Três anos após ataque do Hamas, guerras redesenham alianças no Oriente Médio
Foto original adaptada visualmente por IA.
Mundo

Três anos após ataque do Hamas, guerras redesenham alianças no Oriente Médio

Compartilhar Facebook X WhatsApp Telegram

Os três anos desde o ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, foram marcados por guerras, mudanças políticas e criação e desmonte de alianças no Oriente Médio. A sequência de acontecimentos alterou a correlação de forças na região, segundo especialistas em relações internacionais.

O ataque contra vilas no sul de Israel matou cerca de 1,2 mil pessoas. Na sequência, Israel iniciou uma ofensiva militar em Gaza que, de acordo com especialistas citados na análise, é classificada como genocídio. A ação destruiu cidades inteiras, como Rafah e Khan Yunis, e provocou a morte de mais de 74 mil pessoas.

No período, também ocorreram a queda do governo de Bashad al-Assad, na Síria; a guerra de Israel contra o Hezbollah, no Líbano; o conflito de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã; o fechamento do Estreito de Ormuz; e, mais recentemente, o retorno dos confrontos entre os houthis, do Iêmen, e a Arábia Saudita.

Para Bruno Huberman, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o 7 de outubro foi um “ponto de virada” e reorganizou as alianças políticas e militares da região.

Segundo o professor, o bloco alinhado aos Estados Unidos deixou de existir após o rompimento entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos durante a guerra contra o Irã. Na avaliação dele, os sauditas adotaram uma postura menos aberta, enquanto os Emirados se juntaram a Israel e aos Estados Unidos no conflito.

Um dos efeitos desse rompimento, de acordo com Huberman, foi a saída dos Emirados da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), grupo que tem a Arábia Saudita como principal liderança.

Acordo militar de Meca

Com o prolongamento da guerra contra o Irã, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão formaram, em 7 de agosto de 2026, o Acordo de Defesa Conjunta de Meca. O compromisso prevê que uma agressão contra qualquer um dos países será considerada uma ação contra todo o grupo.

Huberman avalia que a criação da aliança militar islâmica é um desdobramento do 7 de outubro. Apesar de reunir aliados dos Estados Unidos, como Turquia e Arábia Saudita, o bloco não coloca o Irã como a principal ameaça regional e também não tem o chamado Eixo da Resistência como foco central de oposição.

Conflitos interligados

A professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Isabela Agostinelli, afirmou que os conflitos ocorridos após o 7 de outubro estão ligados ao ataque do Hamas, que recolocou a questão palestina no centro da disputa regional.

Segundo Isabela, a Arábia Saudita, que estava próxima de normalizar as relações com Israel, passou a afirmar que não seria possível firmar um acordo sem uma solução para a questão palestina.

Na avaliação da professora, Israel utilizou o ataque para ampliar a guerra de Gaza para a Cisjordânia, o Líbano e o Irã, com o objetivo de transformar a ordem regional a seu favor. Ela afirmou que a estratégia estaria baseada em conflitos prolongados, que beneficiariam as indústrias israelenses de armas e tecnologia.

Isabela também relacionou essa agenda ao projeto da Grande Israel, proposta existente desde o início do movimento sionista e que prevê a expansão do país do Rio Nilo ao Rio Eufrates, abrangendo partes do Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Arábia Saudita.

Fissura entre países do Golfo

Outro efeito atribuído ao 7 de outubro foi a ruptura da unidade entre os países do Golfo reunidos no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), formado por Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Arábia Saudita.

“Omã se aproximou do Irã, e os demais países do Golfo estão meio desordenados, sem saber se ficam mais do lado dos Emirados, ou do lado da Arábia Saudita”, afirmou Huberman.

Para o especialista do Observatório de Conflitos do Oriente Médio, o ataque de 7 de outubro de 2023 iniciou a reorganização dos blocos de poder regionais por meio de uma sucessão de conflitos.

Na avaliação dele, atualmente existem três blocos. O primeiro reúne os principais aliados dos Estados Unidos, especialmente Israel e os Emirados. O segundo é formado por Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, que buscam uma política de não alinhamento entre Estados Unidos, China e Rússia. O terceiro é o Eixo da Resistência.

Eixo da Resistência perdeu força

Huberman, que coordena o Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da PUC-SP, afirmou que o Eixo da Resistência se enfraqueceu após o 7 de outubro. O grupo reúne atores que fazem oposição às políticas de Israel e dos Estados Unidos na região.

Entre os fatores apontados estão a queda do governo de Assad, na Síria, e o enfraquecimento do Hezbollah, no Líbano. “Só tem o Irã como uma força estatal e as demais forças não estatais estão muito enfraquecidas, particularmente o Hamas”, disse.

Especialistas em Oriente Médio avaliam que o ataque do Hamas foi uma resposta do Eixo da Resistência aos chamados Acordos de Abraão, negociados por Israel e pelos Estados Unidos para normalizar as relações entre países árabes e Israel. Os acordos também buscariam afastar a exigência árabe por mudanças na situação dos palestinos.

Huberman afirmou ainda que um acordo entre Israel e Arábia Saudita poderia consolidar o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC), anunciado em 9 de setembro de 2023, um mês antes do ataque.

O corredor ligaria Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Israel e Grécia. A proposta seria reduzir a dependência europeia da energia russa e das mercadorias chinesas, aproximando o continente da energia árabe e dos produtos indianos.

Por outro lado, Huberman apontou como fatores para a decisão do Hamas o avanço da colonização israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, territórios palestinos segundo o direito internacional. Para ele, o ataque também foi uma resposta a décadas de ocupação e colonização e à escalada de medidas do governo de Benjamin Netanyahu.

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta
Miramontes 350×700
Notíciasletter
Receba nossas noticias
Um resumo direto no seu e-mail.
Sign In/Sign Up Pesquisar
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...