Beneficiários de Uberlândia do programa de Tratamento Fora do Domicílio (TFD) relatam ter recebido supostas cobranças indevidas referentes a viagens realizadas entre 2022 e 2025. Emails e notificações enviadas pelos Correios chegaram aos usuários no início de 2026, com valores de até R$ 99 mil em um dos casos.
Uma mãe de uma criança atendida pelo programa, que preferiu não ser identificada, afirmou ter recebido uma cobrança de R$ 99 mil. Segundo ela, a notificação não apresentava o número da conta relacionado ao débito.
A beneficiária disse que a cobrança se refere a supostos valores sem prestação de contas entre 2022 e 2025. Ela afirma nunca ter recebido a quantia indicada e diz possuir extratos bancários que mostram os gastos realizados.
“Nós entregávamos os documentos originais sempre que voltávamos das viagens. Como a prestação era aceita e a próxima viagem era autorizada, nunca imaginamos que precisaríamos guardar cópias”, relatou.
A mãe afirma ter contestado a cobrança administrativamente, apresentando declarações que comprovam a realização dos atendimentos médicos e extratos bancários. No entanto, segundo ela, os cupons e as notas fiscais originais foram entregues à Prefeitura durante as prestações de contas exigidas pelo programa e não estão mais em sua posse.
Investigação sobre o TFD
Em julho do ano passado, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) deflagrou a “Operação Tratamento Fantasma”, que investigou um grupo criminoso suspeito de desviar recursos públicos destinados ao TFD.
O programa, administrado pela Secretaria Municipal de Saúde, garante atendimento médico, exames ou cirurgias em outra cidade quando o serviço necessário não está disponível na rede local. Em Uberlândia, o setor também coordena o transporte, os encaminhamentos e a logística dos pacientes.
Segundo a apuração do MPMG, mais de R$ 6,5 milhões da Secretaria Municipal de Saúde teriam sido desviados nos três anos anteriores à operação. O principal alvo foi uma servidora pública municipal de Uberlândia.
Após a operação, a Prefeitura determinou uma revisão dos processos do TFD. Dezenas de casos foram considerados suspeitos, enquanto mais de 100 beneficiários comprovaram a regularidade das prestações de contas.
Documentos analisados na revisão administrativa apontaram R$ 598.037,41, em valores atualizados, classificados pela administração municipal como de alta suspeita de ilegalidade.
Prestação de contas
A mãe que recebeu a notificação de R$ 99 mil contou que era obrigada a apresentar, após cada viagem, os comprovantes de todas as despesas. De acordo com ela, o procedimento sempre foi cumprido conforme as exigências da administração pública.
“Se a prestação de contas não fosse aprovada, a viagem seguinte nem seria liberada. Sempre entregamos tudo e nunca tivemos qualquer problema. Além disso, essa questão tem abalado muito a saúde emocional de todo mundo, inclusive a minha”, afirmou.
Outros relatos
Laís Araújo, de 33 anos, utiliza o TFD para acompanhar o filho em um tratamento médico em Belo Horizonte. O menino é atendido há mais de três anos no Hospital da Baleia, e a família depende do programa para realizar os deslocamentos entre as cidades.
Segundo Laís, o primeiro valor indicado na notificação foi de aproximadamente R$ 8,6 mil. Atualmente, a cobrança estaria em cerca de R$ 6 mil.
“Os comprovantes que eu dei para eles, tudo original, eu consegui recuperar alguns pelo banco e alguns que eu já tinha salvo, via print”, relatou.
Ela afirma que algumas despesas cobradas não podem ser assumidas por ela e que documentos e registros apresentados não foram aceitos pelo TFD. “Não tem como eu pagar, porque eu sou mãe solo, não trabalho. Eles estavam me cobrando R$ 8 mil, agora estão me cobrando R$ 6 mil”, disse.
Laís também informou que entrou com uma ação para apresentar documentos e justificar os gastos. Mesmo assim, continua recebendo mensagens, segundo ela, informando que parte dos comprovantes não será aceita. “Eu já entrei com a ação justificando, mostrando os comprovantes, mas mesmo assim eles mandam e-mail falando que não aceitam”, afirmou.
Cobrança de R$ 3 mil
Cristina Maria, de 56 anos, acompanhou o esposo durante um transplante de fígado realizado em 2019, em São Paulo, com o uso do TFD. Conforme o relato, após cada viagem, ela entregava as notas das despesas na Secretaria de Saúde.
Em fevereiro de 2026, Cristina recebeu por email uma notificação sobre supostas pendências no valor de aproximadamente R$ 3 mil.
“Recebi uma notificação no meu email de pendências nas quais eu não teria prestado conta, com um valor de cerca de R$ 3 mil”, relatou.
Ela questionou por que os recibos apresentados anteriormente não estariam arquivados pela Secretaria. “Começou a mandar para todos os pacientes, cobrando coisas que a gente já entregou, recibo. Cadê os recibos? Por que a Secretaria Municipal de Saúde não tem esse arquivo lá e teve que a gente passar por essas cobranças?”, disse.
Revisão dos processos
A revisão realizada pela Prefeitura também identificou que mais de uma centena de beneficiários conseguiu comprovar a regularidade do uso dos recursos públicos. Esses usuários receberam comunicados informando que as prestações de contas haviam sido aprovadas.
O número exato de pessoas que receberam a mensagem não foi informado pela Prefeitura. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que “os trabalhos estão em andamento e, portanto, é necessário aguardar a finalização do processo para compilação consolidada dos resultados”.
O MPMG e a Prefeitura de Uberlândia foram procurados para se manifestar sobre as denúncias e prestar esclarecimentos. Até a publicação, não havia sido informado um posicionamento.











