
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou o discurso anual de “Estado da União”, desta terça-feira (24) ao Congresso em Washington, para celebrar intervenções militares na América Latina e no Oriente Médio, renovar ameaças ao Irã e reafirmar o “domínio” dos EUA sobre o “Hemisfério Ocidental”, um eufemismo usado para defender o intervencionismo na América Latina e Caribe.
No pronunciamento mais longo já registrado na história da cerimônia, a América Latina foi retratada exclusivamente como palco de operações militares e pressão diplomática estadunidense.
O discurso de Estado da União é uma obrigação constitucional do presidente dos Estados Unidos, realizada anualmente perante o Congresso em sessão conjunta. Na prática, é um dos principais palanques políticos do chefe da Casa Branca, usado para apresentar um balanço do ano, anunciar prioridades legislativas e projetar a agenda para o período seguinte, com transmissão ao vivo para todo o país. O pronunciamento deste ano tem uma importância maior, já que acontece em ano eleitoral nos EUA: em novembro, os estadunidenses renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado.
Além das falas de Trump, o pronunciamento foi marcado por protestos da oposição. Em determinado momento, a deputada democrata Ilhan Omar interrompeu o presidente enquanto ele atacava “imigrantes irregulares”. “Vocês mataram cidadãos estadunidenses”, gritou, em referência às mortes de dois manifestantes durante operações anti-imigração conduzidas por agentes federais em janeiro deste ano. A congressista deixou o plenário antes do fim do discurso.
Trump dedicou um bom trecho do discurso para celebrar o ataque militar à Venezuela que finalizou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores. Trump descreveu a invasão como “uma vitória colossal para a segurança dos Estados Unidos”.
Trump usou a invasão à Venezuela para fazer um teatro no plenário do Congresso. Trouxe um ex-preso venezuelano, apresentou-o aos congressistas e encenou o momento como mostra de que a operação militar teve caráter humanitário. O presidente não mencionou, porém, o assassinato de mais de cem pessoas durante o ataque, por parte do exército estadunidense.
Trump também continua fomentando a estratégia de usar o narcotráfico na América Latina como desculpa para o intervencionismo estadunidense. No discurso, afirmou que “grandes partes do México” estão há anos sob controle de cartéis “assassinos” e celebrou a designação dessas organizações como terroristas estrangeiras e do fentanil como “arma de destruição em massa”. Junto com o Canadá, o México é um dos principais parceiros comerciais dos EUA.
Na véspera do discurso, porém, o ministro da Defesa mexicano, Ricardo Trevilla, declarou em coletiva de imprensa que cerca de 80% das armas recuperadas em cenas de crime no México foram compradas nos Estados Unidos e contrabandeadas pela fronteira.
A substituição do jihadismo pelo narcoterrorismo como ameaça central à segurança estadunidense foi explicitada na última Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, na mesma lógica usada para invadir países do Oriente Médio, agora replicada nos países latino-americanos.
Em relação ao Irã, Trump voltou a exaltar a Operação Martelo da Meia-Noite, o ataque estadunidense a três instalações nucleares iranianas em junho de 2025, como prova de que seu governo “destruiu” o programa nuclear de Teerã. A propaganda evidencia uma contradição, já que, se o programa foi destruído, não haveria necessidade de negociações.
Há alguns dias, o enviado de Trump, Steve Witkoff, afirmou que o Irã está “a uma semana” de ter material para uma bomba nuclear. Uma ideia que líderes e mídia comercial dos Estados Unidos repetem há décadas.
Trump afirmou preferir uma solução diplomática. “Uma coisa é certa: jamais permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo obtenha uma arma nuclear.” Em seguida, reafirmou o orçamento de defesa de 1 trilhão de dólares aprovado pelo Congresso no ano passado, o maior da história estadunidense.
Curiosamente, a China praticamente não foi mencionada no discurso de quase uma hora e quarenta. A maior economia do mundo (por Paridade de Poder de Compra), foi citada apenas uma vez, de passagem e de forma pejorativa. Ao descrever a invasão à Venezuela, Trump mencionou que a fortaleza militar de Maduro era “protegida por tecnologia militar russa e chinesa” e ironizou: “deu certo para eles? Parece que não muito”.
Dias antes do discurso, a Suprema Corte dos EUA derrubou a principal ferramenta usada por Trump para implementar suas tarifas recíprocas. A China é o alvo central do tarifaço, e Trump mencionou a derrota judicial brevemente, prometendo contorná-la por vias alternativas.
A omissão pode estar relacionada à proximidade de uma possível visita de Trump a Pequim. O mandatário estadunidense visitaria a China de 31 de março a 2 de abril, na primeira visita oficial de um presidente estadunidense à China desde 2017. A informação teria sido dada à Reuters por um funcionário da Casa Branca, mas Pequim não confirmou nem a data nem a visita.
No plano interno, Donald Trump apresentou uma série de indicadores como evidência de um suposto “boom histórico” em sua gestão. Mas as cifras mostram uma realidade diferente. A economia estadunidense cresceu 2,2% em 2025, um desempenho menor ao registrado em qualquer ano do governo Biden, que fechou 2024 com alta de 2,8%. Além disso, a taxa de desemprego subiu de 4,0% em janeiro de 2025 para 4,3% em janeiro de 2026.
Sobre os cortes de impostos aprovados pelo Congresso, Trump os classificou como “os maiores da história estadunidense”, apresentando-os como uma conquista. Mas, segundo a Tax Foundation, o pacote está na sexta posição no ranking histórico de cortes de impostos nos EUA.
Além disso, essa entidade aponta que os cortes se concentraram de forma desproporcional entre os contribuintes de alta renda, enquanto famílias com renda inferior a 55 mil dólares anuais saíram prejudicadas, em razão dos cortes simultâneos em programas sociais como Medicaid e assistência alimentar.