A coordenadora do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) em Uberlândia, Patrícia Metz Peixoto, foi presa preventivamente na manhã desta quinta-feira (15). Ela havia sido afastada do cargo por suspeita de improbidade administrativa. Segundo elementos da investigação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a servidora teria recebido dinheiro de propina para influenciar negociações relacionadas às obras de acesso ao Anel Viário Sul.
Os documentos anexados ao processo, que tramita sob segredo de Justiça, apontam que as transações supostamente irregulares envolveriam um imóvel avaliado em R$ 1,5 milhão, localizado em um condomínio pertencente ao grupo empresarial responsável pelas obras viárias não concluídas na zona sul de Uberlândia.
De acordo com o MPMG, Patrícia teve papel relevante na negociação que alterou o projeto original de acesso ao Anel Viário Sul. A atuação teria ocorrido a partir de um ofício emitido um dia antes de uma audiência judicial, usado como base para um acordo que modificou a obrigação inicialmente imposta ao grupo empresarial responsável pela obra.
As investigações começaram a partir de um inquérito civil. Conforme comunicado do MPMG, em junho de 2026 o órgão solicitou ao DER-MG todos os processos administrativos relacionados ao caso, mas teria recebido apenas parte da documentação, por determinação da própria servidora. Depois disso, foi instaurado um procedimento investigatório criminal.
O MPMG afirma que Patrícia adquiriu, em 2024, um imóvel avaliado em R$ 1,5 milhão em um condomínio do mesmo grupo empresarial envolvido no caso. Segundo o órgão, parte da dívida teria sido paga por empresas ligadas ao grupo, com recibos supostamente forjados para justificar as transações.
Documentos obtidos durante a investigação e anexados aos autos indicam que a própria servidora teria participado da elaboração desses recibos. Em uma mensagem atribuída a Patrícia, enviada ao proprietário do imóvel, ela escreveu: “estarei enviando o modelo do recibo para ver se vc concorda. Sugeri que fosse recibo de meio fio pois vc tem pedreiros”.
Conforme a apuração, as orientações teriam sido dadas para evitar suspeitas sobre as transações, já que o proprietário do imóvel possui uma empresa do setor da construção civil. Na sequência, a servidora teria enviado um modelo de recibo com os campos referentes à empresa ou à pessoa que assinaria o documento ainda em branco.
Nos autos, aparece um recibo com texto semelhante, assinado por meio de uma plataforma oficial pelo empresário proprietário do imóvel. O documento declara o recebimento de R$ 10 mil da GSP PROPERTIES S.A., grupo empresarial envolvido nas obras do Anel Viário Sul.
O pagamento foi descrito como referente à prestação de serviços de “confecção de meio-fio”. Segundo o Ministério Público, porém, a transferência seria uma vantagem financeira para que a servidora colaborasse nas negociações relacionadas às obras.
A prestação do financiamento do imóvel seria de aproximadamente R$ 25 mil por mês. Dados do Portal da Transparência do Estado de Minas Gerais mostram que a renda mensal líquida média de Patrícia em 2024 foi de R$ 11.520,13, com remuneração anual de R$ 138.241,60. Entre janeiro de 2021 e agosto de 2026, ela teria recebido R$ 759.746,86 em remuneração líquida.
Obra foi alterada de R$ 7 milhões para pouco mais de R$ 2 milhões
A disputa judicial sobre o acesso ao Anel Viário Sul começou em 2019, quando a Prefeitura de Uberlândia acionou a Justiça para cobrar a execução da infraestrutura viária prevista para o empreendimento GSP Life Botânico II.
O projeto original previa um trevo de acesso à LMG-503, com custo estimado em cerca de R$ 7 milhões. Em 2023, a Prefeitura e a empresa firmaram um acordo para substituir a obra por uma intervenção de pouco mais de R$ 2 milhões. O MPMG passou a questionar a regularidade da mudança e, em setembro, a Justiça suspendeu os efeitos do acordo.
Um dos pontos centrais da investigação é um ofício assinado por Patrícia em 23 de outubro de 2023, um dia antes da audiência judicial que homologou o acordo para substituição da obra.
Conforme decisão de afastamento divulgada em setembro, o projeto substitutivo ainda não tinha aprovação formal dos órgãos técnicos competentes do DER-MG quando o documento foi assinado. A decisão também aponta que a redação do ofício teria transmitido a impressão de que a intervenção já poderia ser executada.
O documento recomendava o início dos trabalhos após o período chuvoso e foi apresentado na audiência do dia seguinte. O Ministério Público questiona o uso do ofício para sustentar uma autorização que, naquele momento, ainda não existiria formalmente.
Afastamento citou risco à preservação de documentos
Na decisão que determinou o afastamento de Patrícia, a 3ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Uberlândia apontou risco à preservação de documentos relacionados à investigação.
Entre os episódios citados está o envio ao Ministério Público de apenas 11 páginas de um processo administrativo mais extenso. Segundo a decisão, uma servidora relatou que Patrícia havia determinado a digitalização exclusivamente dessas páginas.
A Justiça também destacou que o ofício de 2023 estava em uma pasta identificada como “GSP km 3”, embora a intervenção discutida ficasse no km 1,5 da LMG-503. Esses elementos fundamentaram o afastamento determinado em setembro.
Defesa questiona prisão
Em nota, a defesa de Patrícia Metz Peixoto afirmou que soube pela imprensa sobre a prisão nesta quinta-feira (15). Até a divulgação do posicionamento, os advogados disseram não ter recebido comunicação oficial, conseguido contato com a cliente ou acessado os autos.
A equipe do advogado Claudio Fontoura questionou se Patrícia teve a oportunidade de entrar em contato com seus defensores e informou que apurará a circunstância pelas vias próprias.
Segundo a defesa, Patrícia é servidora pública de carreira, primária, tem endereço fixo e advogados constituídos no processo desde julho. Os advogados também afirmaram que ela compareceu a todos os atos para os quais foi convocada e está afastada das funções no DER-MG desde o fim de setembro.
A defesa declarou não identificar elementos que justifiquem a prisão, caso confirmada, e sustentou que medidas menos gravosas já seriam suficientes. “Se confirmada a notícia, a defesa, com o devido respeito às autoridades, não vislumbra elementos que justifiquem a medida extrema da privação de liberdade”, afirmou.
Os advogados informaram ainda que já estavam em contato com as autoridades para tratar do caso. As suspeitas continuam sob investigação.
DER-MG aciona Controladoria-Geral do Estado
Em nota, o DER-MG informou que, “diante da possível gravidade dos fatos”, acionou a Controladoria-Geral do Estado para apurar eventual responsabilidade administrativa, sem prejuízo das investigações conduzidas por outras autoridades.
A autarquia afirmou que Patrícia é servidora efetiva e está afastada das funções. O órgão disse ter tomado conhecimento da existência de processo judicial criminal no fim de setembro de 2026 e ressaltou que o caso tramita sob segredo de Justiça, sem que o DER-MG tenha acesso aos demais autos.
O departamento declarou que tem cooperado com as autoridades desde as primeiras solicitações relacionadas ao caso, prestando esclarecimentos e permanecendo à disposição para contribuir com a apuração. Também reafirmou o compromisso com a atuação ética e responsável, o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
O DER-MG afirmou ainda que não compactua com eventuais desvios de conduta ou práticas incompatíveis com os princípios da administração pública.











