Em um quintal com coqueiros, goiabeira, bananeiras, uma paineira-rosa e um raro pé de abiu vivem as 14 famílias do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, na Glória, zona sul do Rio de Janeiro. A comunidade foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e se tornou conhecida pela tradicional feijoada da Tia Cida.
O tombamento abrange todo o terreno da Rua Cândido Mendes, incluindo o quintal, os casarões, as referências culturais e os espaços de uso comunitário. Como medida de salvaguarda, o Iphan pretende elaborar um inventário das referências e manifestações culturais do quilombo.
Às sextas-feiras, Maria Aparecida Ferreira, conhecida como Tia Cida, começa cedo o preparo da feijoada. Servido no quintal, o prato transformou o espaço em ponto de encontro e polo gastronômico. A atividade também gera renda para as famílias e contribui para a mobilização de ações na comunidade.
Depois da pandemia, Tia Cida transformou o quintal em restaurante como forma de sobrevivência e de divulgação da causa quilombola. Ela já havia trabalhado no comércio e vendido marmitas, mas a procura aumentou depois que produtores de conteúdo sobre gastronomia divulgaram o local nas redes sociais. Outros moradores quilombolas também participam do atendimento.
“Eu me sinto muito honrada em fazer essa feijoada, lembro da minha mãe, das minhas mais velhas”, afirmou Tia Cida. Segundo ela, o primeiro feijão que preparou foi “uma catástrofe”, quando decidiu que faria “o melhor feijão do mundo”. Hoje, diz que cozinha concentrada em transmitir às pessoas “saúde e força”, para que deixem o quintal alegres.
As famílias Ferreira e Diniz vivem no terreno desde a década de 1950. Naquele período, a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados de Minas Gerais, mudou-se para o casarão principal depois de se casar com Antônio Dias Pessanha, zelador do imóvel, que funcionava como uma antiga hospedagem.
Com o passar dos anos, a família ampliada permaneceu no local, assim como os casarões abandonados pelos antigos proprietários. Os grupos Ferreira e Diniz, ambos com raízes em Minas Gerais, foram reconhecidos como quilombolas pela Fundação Cultural Palmares em 2023, em razão da manutenção da vida comunitária e de laços relacionados ao passado colonial.
Segundo a Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro, o Ferreira Diniz é um dos 13 quilombos urbanos do estado, que reúne 54 comunidades quilombolas. O local recebe moradores do Rio e turistas, atraídos tanto pela feijoada quanto pela história da comunidade.
A psicóloga Brenda Pimentel Torres esteve no quilombo com a família e destacou o caráter de resistência do espaço. “Há um apagamento da história dos negros [no Brasil] e essas pessoas aqui estão resistindo, sobrevivendo, inclusive, ao racismo”, afirmou. Para ela, a sociedade ainda precisa conhecer melhor a história da escravidão e as formas de resistência das comunidades negras.
O Ferreira Diniz foi o primeiro quilombo do estado do Rio de Janeiro tombado pelo Iphan. O órgão reconheceu a importância histórica e cultural da comunidade e as pressões enfrentadas pelos moradores, como o alto custo de vida. Para o instituto, o endereço é uma “espécie de ilha verde” cercada por prédios altos, que resiste à lógica individualizada dos apartamentos e à gentrificação.
De acordo com Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, o tombamento impõe restrições a demolições, descaracterizações e intervenções incompatíveis com o valor cultural do local. A medida também reconhece o terreno como um bem cultural coletivo, reforça a presença negra naquele território e enfrenta o apagamento e a expulsão de comunidades negras de áreas centrais e valorizadas.
O quintal é considerado pelo Iphan um polo gastronômico e cultural. Além de sediar a feijoada, que ajuda a custear a manutenção do casarão, o espaço recebe brincadeiras de crianças, festas religiosas como Folia de Reis e celebrações de São Jorge, aniversários e rodas de capoeira.
O principal casarão, de estilo neoclássico, foi construído como uma moradia de luxo no início do século 20. Atualmente, seus amplos cômodos foram subdivididos em moradias para as famílias. O prédio precisa de reforma para melhorar as condições de habitação.
Érida Ferreira, presidenta da Associação da Comunidade do Ferreira Diniz, espera que o tombamento contribua para o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O instituto informou que acompanha o processo, ainda em fase inicial.
A comunidade pretende obter a escritura para acessar programas de reforma do casarão. A regularização fundiária também pode protegê-la de desapropriações e de uma eventual venda fracionada do terreno por herdeiros. Para celebrar o tombamento, Érida e a família anunciaram uma festa com roda de samba no sábado (26).
Historiadora formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Érida afirmou que o diferencial da medida do Iphan foi incluir a comunidade como parte do bem tombado. “É o tombamento de cultura, de patrimônio vivo, da comunidade de nossa história, que está enraizada na Glória”, declarou. “Dar condições de permanência à comunidade é garantir um futuro com mais diversidade”, acrescentou.
O reconhecimento pelo Incra ainda depende de etapas como a elaboração de um estudo técnico pela Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). A professora Ana Carmen Amorim Jara Casco reúne o histórico das famílias e informações sobre o modo de vida no terreno em um documento que deverá ser entregue ao instituto até o fim de 2026.
Após acompanhar a comunidade por três anos, a professora afirmou que o quilombo oferece lições sobre o passado, a formação do Brasil e o futuro. Segundo ela, no Ferreira Diniz, as crianças são cuidadas coletivamente pelos moradores, em um modo de vida diferente do observado em prédios e condomínios fechados. Para Ana Carmen, conhecer a formação dos quilombos é reconhecer a contribuição da população negra para a construção do país.











