A demanda da China por alimentos, que historicamente impulsionou as exportações do agronegócio brasileiro, começa a mostrar sinais de estabilização. Um estudo da Embrapa Territorial, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), revela que o consumo per capita de alimentos na China está se aproximando de um ponto de saturação, um fenômeno comum em economias em desenvolvimento.
De acordo com a analista Daniela Tatiane de Santos, essa desaceleração pode ser explicada pela Lei de Engel, que sugere que, à medida que a renda das famílias aumenta, a proporção do gasto com alimentos tende a diminuir. Assim, os recursos começam a ser direcionados para lazer, serviços e bens duráveis, impactando diretamente a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro.
Impactos na produção rural e no mercado
O estudo aponta que, embora algumas categorias alimentares na China ainda apresentem crescimento, esse aumento ocorre em um ritmo consideravelmente mais lento. Produtos como carnes, leite e frutas, que eram os carros-chefes das importações brasileiras, estão enfrentando uma desaceleração significativa.
Por exemplo, o crescimento do consumo de leite, que superava 10% ao ano nos anos 2000, caiu para apenas 0,6% entre 2020 e 2022. Essa mudança pode afetar diretamente os produtores brasileiros, que devem se adaptar a um mercado em transformação.
Além disso, a China já ultrapassou o Brasil e até mesmo alguns países europeus em consumo per capita de certos alimentos. O consumo de frutas, por exemplo, saltou de 4,3 quilos na década de 1960 para 108,7 quilos em 2022, o que indica um mercado maduro e exigente.
Desafios e oportunidades para o agronegócio brasileiro
Apesar da estabilização da demanda chinesa, a soja brasileira continua sendo um insumo estratégico para o país asiático, principalmente para ração animal. No entanto, especialistas alertam que o Brasil deve diversificar seus mercados e reduzir a dependência da China, que é tanto o principal comprador quanto fornecedora de fertilizantes.
O professor Marcelo Pinho destaca que a China já tomou medidas para limitar a importação de carne bovina, o que pode ser um sinal de que o Brasil precisa se preparar para um cenário de mudanças. A suspensão das exportações chinesas de fosfatados em março de 2026 também acende um alerta sobre a vulnerabilidade do setor.
Para garantir a sustentabilidade das exportações, o agronegócio brasileiro deve investir em logística, diversificação de mercados e fortalecer acordos comerciais com regiões como a União Europeia e o Oriente Médio. A competitividade do Brasil no mercado internacional dependerá não apenas da capacidade produtiva, mas também da habilidade em estabelecer relações comerciais de longo prazo.











