Especialistas do Painel Científico Internacional sobre Inteligência Artificial, ligado à ONU, defenderam nesta segunda-feira (22) mais cautela na avaliação dos riscos associados à tecnologia. Segundo os pesquisadores, previsões apocalípticas podem misturar evidências científicas, hipóteses e incertezas sobre o futuro da IA.
O alerta foi feito durante um evento em Nova York, realizado à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas. Para os integrantes do painel, é necessário distinguir o que a ciência já consegue sustentar daquilo que ainda é apenas uma possibilidade. Embora reconheçam a existência de riscos graves, os especialistas ressaltam que a extensão dessas ameaças ainda provoca divergências.
Joelle Barral, executiva do Google DeepMind e integrante do painel, afirmou que o debate deve ser orientado pelo conhecimento disponível. “Como cientistas, é muito importante investir na ciência, para realmente distinguir o que sabemos do que não sabemos, e investir no medo não ajuda muito”, disse, após uma pergunta da AFP sobre manifestações recentes relacionadas aos perigos da IA.
No início de setembro, Jacob Coxon, ex-funcionário da Anthropic que também trabalhou na OpenAI, afirmou que desenvolvedores acreditavam que a tecnologia “poderia matar todos nós até o fim da década”. Um engenheiro de pesquisa que deixou o Google DeepMind em julho fez uma avaliação semelhante e disse que talvez já fosse “tarde demais para evitar” a extinção da humanidade pela inteligência artificial.
A jornalista investigativa Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, também questionou a maneira como o tema costuma ser apresentado. “A verdade, porém, é muito mais complexa e sofisticada”, afirmou. Na avaliação dela, tratar a discussão como uma questão ideológica dificulta a compreensão do problema.
Entre os pontos destacados pelos especialistas estão a separação entre evidências científicas e hipóteses, o reconhecimento das incertezas, a consideração sobre a gravidade dos riscos, a rejeição a afirmações excessivamente categóricas e a manutenção de um debate global baseado em evidências.
O painel alertou que o discurso sobre a inteligência artificial oscila entre o pavor irracional de robôs e o total descaso diante dos possíveis riscos.
Criado em 2025, o Painel Científico Internacional sobre IA teve seus integrantes escolhidos em fevereiro de 2026. O grupo tem o objetivo de ampliar a compreensão científica sobre a tecnologia e contribuir para as discussões promovidas pela ONU.
Yoshua Bengio, considerado um dos pioneiros da inteligência artificial e copresidente do painel, chamou atenção para a dificuldade de separar o que os pesquisadores sabem daquilo que pode ser “extrapolado de forma plausível” a partir das evidências. Esse limite, segundo ele, ainda divide os especialistas.
Bengio também alertou para os riscos de declarações muito contundentes. “O problema de gritar muito alto é que outra pessoa também pode gritar muito alto”, afirmou. Para ele, o debate deve levar em conta a falta de certezas em parte das previsões e incluir “uma discussão racional global sobre o que está acontecendo, inclusive sobre a incerteza e sobre a gravidade dos riscos”.
A avaliação do painel reforça a necessidade de distinguir o conhecimento científico disponível das projeções feitas a partir dele, especialmente em uma área na qual os próprios especialistas ainda divergem sobre a dimensão dos riscos.











