

Usado para dar amargor, aroma e sabor à cerveja, o lúpulo acaba de ganhar uma nova utilidade. Trabalho realizado por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP) revelou que resíduos industriais da planta (Humulus lupulus L.) são boas opções para a fabricação de fórmulas de protetores solares.
A grande quantidade de resíduo da substância gerada e descartada na produção da bebida foi o ponto de partida do estudo multidisciplinar, que reuniu expertises complementares em produtos naturais e fotoproteção bioativa.
O lúpulo é adicionado ao preparo da cerveja em dois momentos, durante a fervura do mosto e, em algumas receitas, após a fermentação, etapa conhecida como dry hopping. Essa segunda fase tem como objetivo conferir aroma à bebida, mas nem todas as substâncias presentes nos pellets (flores de lúpulo secas, moídas e prensadas) são extraídas. Assim, uma fração relevante de compostos bioativos permanece no material descartado.
Segundo os pesquisadores, isso faz com que ele seja uma rica fonte de compostos bioativos, como ácidos amargos, polifenóis e óleos essenciais. Entre eles, os polifenóis têm atraído especial atenção por suas fortes propriedades antioxidantes, o que faz com que tenham potencial para proteger a pele da ação prejudicial provocada pelos raios ultravioleta. Por isso, a biomassa proveniente da indústria cervejeira se tornou alvo da pesquisa.
Na etapa conduzida pelo Laboratório de Farmacognosia, o resíduo de lúpulo foi submetido à extração com etanol, seguido da secagem do extrato e análises químicas. Também foi preparado um segundo extrato a partir de lúpulo que não havia passado pelo processo de fabricação da cerveja, permitindo a comparação entre o material “puro” e o reutilizado.
No Laboratório de Cosmetologia os extratos foram incorporados, isoladamente (na concentração de 10%), em formulações fotoprotetoras em creme que continham dois filtros solares tradicionais, um com proteção UVB e o outro UVA.
“Também foram avaliadas diferentes combinações com ingredientes cosméticos comumente utilizados em protetores solares, como água purificada e emolientes, como miristato de isopropila, palmitato de isopropila e triglicerídeos do ácido cáprico-caprílico, a fim de investigar qual composição proporcionaria melhor desempenho”, conta André Rolim Baby, professor associado da FCF-USP e um dos coordenadores do estudo.
A eficácia fotoprotetora foi determinada por um dos métodos in vitro mais robustos e reconhecidos internacionalmente, a espectrofotometria de refletância difusa com esfera de integração. Essa tecnologia é capaz de calcular o fator de proteção solar (FPS) e demais parâmetros relacionados à proteção solar, como a proteção de amplo espectro.
“Quando comparamos o lúpulo de resíduo e o lúpulo sem ter passado pelo processo de fabricação de cerveja, vimos que a substância de reuso é mais ativa. Isso acontece provavelmente por causa da eliminação das substâncias voláteis envolvidas na fabricação da cerveja, deixando compostos que têm ligações químicas necessárias para a fotoproteção”, diz Daniel Pecoraro Demarque, também do FCF-USP.
De acordo com Baby, embora os resultados tenham sido obtidos no ensaio in vitro, a investigação representa uma prova de conceito promissora. “Mas, para essa ideia chegar ao mercado, são necessários estudos e validações complementares, como a estabilidade em longo prazo do protetor solar, padronização dos compostos bioativos e avaliação clínica de segurança e eficácia”, afirma.
*Texto escrito por Thais Szegö, da Agência Fapesp
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