O avanço da inteligência artificial e a construção de estruturas de computação mais potentes aumentaram a preocupação da indústria de tecnologia com a quantidade de água usada no resfriamento de data centers. Nesse contexto, uma campanha publicitária brincou com a possibilidade de utilizar urina para ajudar a manter os servidores em temperaturas adequadas.
A ideia, porém, não significa que despejar xixi nos equipamentos seja uma alternativa viável. A urina contém substâncias que podem causar problemas nos sistemas de refrigeração. A campanha apenas chamou atenção para uma solução que já existe: o tratamento e o reúso de água residual.
Campanha brincou com o uso de urina
A ação foi criada pela marca de energéticos Liquid Death e pela cervejaria Garage Beer, com participação do ex-jogador de futebol americano Jason Kelce, um dos investidores da empresa de cerveja. O comercial usou o slogan “We want your pee”, que pode ser traduzido como “Queremos o seu xixi”, e apresentou até um copo que poderia servir como recipiente para o “líquido”.
Por trás da brincadeira está uma questão real. Servidores produzem muito calor durante o funcionamento e precisam de sistemas capazes de controlar a temperatura. Em algumas tecnologias de refrigeração, o uso de grandes volumes de água é fundamental.
Em 2025, os data centers do Google consumiram cerca de 10,9 bilhões de galões de água, o equivalente a 41,3 bilhões de litros. No ano anterior, apenas uma instalação da empresa, em Council Bluffs, nos Estados Unidos, utilizou aproximadamente 3,8 bilhões de litros.
Modelos de inteligência artificial mais avançados exigem grandes estruturas computacionais, com mais servidores e, consequentemente, maior demanda por sistemas de resfriamento.
Como funciona o reúso de água
Em alguns locais, a água residual passa por processos específicos de tratamento e é destinada a atividades que não exigem água potável, incluindo a refrigeração de data centers.
Um exemplo está em Quincy, no estado de Washington, nos Estados Unidos. Em parceria com a Microsoft, a cidade criou um sistema para tratar e reutilizar água no resfriamento dessas estruturas. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), a iniciativa reduz em cerca de 138 milhões de galões, ou 522 milhões de litros, por ano, o uso de água.
Apesar dos resultados, a implantação desse tipo de sistema ainda enfrenta obstáculos. A construção da infraestrutura pode custar milhões de dólares e exigir anos de planejamento. Também são necessárias tubulações para levar a água tratada até os data centers, além do cumprimento de regras e processos de licenciamento que variam conforme a região.
Em Quincy, o projeto custou cerca de US$ 31 milhões e levou mais de uma década entre o planejamento e o início da operação. A distância entre os data centers e as estruturas de tratamento também pode elevar os custos de conexão.
A EPA incluiu, em seu plano de ação para 2026, medidas para ajudar estados e comunidades a ampliar o uso de água reciclada no resfriamento de data centers e reduzir obstáculos regulatórios.
Assim, o “xixi” da campanha é apenas uma forma bem-humorada de chamar atenção para um problema sério. A água de reúso já pode ajudar a diminuir o impacto ambiental dos data centers, mas a expansão da solução depende de infraestrutura, investimentos e regras que permitam sua adoção em mais lugares.











