mais rápida e impessoal ao transformar vítimas em dados e reduzir as barreiras para o uso da força.

Na audiência, entretanto, o alerta sobre a IA fez parte de uma reflexão mais ampla sobre a construção de uma comunidade humana. O papa afirmou que a diversidade entre pessoas e povos não deve ser vista como ameaça, mas como possibilidade de enriquecimento e crescimento. Ele também defendeu a reciprocidade, a partilha e o cuidado nas relações entre diferentes grupos.

A catequese retomou a ideia de que o desenvolvimento da pessoa e o desenvolvimento da sociedade estão ligados. Leão XIV destacou ainda o respeito à pessoa humana, o amor por quem pensa ou age de maneira diferente, a igualdade fundamental entre as pessoas e a necessidade de justiça social.

Ao final, o pontífice defendeu responsabilidade e participação no lugar de uma mentalidade individualista. Segundo ele, a visão da humanidade como uma “comunidade de pessoas”, legado do Concílio Vaticano II, pode contribuir para o discernimento sobre os projetos sociais e políticos atuais, com base na dignidade humana, na justiça social e na participação na construção do bem comum.

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta
Miramontes 350×700
Notíciasletter
Receba nossas noticias
Um resumo direto no seu e-mail.
Sign In/Sign Up Pesquisar
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...