A Câmara dos Deputados tem enfrentado um cenário de tramitação acelerada de projetos de lei, com o regime de urgência se tornando a norma desde 2015. Levantamentos indicam que mais de 96% das propostas aprovadas na Casa durante esse período foram votadas sob esse rito, que deveria ser utilizado apenas em situações excepcionais.
O uso recorrente da urgência tem gerado preocupações sobre a qualidade da análise legislativa. Normalmente, os projetos precisam passar por comissões temáticas, onde são discutidos e modificados antes de chegarem ao plenário. Contudo, a urgência permite que essas etapas sejam puladas, levando a uma votação direta pelos deputados.
Impacto da Urgência na Produção Legislativa
Nos últimos 15 anos, a produção legislativa na Câmara cresceu significativamente, com 1.188 projetos de lei aprovados em plenário. No entanto, esse aumento vem acompanhado de uma crítica à “hipertrofia” do regime de urgência, que, segundo consultores legislativos, tem comprometido a qualidade deliberativa das propostas.
Em 2011, a urgência representava 65,7% das votações, mas a partir de 2014, esse número nunca mais caiu abaixo de 95%. Em anos específicos, como 2015 e 2021, todas as matérias aprovadas tramitaram sob urgência, evidenciando uma tendência preocupante na condução dos trabalhos legislativos.
Esse fenômeno se intensificou durante a pandemia de Covid-19, quando as comissões deixaram de funcionar e as decisões passaram a ser centralizadas no plenário. O resultado foi um aumento contínuo no uso da urgência, que se consolidou como uma prática comum na Câmara.
Em 2024, sob a presidência de Arthur Lira, a Câmara registrou um recorde de 77 urgências aprovadas no primeiro semestre. O cenário se agravou em 2025, quando o número de urgências ultrapassou seis vezes o volume anterior, refletindo uma estratégia para acelerar pautas de alto desgaste político.
Os dados mostram que, enquanto a urgência se tornou predominante, as comissões têm aprovado principalmente propostas de menor impacto. Em 2024, mais da metade dos projetos aprovados nas comissões tratavam de homenagens e datas comemorativas, o que levanta questões sobre a relevância das discussões legislativas.
Diante desse quadro, especialistas sugerem uma reforma no Regimento Interno da Câmara para limitar o uso da urgência e fortalecer as comissões temáticas. A proposta visa restaurar um equilíbrio entre os diferentes regimes de tramitação, garantindo uma análise mais aprofundada das propostas legislativas.











