Os modelos de inteligência artificial (IA) da Anthropic estão avançando quase duas vezes mais rápido do que antes, segundo uma avaliação independente da organização sem fins lucrativos Model Evaluation and Threat Research (METR).
O estudo, divulgado nesta quinta-feira (5), estima que o desenvolvimento das capacidades dos modelos em tarefas bem definidas ocorreu a uma velocidade 1,9 vez maior desde outubro de 2025, na comparação com o ritmo registrado anteriormente.
De acordo com a METR, cerca de 80% da aceleração pode estar relacionada ao uso dos próprios sistemas de IA da Anthropic em atividades de pesquisa e desenvolvimento. A estimativa, porém, tem alto grau de incerteza.
A avaliação foi realizada durante 11 semanas, entre agosto e outubro de 2026. Os pesquisadores tiveram acesso a dados internos da empresa, entrevistaram funcionários e analisaram informações sobre o desempenho de modelos que ainda não foram divulgados publicamente.
A organização afirmou também que o aumento da capacidade computacional usada no treinamento não explica a aceleração observada.
Como a IA é usada no desenvolvimento de outras IAs
O levantamento indica que pesquisadores da Anthropic utilizam ferramentas de IA para escrever códigos, conduzir experimentos e executar outras atividades relacionadas ao desenvolvimento de modelos. Com isso, determinadas tarefas podem ser realizadas mais rapidamente, liberando os profissionais para outras etapas da pesquisa.
A METR encontrou relatos de funcionários sobre ganhos expressivos de produtividade. Em pesquisas internas informais, algumas estimativas de velocidade chegaram a 12 vezes em outubro de 2026. A organização, entretanto, considera esses números pouco confiáveis, pois se baseiam em avaliações subjetivas e podem superestimar o impacto real da tecnologia.
As entrevistas também apontaram ganhos relevantes, embora os resultados tenham variado conforme a atividade analisada. A maior parte do avanço ainda estaria relacionada à assistência da IA aos profissionais, e não à execução autônoma de todo o processo de desenvolvimento.
A METR disse não ter encontrado evidências de que os sistemas atuais já consigam fazer contribuições altamente significativas e totalmente independentes nas etapas mais importantes do treinamento de modelos. Ainda assim, os pesquisadores identificaram sinais de que esse tipo de participação pode aumentar no futuro.
O que é o autoaperfeiçoamento recursivo
O avanço identificado pela METR está relacionado ao conceito de autoaperfeiçoamento recursivo, conhecido pela sigla RSI, em inglês. A ideia é que sistemas de IA contribuam cada vez mais para a criação de novas gerações de modelos.
Com sistemas mais capazes ajudando a desenvolver seus sucessores, o processo poderia se acelerar progressivamente. Esse cenário ainda não foi alcançado de maneira plenamente autônoma, mas levanta questões sobre o ritmo de evolução da tecnologia.
Uma das preocupações apontadas pela METR é a possibilidade de a aceleração se tornar cumulativa. Modelos mais avançados poderiam ajudar a criar sistemas ainda mais capazes, que novamente acelerariam o desenvolvimento.
A organização não identificou gargalos claros relacionados a poder computacional, disponibilidade de dados ou experimentos que necessariamente impediriam novos avanços nos 12 meses seguintes. Os pesquisadores ressaltaram, contudo, que essa avaliação também envolve incertezas.
Limitações e preocupações de segurança
A METR reconhece limitações importantes no estudo. A aceleração de 1,9 vez foi calculada com base no desempenho em tarefas bem definidas, avaliadas por testes automatizados ou modelos de linguagem. Isso não significa que todas as habilidades da IA estejam evoluindo no mesmo ritmo.
Além disso, a Anthropic pôde retirar informações confidenciais do relatório. Segundo a METR, parte relevante das evidências usadas nas conclusões foi omitida, o que dificulta a avaliação independente de todos os detalhes.
A organização também destacou que há incerteza sobre quanto da aceleração pode ser atribuído diretamente ao uso de IA, especialmente em relação aos avanços registrados no fim de 2025.
Os resultados foram divulgados enquanto o CEO da Anthropic, Dario Amodei, defende cautela no desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados. Em setembro, o executivo pediu que o setor desacelerasse o avanço das capacidades da tecnologia para permitir que as medidas de segurança acompanhassem o ritmo das melhorias.
O estudo afirma que compreender a velocidade dessa evolução é importante para avaliar riscos. Caso os sistemas passem a contribuir de forma cada vez mais significativa para o desenvolvimento de seus sucessores, o monitoramento e o controle também poderão se tornar mais difíceis.











