
Com inúmeros movimentos artísticos independentes, arte de rua, prédios históricos e equipamentos culturais de relevância nacional, como a Pinacoteca, o Theatro Municipal e o Museu da Língua Portuguesa, o centro de São Paulo se consolidou como um polo de cultura da maior cidade da América Latina.
O Espaço Cultural Elza Soares é um dos locais que sintetizam as dinâmicas sociais características desse território, onde arte, política e memória se encontram.
O imóvel, localizado na Alameda Eduardo Prado, é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e se constitui como um dos símbolos que chamam a atenção de quem passa pelo bairro Campos Elíseos.
Para a coordenadora do espaço, a artista e psicóloga Ana Chã, o local, vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) busca ser um “ponto de encontro entre cultura popular, memória política e organização social no centro de São Paulo”.
Segundo Chã, a localização no bairro Campos Elíseos ocorre pela disputa simbólica de território que tem diferentes tipos de circulação. “Há uma grande circulação de trabalhadores, movimentos sociais e iniciativas culturais independentes”, pontua.
Ela define a prática cultural na região como uma atuação em um cenário de “muitas contradições, desigualdades sociais, gentrificação, mas também por diversidade cultural”, onde a cultura aparece associada à convivência e à “produção coletiva”.

A poucos quilômetros do Campos Elíseos, no icônico prédio em frente à Estação da Luz, está Pinacoteca de São Paulo. O diretor-geral do museu, Jochen Volz, destaca que a instituição é entendida como um “organismo vivo, profundamente enraizado em seu entorno” e às dinâmicas daquela região.
“A ocupação e a requalificação de edifícios históricos, como o da Luz, da Estação Pina e da Pina Contemporânea, reforçam nosso compromisso com o patrimônio arquitetônico e urbano, integrando passado e futuro. O acervo, as exposições e as pesquisas dialogam com as urgências do presente e com histórias muitas vezes silenciadas”, diz.
A integração entre cultura e infraestrutura urbana é analisada pela diretora-executiva do Instituto Pólis, Cássia Caneco. Ela descreve a cultura como “elemento da infraestrutura da vida urbana” e “jeito como os corpos ocupam o espaço”.
Caneco pontua que os espaços independentes buscam contar histórias que não estão sendo contadas, que estão sendo invisibilizadas.
“O centro não é só lugar de consumo, de passagem, mas também de ocupação, de permanência, de criação, de conflito. Eu acho que isso é bastante permeado por questões de tensão, de disputa. É sobre quem pode produzir cultura, produzir narrativas sobre o centro, sobre a cidade, enfim, que histórias a cidade conta”, explica.
A função social da cultura no centro também se manifesta em projetos de formação e redução de danos e se faz presente em diversos coletivos que atuam com a população em situação de extrema vulnerabilidade social. Um exemplo é o Cinefluxo, um coletivo de cinema independente que promove redução de danos por meio de exibições e oficinas audiovisuais desde 2021, a partir do encontro entre artistas, assistentes sociais e trabalhadores da região.
O grupo passou a se reunir para realizar sessões de cinema no quarteirão da rua dos Protestantes, onde há concentração de frequentadores da região conhecida como Cracolândia.
Com um carrinho de supermercado adaptado, equipado com bateria de carro, projetor e caixas de som, o coletivo levou, por anos, não apenas filmes, mas insumos de redução de danos, como piteira, camisinha, kit de higiene, pipoca e suco.
O Cinefluxo utiliza a linguagem do cinema como ferramenta de reinserção, afeto e resistência. Igor Mariwaki, um dos idealizadores do coletivo, lembra do uso do audiovisual para que pessoas em situação de vulnerabilidade desenvolvam o “valor do pertencimento”.

Mariwaki conta que o projeto iniciará, em fevereiro, aulas de história da arte e roteiro para um grupo de cerca de 20 pessoas, dentre as quais, algumas fazem atualmente uso problemático de substâncias.
Para o idealizador, o cinema e a literatura permitem “ver a vida pelos olhos de outra pessoa” e auxiliam no processo de “enxergar uma outra saída” para quem vive em contextos de exclusão. Segundo Mariwaki, o trabalho envolve o autoconhecimento e pertencimento.
“Ao trabalhar a redução de danos junto com a cultura, a gente envolve não somente a redução de danos, mas envolve o autoconhecimento também. O valor do pertencimento, de pertencer a um grupo, a um coletivo”, diz.
Ao longo de 2024, as sessões de cinema se expandiram para outros territórios, como a Favela do Moinho, o Largo do Arouche, a Ocupação Mauá e a aldeia indígena Tekoa Itakupe, no Pico do Jaraguá. Essa itinerância impactou o coletivo e seus integrantes ao ampliar repertórios, fortalecer vínculos e incorporar aprendizados a partir do contato com diferentes territórios e modos de vida.
“Passamos a desenvolver oficinas de cinema, convidando os próprios participantes a contar suas histórias e a atuar em todas as etapas da realização audiovisual, atuação, câmera, roteiro, direção de arte e produção. Esse movimento representou um salto qualitativo no projeto. A partir dele, fomos caminhando no sentido de uma construção mais horizontal, com objetivos mais claros e compartilhados. Sedimentando, assim, a realização de um trabalho autoral, com filmes de ficção e documentários”, conta Mariwaki.
O Brasil de Fato lançou, nesta quinta-feira (12), a plataforma Lugar de Memória – Observatório Cultural. O projeto é dedicado à difusão da memória e das expressões culturais do centro da cidade de São Paulo (SP). A plataforma reúne conteúdos que destacam as dinâmicas sociais, culturais e simbólicas da região.
O observatório busca evidenciar a intensa produção cultural, diversidade artística e processos contínuos de construção coletiva que pulsam na região, a partir dos eixos “patrimônio”, “identidade” e “memória”.