A Mistral AI liberou os pesos do Large 4, modelo de inteligência artificial com 1 trilhão de parâmetros que pode ser baixado e executado por empresas e governos em seus próprios sistemas. Apelidada de “Le Chonk”, a ferramenta foi projetada para identificar vulnerabilidades em softwares, analisar ameaças digitais e auxiliar na resposta a ataques cibernéticos.
O lançamento ocorreu nesta quinta-feira (29) e reforça a estratégia da empresa francesa de investir em modelos de pesos abertos, que oferecem maior controle sobre a tecnologia. Os arquivos estão disponíveis no Hugging Face, e o modelo também pode ser acessado pela API da Mistral.
De acordo com a proposta da empresa, a execução do Large 4 em infraestruturas próprias pode reduzir a dependência de serviços de inteligência artificial controlados por fornecedores externos. A opção é especialmente relevante para organizações que lidam com informações sensíveis e precisam analisar incidentes de segurança sem transferir dados para plataformas de terceiros.
Segundo a Mistral, o Large 4 tem 1 trilhão de parâmetros no total, dos quais 52 bilhões são ativados durante cada tarefa. O modelo é multimodal, com capacidade para processar formatos como textos e imagens, além de gerar respostas e códigos.
A empresa afirma que a IA foi treinada em uma infraestrutura própria na Europa, com 3,8 mil GPUs NVIDIA Grace Blackwell. O sistema também foi desenvolvido para programação, execução de tarefas com agentes de IA e compreensão de informações multimodais.
O modelo havia sido apresentado em uma versão de testes no início de outubro. Desde então, a Mistral ampliou o treinamento e incorporou avaliações e comentários de clientes e parceiros para aprimorar o desempenho da versão liberada ao público.
A cibersegurança é um dos principais focos do lançamento. O Large 4 foi desenvolvido para ajudar equipes técnicas a localizar vulnerabilidades, reproduzir falhas para verificar se são reais e criar correções para os problemas encontrados.
Segundo a Mistral, o modelo obteve 82% no Artificial Analysis Cyber Index, teste que avalia a capacidade de reproduzir uma vulnerabilidade real em um software de código aberto e, posteriormente, corrigi-la. A empresa também afirma que a IA resolveu 93% dos desafios do Cybench, conjunto formado por 40 exercícios inspirados em competições de segurança digital.
Os resultados foram divulgados pela própria desenvolvedora e devem ser considerados dentro das condições específicas de cada avaliação. Além da identificação de falhas, a Mistral aponta possíveis usos em análise de malware, priorização de vulnerabilidades e criação de regras para detectar ameaças.
A empresa também destaca o desempenho do modelo em programação. No Coding Agent Index, da Artificial Analysis, o Large 4 alcançou pontuação combinada de 49,8%, de acordo com dados divulgados pela desenvolvedora. A Mistral afirma que o resultado coloca o modelo à frente de outras opções de pesos abertos em tarefas de programação executadas por agentes de inteligência artificial.
Os pesos são os valores numéricos aprendidos durante o treinamento que permitem ao modelo produzir respostas. Com a liberação desses arquivos, as organizações podem executar o Large 4 em sua própria infraestrutura, sem depender exclusivamente de um serviço externo. Isso amplia a autonomia sobre os dados, a configuração da ferramenta e as políticas de segurança.
Em uma situação crítica, por exemplo, uma empresa poderia usar o modelo para investigar um ataque sem depender da disponibilidade ou das restrições de uma API de terceiros.
Em entrevista ao TechCrunch, Pierre Stock, vice-presidente de ciência da Mistral, afirmou que a disponibilização dos pesos permite que empresas e governos tenham acesso a recursos avançados de inteligência artificial para se defender de ataques. Segundo ele, o modelo pode ajudar a identificar, coordenar e responder a grandes incidentes de segurança em tempo real.
Stock também defendeu a ampliação do acesso a essas capacidades para fortalecer o ecossistema de proteção digital. A estratégia coloca a Mistral em concorrência com empresas como OpenAI e Anthropic, cujos modelos mais avançados são oferecidos principalmente por meio de serviços controlados pelas próprias desenvolvedoras.
A abertura do modelo, no entanto, também traz riscos. Depois que os pesos são disponibilizados, torna-se mais difícil controlar quem utiliza a tecnologia e com quais finalidades. A mesma capacidade de analisar vulnerabilidades pode interessar a agentes maliciosos que buscam explorar falhas em sistemas.
A execução independente permite ainda que as organizações adaptem o modelo às próprias necessidades, mas as restrições aplicadas em um serviço hospedado não necessariamente acompanham todas as versões modificadas.
Stock reconheceu os riscos associados ao avanço da inteligência artificial e aos agentes autônomos, mas afirmou que não é necessário ampliar o medo em torno da tecnologia. Para ele, a segurança é um desafio que pode ser enfrentado.
A Mistral afirma que o Large 4 foi desenvolvido para fortalecer a defesa cibernética e realizar tarefas técnicas que sistemas mais restritivos podem recusar, mesmo em pesquisas legítimas de segurança. Com o lançamento, a empresa amplia a oferta de modelos avançados que podem ser executados e adaptados pelos próprios usuários. O desafio será equilibrar o acesso a ferramentas de defesa digital com os riscos de uso indevido.











