
Os anos 1990 ficaram marcados na cultura pop por inúmeros motivos – principalmente na sétima arte. Além da popularização exponencial das comédias românticas, que se estenderia para a dez seguinte, tivemos uma revitalização do gênero slasher para as produções de terror. Em seguida o impacto significativo de títulos uma vez que ‘Halloween’, ‘Sexta-Feira 13’ e ‘A Hora do Pesadelo’, 1996 trouxe às telonas o icônico primeiro capítulo de ‘Pânico’, apostando fichas em uma narrativa metalinguística e autoconsciente que conquistaria o público e a sátira.
Não demorou muito até que uma estética similar fosse levada aos cinemas novamente, dessa vez sob o espectro de ‘Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Pretérito’. Fundamentado no romance homônimo de Lois Duncan, o longa-metragem apostou fichas na estética dos anos 1970 para narrar a luta pela sobrevivência de um grupo de amigos que, no feriado de 4 de julho, atropelou um varão e resolveu se livrar do corpo e nunca mais falar sobre o ocorrido. Porém, um ano mais tarde, cada um deles começa a receber mensagens ameaçadoras que vêm acompanhadas de um homicida com uma roupa de navegador e um gancho agudo que os coleta um a um. O filme se tornou um clássico cult com o passar do tempo e ajudou a perpetuar Jennifer Love Hewitt e Freddie Prinze Jr. uma vez que Julie James e Ray Bronson.
Quase três décadas mais tarde, a diretora Jennifer Kaytin Robinson resolveu revitalizar a franquia com o lançamento de uma sequência-reboot, seguindo os passos de ‘Pânico’ e de ‘Halloween’ ao arquitetar uma história que se mantém leal à identidade do original ao apresentar aos fãs uma novidade geração de vítimas. Co-escrevendo o roteiro ao lado de Sam Lansky, Robinson apresenta a cinco amigos: Danica (Madelyn Cline), Ava (Chase Sui Wonders), Milo (Jonah Hauer-King), Teddy (Tyriq Withers) e Stevie (Sarah Pidgeon). Assim uma vez que o primeiro filme da saga, eles se envolvem em um trágico acidente de sege, atropelando e matando um pedestre. Decidindo se livrar do sucumbido e fazer um juramento, cada um deles segue seu próprio caminho – até que, um ano mais tarde, um serial killer começa a caçá-los em um ímpeto de vingança e justiça deturpada.
Lançando-se a uma missão para desvendar quem é o homicida e por que ele está fazendo aquilo, os amigos percebem que aquilo já aconteceu antes – recorrendo à ajuda de Julie James e Ray Bronson, que retornam em seus status uma vez que personagens-legado de maneira a escoltar o retorno de Sidney Prescott (Neve Campbell) e Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) em suas respectivas franquias. E, apesar das boas intenções e da reapresentação desse icônico universo a uma novidade geração, o resultado é muito aquém do esperado e nos frustra por não ousar além de obviedades cansativas e previsíveis.
Um dos principais problemas do projeto é o roteiro: Robinson e Lansky se mostram apaixonados o suficiente e conhecedores da mitologia eternizada por Kevin Williamson e Jim Gillespie décadas detrás, promovendo homenagens claras que pretendem edificar uma epístola de paixão ao legado deixado pela dupla. Todavia, esses propósitos nunca se concretizam ao serem regurgitados em diálogos sofríveis e unidimensionais, que transformam cada um dos protagonistas em meros estereótipos de um gênero que, volta e meia, começa a provar fadiga. Em outras palavras, não há zero de novo a ser visto – e o momento de maior inspiração é com o retorno dos supracitados personagens-legado, que aparecem uma vez que breves conhecedores desse sanguinolento pesadelo e roubam os holofotes em uma clara invasão saudosista.
Em virtude de arquétipos superficiais, a atuação do elenco se rende a representações familiares demais para serem levadas a sério – e com one-liners que nos fazem soltar risadas de nervosismo, desperdiçando o talento de nomes uma vez que Cline, Wonders e Hauer-King. Demais, a expansão da mitologia é muito ocasional para produzir palpabilidade ou nos engajar na narrativa, nos levando a imaginar que as coisas poderiam ter tido outro rumo caso pensadas com maior esmero e desvelo. Ao menos Hewitt e Prinze Jr. se divertem ao tornar para esse panteão do horror, fazendo questão de provar uma vez que os traumas de um pretérito remoto lhe causaram marcas e continuam a assombrá-los (da maneira que for).
O desvelo estético existe e cumpre com a praticidade da vexação causada pela presença do serial killer e pelas mortes que orquestra para, enfim, conseguir sua vingança – nos guiando por sequências do mais puro caos que prezam pelo entretenimento e, em segmento, conseguem inferir o objetivo. E, à medida que caminhamos para uma reviravolta que, dentro das limitações autoimpostas e em meio a atribulações de ritmo e dinamismo, faz sentido e mostra que ninguém está a salvo de se render à malícia.
O novo ‘Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Pretérito’ tem o coração no lugar evidente – mas isso não é o bastante para nos convencer da premência dessa sequência. Contando com personagens inéditos que não trazem zero para além do esperado, o projeto vale a pena pelo retorno de Julie James e Ray Bronson e pelas breves pulsões de nostalgia que entrega para os espectadores.