Nos últimos anos, medicamentos como o Ozempic® (semaglutida) e o Mounjaro® (tirzepatida) têm sido celebrados como verdadeiras revoluções farmacêuticas. Ambos pertencem à classe dos agonistas de incretinas, mas com diferenças importantes: enquanto o Ozempic atua apenas no receptor GLP-1, o Mounjaro inova ao agir de forma dupla nos receptores GLP-1 e GIP, mostrando resultados ainda mais expressivos em perda de peso e controle glicêmico.
Essas descobertas trazem esperança para milhões de pessoas que convivem com diabetes tipo 2 e obesidade. Porém, por trás do entusiasmo científico e das manchetes, surgem questionamentos que merecem reflexão:
– Quais os limites do uso desses medicamentos?
– Qual a segurança de uso em longo prazo, especialmente fora do contexto clínico?
– Até que ponto a busca estética justifica a medicalização do corpo?
– Estamos diante de uma inovação que democratiza a saúde ou de mais um produto que reforça desigualdades sociais?
💊 A promessa científica
O Mounjaro representa um salto tecnológico. Pela primeira vez, um medicamento consegue oferecer perda de peso média de 20% em pacientes obesos, algo comparável à cirurgia bariátrica. O Ozempic, por sua vez, além da redução de peso, já consolidou evidências robustas de proteção cardiovascular, tornando-se referência em pacientes com risco cardíaco.
Mas a pergunta que se impõe é: quem terá acesso a essas inovações?
💰 O preço da saúde
O custo elevado desses medicamentos coloca o tratamento fora do alcance da maioria da população brasileira. Em um país onde grande parte dos pacientes depende do SUS, a introdução de terapias com preços elevados pode ampliar ainda mais a distância entre quem pode pagar e quem não pode.
⚖️ Ética e medicalização
Outro ponto delicado é o uso estético desses medicamentos. A pressão social pelo corpo magro pode transformar uma inovação terapêutica em ferramenta de vaidade, desviando o foco da saúde pública para o consumo privado. Isso levanta questões éticas: até que ponto estamos medicalizando o corpo em nome de padrões sociais?
A obesidade, que já é marcada por determinantes sociais como (alimentação ultraprocessada barata, não realizar atividade física, jornadas de trabalho extenuantes) corre o risco de ser tratada como um problema único e individual, resolvido apenas com uma injeção semanal para quem tem condições de pagar.
✨🪞 Estética e autoestima
O uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro pode gerar uma sensação imediata de pertencimento e autoestima em quem vê o corpo se transformar. No entanto, essa mesma transformação pode criar uma dependência emocional perigosa: a ideia de que o corpo só é válido se estiver dentro de um padrão. O risco é transformar um tratamento médico em um recurso de vaidade, reforçando estigmas como a cultura da magreza extrema e inviabilizando a diversidade corporal.
Além disso, os efeitos colaterais como náusea, vômito, diarreia e constipação podem ser minimizados ou ignorados por quem busca resultados rápidos, colocando em segundo plano a saúde em nome da estética.
🧠 Impacto psicológico
O impacto psicológico do uso desses medicamentos também merece atenção. A expectativa de resultados rápidos pode gerar ansiedade e frustração quando os efeitos não correspondem ao ideal estético projetado e idealizado. Há ainda o risco de dependência emocional: pacientes podem sentir que sua autoestima está condicionada ao uso contínuo da medicação. Essa relação frágil entre corpo e identidade pode intensificar quadros de insegurança, depressão e distorção da autoimagem, mostrando que o desafio não é apenas clínico, mas também mental e social.
Ozempic e Mounjaro são, sem dúvida, inovações farmacêuticas que marcam uma nova era no tratamento da obesidade e do diabetes. O perigo está em reduzir o medicamento a um “atalho” para emagrecer, sem considerar os impactos físicos e psicológicos de longo prazo.
Fernanda Resende
Biomédica e Farmacêutica em formação.











