A Guerlain relançou uma nova interpretação do L’Heure Bleue, perfume criado originalmente em 1912. A fragrância foi inspirada no fim de tarde parisiense, quando o dia se mistura à noite e o céu assume tons azulados, em uma transição que Jacques Guerlain chamou de “hora suspensa”.
Jacques Guerlain, terceiro integrante da família a ocupar o posto de perfumista da maison, traduziu essa paisagem por meio do contraste entre notas quentes e frescas. Ele também foi responsável por criações como Shalimar e Mitsouko.
Mais de um século depois, Delphine Jelk, diretora criativa de fragrâncias da marca, aceitou o desafio de revisitar o perfume, considerado um patrimônio histórico da Guerlain. A nova formulação utiliza tecnologias atuais para preservar a sensação evocada pela criação original.
“O L’Heure Bleue sempre me tocou. Adoro a ideia de poder criar um perfume que traduz o céu. Sentia quase como uma obrigação. Jacques Guerlain teve limitações ao tentar fazer isso, porque ele não tinha os recursos disponíveis que temos atualmente”, afirmou Delphine.
Segundo a perfumista, nenhum ingrediente natural é capaz de reproduzir sozinho essa atmosfera. Por isso, a composição combina matérias-primas naturais e tecnologia molecular. Moléculas sintéticas foram usadas para criar notas ozônicas, que remetem ao frescor do vento, e o Ambroxan, associado ao cheiro de pele.
Combinado à faceta gourmand da baunilha presente na base, o Ambroxan contribui para um aroma delicadamente amadeirado. Delphine também manteve elementos importantes da versão original, como o coração de flor de laranjeira e a íris, mas modificou a forma como eles são incorporados.
“A íris é, sem dúvida, a alma da fragrância. Ela é rica em textura e confere um toque aveludado”, explicou. A matéria-prima também integra a Guerlinade, assinatura olfativa da maison idealizada por Jacques Guerlain.
Para reduzir a característica talcada da íris, a perfumista utilizou a chamada tintura de íris. O processo natural não usa solvente e realiza a maceração à base de álcool. Como o álcool é mais volátil, a técnica permite incluir a íris entre as notas de topo e deixá-la mais leve.
A reinterpretação levou três anos de trabalho e mais de 200 testes. Inspirada pela brisa fria do crepúsculo, Delphine criou um skin scent intenso — uma fragrância mais íntima e aconchegante, descrita como uma segunda pele.
A proposta também busca uma feminilidade mais sutil. “Muitas vezes, a sensualidade na perfumaria é explícita, como se precisasse gritar. Às vezes, acho que há algo um pouco agressivo nisso, então tentei descrever uma feminilidade simples, que não tem nada a provar. E brincar um pouco com essa ideia de ‘azul para meninas’”, disse.
O frasco preserva o coração invertido na tampa, inspirado no art nouveau, criado pelo designer Georges Chevalier e produzido pela Baccarat. A novidade está no acabamento laqueado azul, com gradiente de cor e letras douradas.
O lançamento também é acompanhado por uma edição limitada com três estojos do batom Rouge G, todos na mesma tonalidade azul. A nova versão, no entanto, não substitui o clássico: o L’Heure Bleue de 1912 continua na coleção Les Légendaires, que reúne os patrimônios vivos da Guerlain em uma espécie de biblioteca olfativa.











