As duas irmãs de Uberaba que foram vítimas de tráfico humano e ficaram presas em Madagascar retornaram ao Triângulo Mineiro. A informação foi confirmada por Cintia Meireles, representante brasileira da ONG The Exodus Road, que presta auxílio aos 23 brasileiros envolvidos no caso.
As mineiras viajaram para o exterior neste ano após receberem uma falsa promessa de emprego. Segundo os relatos, elas foram mantidas por criminosos e obrigadas a trabalhar em esquemas internacionais de golpes financeiros. Depois de fugirem e receberem ajuda financeira de familiares e amigos, conseguiram voltar ao Brasil.
De acordo com Cintia, as irmãs só conseguiram retornar com o apoio de pessoas próximas, que custearam as passagens. A representante afirmou que a resposta da Embaixada Brasileira em Maputo, em Moçambique, e do Itamaraty não chegou no momento esperado. Os brasileiros ficaram em uma residência de uma organização internacional aguardando assistência e repatriação. Ainda segundo ela, seis dos 23 brasileiros continuam esperando suporte para voltar.
A The Exodus Road atua internacionalmente no combate e na conscientização sobre o tráfico humano. A organização foi procurada por uma líder missionária de uma ONG de Madagascar, onde os brasileiros estavam presos, e passou a auxiliar na segurança e no retorno das irmãs de Uberaba.
Cintia alertou que o tráfico humano pode atingir jovens que recebem propostas de trabalho aparentemente vantajosas. Segundo ela, os brasileiros devem desconfiar de ofertas com salários altos, passagens, alimentação e moradia incluídas, especialmente quando chegam por aplicativos de mensagens e sem informações formais sobre a empresa, como site e endereço físico.
As irmãs foram atraídas pela promessa de emprego e de uma nova vida, mas acabaram presas em um complexo usado para aplicar golpes financeiros em diferentes países. Elas chegaram a ser detidas pela polícia local e relataram suspeitas de envolvimento de autoridades com o esquema criminoso.
Uma das mulheres contou que enfrentava dificuldades financeiras e recebeu, em março, uma proposta de trabalho no exterior feita por uma pessoa conhecida. Em abril, ela e a irmã, de 24 anos, embarcaram com destino à Tailândia. Ao chegarem ao país, descobriram que seriam levadas para o Camboja.
No país asiático, a mineira afirmou ter percebido que se tratava de tráfico humano. Segundo o relato, as vítimas eram obrigadas a seguir as ordens da máfia chinesa e sofriam agressões, além de restrições de alimentação e água quando se recusavam a trabalhar.
Após uma operação policial no Camboja, o grupo foi transferido para Madagascar. Três pessoas que conseguiram fugir fizeram denúncias, o que levou a uma operação no local onde as brasileiras estavam mantidas. A mulher afirmou que os policiais não queriam ajudar as vítimas e que elas ficaram cinco dias presas em condições precárias, com comida estragada.
Segundo o relato, depois que a polícia negociou com a máfia, os brasileiros conseguiram fugir durante uma troca e foram para um aeroporto. Eles permaneceram quatro dias no local sem, de acordo com a vítima, receber ajuda da embaixada, do Itamaraty ou do governo brasileiro.
De acordo com Cintia, existem complexos de golpes espalhados pelo mundo. Nesses locais, que podem abrigar até seis mil pessoas, seriam aplicados golpes do amor, de investimentos e falsas abordagens em nome da Polícia Federal, entre outros.
A representante explicou que as vítimas recebem propostas com passagem aérea, moradia e trabalho incluídos, mas têm os passaportes retirados ao chegar. Depois, são obrigadas a praticar golpes cibernéticos. No caso dos brasileiros, segundo ela, o trabalho ocorreu em regime de servidão por dívida e sob ameaças da máfia chinesa.
Enquanto as irmãs ainda estavam presas no exterior, o governo federal informou que tomou conhecimento da existência do grupo em 21 de agosto. Em nota, afirmou que a Embaixada Brasileira em Maputo prestava assistência consular aos brasileiros e mantinha contato com eles.
O Itamaraty também declarou estar em contato com as autoridades locais para esclarecer a situação pessoal e processual dos brasileiros e assegurar o respeito aos direitos deles. O governo informou ainda que a repatriação é uma medida excepcional, não constitui direito adquirido e depende do cumprimento de critérios e requisitos.
Segundo a representante da The Exodus Road, a assistência oferecida pelo governo foi insuficiente e não havia um esforço ativo para ajudar as vítimas que permanecem no exterior. A reportagem solicitou um posicionamento do órgão sobre o caso, mas não havia recebido resposta até a publicação das informações.











