
Israel iniciou, na madrugada de terça-feira (noite de segunda-feira no Brasil) uma incursão terrestre no território libanês, no que o governo israelense considera ser a “nova fase” na guerra contra o Hezbollah, milícia que é alvo de pesados bombardeios há pelo menos duas semanas. A ofensiva ocorre dois dias após a confirmação da morte do líder do grupo político-militar, Hassan Nasrallah, atingido por um bombardeio contra a base do Hezbollah nos subúrbios de Beirute.
Em comunicado, as Forças Armadas de Israel afirmaram que a operação realizará “ataques limitados, localizados e direcionados” contra o Hezbollah em áreas próximas à fronteira, e que esses locais representam “uma ameaça imediata às comunidades israelenses”. O texto diz ainda que a operação, chamada de “Flechas do Norte” envolve forças terrestres, com o apoio da aviação e de artilharia, em um “em um esforço coordenado”.
Não há sinais, neste momento, que a operação possa se expandir para além dessas regiões: segundo o site Axios, citando integrantes do governo israelense, o objetivo é que a incursão seja limitada, e os planos não incluem uma nova ocupação do sul do Líbano, como a ocorrida entre 1982 e 2000.
Ao longo do dia, forças terrestres se concentraram perto da divisa entre Israel e Líbano, e em visita aos militares na área, o ministro da Defesa, Yoav Gallant, sinalizou que a invasão era iminente, e que seria mais um passo no que os israelenses veem como uma operação militar crucial para garantir a segurança do norte do país, alvo recorrente dos mísseis do Hezbollah.
— A eliminação de Nasrallah é um passo importante, mas não é o final. Para garantir o retorno das comunidades do norte de Israel, empregaremos todas as nossas capacidades, e isso inclui vocês — afirmou Gallant, se dirigindo aos militares de uma brigada localizada na região.
Imagens de satélite obtidas pela rede CNN mostraram cerca de 100 veículos militares, entre tanques e blindados, a cerca de 8 km da divisa, e informações adicionais apontam que os equipamentos começaram a chegar à região no dia 26 de setembro — um dia antes do ataque aéreo que matou Hassan Nasrallah em um subúrbio de Beirute.
Quando a noite já havia caído na fronteira nesta segunda-feira, os bombardeios se intensificaram, e sinalizadores — usados em movimentos de tropas por terra — começaram a ser vistos. Um jornalista da rede do Catar al-Jazeera, reportando ao vivo de Marjayoon, do lado libanês da fronteira, interrompeu por algumas vezes sua participação por causa de disparos de artilharia. Em comunicado, o Hezbollah afirmou ter atacado posições israelenses nos arredores de Odaisseh e Kfar Kila, e garantiu ter provocado estragos. Israel não se pronunciou.
Ao mesmo tempo, o gabinete de segurança israelense estava reunido nos arredores de Tel Aviv, e a imprensa israelense afirmou que no encontro, presidido pelo premier, Benjamin Netanyahu, foi dada a autorização para a “nova fase” da operação contra o Hezbollah. Há cerca de duas semanas, Netanyahu afirmou que um novo objetivo da guerra travada com o grupo libanês e na Faixa de Gaza era o retorno da população ao norte de Israel — desde outubro do ano passado, dezenas de milhares de pessoas deixaram a região por causa dos lançamentos quase diários de mísseis e foguetes.
Diante da intensidade dos combates, os integrantes da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), presente na área desde 1978, não conseguem se movimentar para posições mais seguras, tampouco realizar as funções previstas pelo seu mandato na fronteira. Hoje, a força é composta por cerca de 10 mil integrantes,
— Nossos Capacetes Azuis da UNIFIL permanecem em posição na área de responsabilidade da missão, enquanto a intensidade dos combates impede seus movimentos e capacidade de realizar suas tarefas obrigatórias”, disse Stephane Dujarric, porta-voz do Secretário-Geral da ONU, em entrevista coletiva. — Dada a intensidade dos foguetes indo e voltando, eles não conseguem fazer patrulhas.
Os militares do Líbano também abandonaram, horas antes da invasão, posições próximas à fronteira com Israel, se reposicionando a cerca de 3 km da divisa. Autoridades do país não confirmaram ou negaram a movimentação, que pode ter como objetivo evitar um confronto direto com as tropas de Israel — o Hezbollah, apesar de ser uma das maiores forças militares não estatais do mundo, não tem relação formal com as forças de defesa do Líbano.
Segundo a rede CNN, citando fontes do governo americano, Israel já realizou ações terrestres pontuais antes mesmo do anúncio do início da invasão. Segundo a fonte, seriam atos de preparação para a incursão iniciada nesta segunda-feira — um funcionário ouvido pela CNN afirmou que a ação israelense deve ser restrita à fronteira e a estruturas do Hezbollah usadas em ataques.
Contudo, existe o temor em Washington de que os planos possam ter sido alterados nas últimas horas, e agora tenham em vista uma invasão de grande porte do território libanês. Pela manhã, o presidente americano, Joe Biden, disse que as ações israelenses dentro do Líbano deveriam parar.
— Sei mais do que vocês podem imaginar e estou confortável com eles parando — disse Biden a um jornalista, na Casa Branca, após ser questionado se estava confortável com a operação. — Deveríamos ter um cessar-fogo agora.
Enquanto os veículos militares aguardavam a autorização vinda do gabinete de segurança, a capital do Líbano, Beirute, voltava a ser atingida por pesados bombardeios, que agora atingiram a área central da cidade. Contudo, a maior parte dos ataques se concentrou no subúrbio de Dahyeh, conhecido por ser o bastião do Hezbollah — também houve bombardeios em Laylaki, al-Marija, Harert Hreik e Burj al-Barahneh, com uma intensidade maior do que a vista nos últimos dias. Segundo a Agência Nacional de Informação, que é estatal, os ataques “causaram a destruição de várias estruturas, especialmente complexos residenciais”. E o número de vítimas foi elevado, apontou o governo.
“Os ataques inimigos israelenses mataram 95 pessoas e feriram 172 nas últimas 24 horas”, afirmou o Ministério da Saúde, em comunicado.
Além do Líbano, foram relatadas explosões em Damasco, na Síria, cidade que também é alvo recorrente da aviação israelense. O governo sírio disse, em comunicado, ter interceptado “alvos hostis” perto da capital.
Pouco antes da confirmação da incursão militar no Líbano, Netanyahu fez um discurso em tom ameaçador voltado ao Irã, principal apoiador político, financeiro e militar do Hezbollah. O premier afirmou que a morte de Nasrallah e de outras lideranças do grupo libanês mostraram que “não há um lugar sequer no Oriente Médio que Israel não possa atingir”. E completou dizendo que a eventual queda do regime dos aiatolás “virá mais cedo do que as pessoas pensam”.
— Quando esse dia chegar, a rede terrorista que o regime construiu em cinco continentes estará falida, desmantelada. O Irã prosperará como nunca antes: investimento global, turismo massivo, inovação tecnológica brilhante baseada nos tremendos talentos que existem dentro do Irã. Isso não soa melhor do que pobreza, repressão e guerra sem fim? — disse Netanyahu, chamando as lideranças iranianas de “pequeno grupo de fanáticos”.
Mensagens do premier aos iranianos não são exatamente uma novidade, mas o contexto e o tom usado desta vez acendem alguns alertas. Há anos Israel e Irã travam uma guerra não declarada e marcada por sabotagens, assassinatos — especialmente de cientistas nucleares — e pelo uso de forças aliadas na região, como o Hezbollah.
Mas após o início da guerra em Gaza, há quase um ano, os padrões desse conflito mudaram, e passaram a incluir bombardeios diretos contra interesses iranianos, como contra o consulado do país em Damasco, provocando também uma resposta militar iraniana.
Ao atacar o Hezbollah e matar seu líder, Hassan Nasrallah, na semana passada, Netanyahu parece mostrar que não está disposto a poupar esforços para, segundo ele, atingir a vitória total, e isso pode incluir um ataque ao Irã, algo que potências externas, como os EUA e países europeus, tentam evitar. Mas com um premier israelense que parece alheio aos pedidos de seus antigos aliados para interromper os combates no Líbano, o número de pessoas que acredita na diplomacia para impedir esse embate diminui a cada dia.
Ao mesmo tempo em que Israel aperta o tom do discurso, o Irã dá sinais de que não pretende se envolver na guerra no Líbano. Em comunicado emitido nesta segunda-feira pelo Ministério das Relações Exteriores, Teerã afirma que não enviará tropas para ajudar o Hezbollah a enfrentar a invasão israelense, mas que não tem medo da guerra e defende um Oriente Médio mais estável.
— Eles [Hezbollah] têm capacidade e força para se defenderem da agressão — afirmou, prometendo ainda que Israel “não ficará sem repreensão e punição pelos crimes que cometeu contra o povo iraniano, o pessoal militar e as forças de resistência”.