
O governo da China anunciou que recorrerá à Justiça para proteger os direitos de sua empresa de Hong Kong que operava os portos de Balboa e Cristóbal, no Canal do Panamá, considerando a medida panamenha injusta e prejudicial aos investimentos chineses na região.
“A posição da China sobre questões relativas aos portos panamenhos é clara. Defenderemos firmemente os direitos e interesses legítimos e legais de nossas empresas”, declarou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, nesta sexta-feira (27), em Pequim.
Sobre a decisão do Panamá de retirar a concessão da empresa chinesa, Mao ressaltou que espera que as disputas sejam resolvidas de forma “justa e razoável, respeitando os contratos existentes e garantindo a continuidade das operações portuárias”.
“Nosso país apoiará as medidas legais adotadas pela empresa envolvida para salvaguardar seus interesses, reafirmando o compromisso de proteger os direitos legítimos e legais de nossas empresas, garantindo segurança jurídica para investimentos internacionais em infraestrutura crítica”, afirmou.
A declaração reafirma o compromisso oficial da China em proteger seus interesses comerciais e marca a mais uma reação de Pequim diante da decisão unilateral panamenha. O governo chinês espera que os acordos contratuais existentes sejam respeitados e que disputas sejam resolvidas de forma justa, com base em normas internacionais de comércio e investimentos.
Os terminais de Balboa e Cristóbal, posicionados estrategicamente nas entradas do Canal do Panamá, rota vital para o comércio global, eram operados há mais de 25 anos pela subsidiária chinesa CK Hutchison Holdings por meio da Panama Ports Company.
Ao longo desse período, foram realizados investimentos superiores a US$ 1,8 bilhão em infraestrutura portuária, modernização de guindastes, sistemas de manuseio de carga e tecnologia de ponta, consolidando a presença chinesa como pilar da operação portuária da região, em um dos pontos logísticos mais importantes do mundo.
O Panamá decidiu retirar a concessão da empresa de Hong Kong CK Hutchison, responsável pela operação dos portos de Balboa e Cristóbal, após decisão da Suprema Corte panamenha, que alegou irregularidades nos contratos de concessão.
Como consequência, o governo panamenho assumiu temporariamente o controle dos portos e transferiu a concessão para operadores europeus, como a APM Terminals, ligada ao grupo dinamarquês Maersk, assumindo o terminal de Balboa, e a Terminal Investment Ltda, ligada à suíça MSC, assumindo o terminal de Cristóbal.
A mudança administrativa coloca em risco mais de US$ 1,8 bilhão em investimentos chineses, aplicados ao longo de décadas em modernização de terminais, sistemas de manuseio de carga e infraestrutura portuária de ponta. O episódio evidencia a importância de proteger os direitos da China e reforça o peso de sua presença estratégica no Canal do Panamá.
Pressões de interesses estadunidenses podem ter influenciado a decisão do Panamá de retirar a concessão da empresa chinesa CK Hutchison, refletindo a histórica influência de Washington sobre a América Latina, especialmente em infraestrutura estratégica e rotas comerciais vitais.
A transferência da operação dos portos para operadores europeus, somada à ação legal da China, evidencia que a disputa vai muito além do âmbito empresarial, envolvendo interesses geopolíticos globais e colocando o Canal do Panamá no centro de uma tensão internacional por comércio e influência estratégica.
O Canal do Panamá movimenta cerca de 5% a 6 % de todo o comércio marítimo global, sendo crucial para rotas entre Ásia, América e Europa. A China se tornou um dos maiores usuários do canal, respondendo por aproximadamente 21,4 % do volume de carga que passou pela via, consolidando sua presença estratégica e econômica na região. Mao Ning ressaltou que a ação legal da China não visa apenas proteger uma empresa, mas garantir segurança jurídica para investimentos internacionais em infraestrutura crítica.
A presença chinesa na América Latina tem crescido de forma significativa nos últimos anos, com investimentos superiores a US$ 187 bilhões entre 2003 e 2022 em portos, infraestrutura, energia e telecomunicações. O comércio entre a China e a região ultrapassa US$ 500 bilhões recentemente, consolidando o país asiático como um parceiro estratégico.
Ao mesmo tempo, a influência dos Estados Unidos na região tem apresentado sinais de declínio. A China já representa cerca de 16,9% do comércio total da América Latina com o mundo, superando a União Europeia e aproximando-se da participação estadunidense. Esse movimento mostra que países latino-americanos estão diversificando seus parceiros comerciais, reduzindo gradualmente a dependência de Washington e fortalecendo laços com Pequim.