
Com o futuro político da Síria ainda sob incerteza, o ministro da Informação do governo de transição nomeado pelo movimento islâmico Hayet Tahrir al-Sham (HTS), Mohammed al-Omar, afirmou que as novas autoridades pretendem garantir uma imprensa livre e o direito à liberdade de expressão no país, após cerca de cinco décadas de ditadura e 13 anos de uma guerra civil que amordaçou a mídia quanto a qualquer sinal de dissidência ao regime de Bashar al-Assad.
— Houve restrições severas à liberdade de imprensa e expressão sob o regime, que praticava a censura. Na próxima fase, trabalharemos para reconstruir um campo midiático sírio livre, objetivo e profissional — declarou Omar, em uma entrevista concedida à agência de notícias francesa AFP. — Estamos trabalhando para consolidar as liberdades de imprensa e de expressão que estavam severamente restritas nas regiões do regime deposto.
A sinalização pareceu uma tentativa de tranquilizar jornalistas que trabalharam sob o jugo de Assad, mas se recusaram a ser o que o ministro classificou como “instrumentos de propaganda”. Ainda de acordo com Omar, os profissionais que se encaixem neste perfil seriam “chamados a voltar aos seus postos”.
— Queremos meios que reflitam as culturas sírias em sua diversidade, refletindo suas ambições, que transmitam suas preocupações e sirvam de vínculo entre o povo e o governo — acrescentou na entrevista à AFP.
Para jornalistas que colaboraram com Assad, o destino parece mais opaco. Em 13 de dezembro, o Ministério da Informação já havia publicado um comunicado no qual anunciou a intenção das novas autoridades de punir “todos os jornalistas que fizeram parte da máquina de guerra e propaganda do regime deposto e que contribuíram de maneira direta ou indireta para promover seus crimes”.
As novas autoridades do governo de transição têm feito vários gestos e declarações para tranquilizar as minorias da Síria, um país multiétnico e multiconfessional, assim como as delegações diplomáticas ocidentais e árabes em Damasco — enquanto muitos observadores ainda temem que em vez de um governo secular, os novos encarregados pelo poder decidam por instaurar alguma vertente de governo religioso, que possa vir a oprimir liberdades e indivíduos.
Poucas horas depois de a aliança tomar Damasco, os meios de comunicação estatais que enalteciam a glória de Assad passaram a classificar o “regime criminoso” do líder deposto, publicando nas redes sociais a bandeira de três estrelas que simboliza o levante popular contra o então governo.
Quando estouraram as manifestações pró-democracia em 2011, o movimento foi sufocado por uma forte repressão, e os rebeldes que pegaram em armas foram classificados pelas autoridades como “terroristas”. A ideia neste momento, disse o ministro — que anteriormente liderou o mesmo departamento no autoproclamado “governo de salvação” instalado pelo HTS no reduto rebelde de Idlib —, é provocar um efeito contrário.
— Não queremos seguir da mesma forma, ou seja, com uma imprensa oficial cujo objetivo é limpar a imagem do poder — indicou Omar.
Ainda na entrevista, o ministro disse querer “reduzir a burocracia e facilitar o trabalho da imprensa estrangeira”, uma medida que alteraria o status-quo no qual a mídia estrangeira estava sob constante escrutínio, e seus jornalistas tinham dificuldades para obter vistos.
Na terça-feira, o ministro conversou com dezenas de jornalistas sírios para discutir a transição. (Com AFP)