O pedreiro Edmar Rocha Martins, de 49 anos, viajou mais de 2 mil quilômetros entre o Maranhão e Minas Gerais após receber, pelas redes sociais, um convite para morar com uma mulher que se apresentava como fazendeira. Ela prometia sustentá-lo caso ele aceitasse viver com ela no interior mineiro.
Convencido de que encontraria a suposta companheira, Edmar gastou R$ 2,3 mil em uma passagem de ônibus com destino a Belo Horizonte. Ao chegar à capital, porém, descobriu que a mulher não existia como ele imaginava: tratava-se de uma personagem criada por inteligência artificial (IA).
Edmar conheceu o perfil por meio de vídeos publicados nas redes sociais. Nas imagens, a personagem aparecia em cenários rurais, com gado, fazendas e celeiros, e dizia querer encontrar um companheiro. Ela também convidava seguidores a morar com ela, com as despesas pagas.
“Vim porque me deu a curiosidade de conhecer a pessoa que estava mandando mensagem para mim, para ver se era verdade mesmo”, contou o pedreiro.
O perfil tem mais de 300 mil seguidores. Nas publicações, a personagem se apresenta como fazendeira em Minas Gerais, promete moradia e sustento a um futuro companheiro e aparece em anúncios de roupas e outros produtos. Em um dos vídeos, afirma: “Eu vou sustentar você, se você vier morar comigo aqui no interior de Minas”.
A estratégia também envolve pedidos para que os seguidores enviem dinheiro por Pix, sob a promessa de que os valores ajudariam interessados a viajar para o encontro. Edmar disse que não transferiu dinheiro ao perfil. Segundo ele, o prejuízo foi o valor gasto na passagem de ônibus.
Depois de chegar a Minas Gerais, o pedreiro passou por diferentes lugares de Belo Horizonte tentando descobrir onde encontrar a suposta companheira. Como não conseguiu localizá-la, recebeu alertas de outras pessoas de que os vídeos poderiam ter sido produzidos artificialmente.
Para o especialista em tecnologia Marcos Flávio, pessoas com menos familiaridade com ferramentas digitais podem ter mais dificuldade para identificar imagens e vídeos gerados por inteligência artificial. Respostas rápidas e personalizadas também podem reforçar a impressão de que o usuário está conversando com uma pessoa real.
Sem dinheiro suficiente para permanecer em Belo Horizonte, Edmar procurou a Unidade de Atendimento e Acolhimento ao Migrante da prefeitura. Ele recebeu orientação, assistência e uma passagem para retornar ao Maranhão.
“Estou indo embora e não encontrei ninguém. Gastei meu salário para vir. Fiquem alerta, pessoal. Não entrem nessa”, afirmou em entrevista à Record.
De acordo com a coordenação da unidade municipal, o caso foi o terceiro envolvendo uma situação semelhante atendido pelo serviço em menos de seis meses. A ocorrência chama a atenção para o uso de inteligência artificial na criação de personagens que simulam pessoas reais e fazem promessas de relacionamento, dinheiro ou melhores condições de vida.
A unidade municipal oferece atendimento e orientação a pessoas que chegam à capital mineira em situação de vulnerabilidade, além de encaminhamentos para o retorno à cidade de origem ou para o reencontro com familiares.
Até a publicação da matéria, não havia informações sobre quantas pessoas acreditaram nas promessas do perfil nem sobre quem administra a página. A Polícia Civil foi procurada para informar se o caso seria investigado, mas não havia respondido.











