Teste Renault Duster Iconic Plus 1.3 TCe 2026: desafiante desafiado

Há uma frase cunhada por nosso diretor Fábio Trindade que vira e mexe se aplica: “não tem carro ruim, tem preço errado”. Em resumo, essa é a vida do Renault Duster agora, após o lançamento do Renault Kardian no ano passado. Seus preços partem de R$ 137.390 pela versão Intense Plus 1.6 manual e chegam a R$ 171.290 pela Iconic Plus 1.3 TCe automática aqui testada. Território perigoso.

A versão mais cara foi testada pelo Motor1.com Brasil em março do ano passado e, na época, custava R$ 155.890, um aumento de R$ 15.400 entre a linha 2024 e a 2026 das fotos. A Iconic Plus 1.3 TCe automática é a única equipada com o motor turbo, que perdeu um pouco de potência no início do ano por conta da entrada em vigor de novas regras de emissões.

Sua proposta de valor é difícil de encarar, ficando perto de versões mais completas de VW T-Cross e Hyundai Creta. Além disso, o Duster está numa posição estranha, acima do Kardian e abaixo do futuro Renault Boreal. Infelizmente tenho idade para lembrar do lançamento do primeiro Ford EcoSport e de como o mercado esperou por anos um rival à altura.

O Renault Duster foi o primeiro a desafiar o SUV da Ford, nunca o superou em vendas e, após anos e diversos rivais a mais, o da Renault não parece estar em posição desafiar ninguém. Ainda assim, a versão mais cara do Duster é um dos produtos mais únicos do segmento de SUVs compactos se você der uma chance.



Foto de: Motor1.com

No papel, poucos destaques

Se você olhar a lista de itens de série do Renault Duster Iconic Plus 1.3 TCe automático 2026, não encontrará muitos pontos altos que não são encontrados – ou superados – por rivais na mesma faixa de preço. O SUV traz de série luz diurna de LED, farol baixo de LED (facho alto halógeno) e luzes de neblina e de milha convencionais. A lanterna traseira é de LED.

O Duster mais completo ainda conta com direção elétrica, ar-condicionado digital de uma zona, ajuste de altura para o banco do motorista, bancos revestidos de couro sintético, sensores de estacionamento traseiros, câmera de ré, central multimídia com tela de 8″, conectividade sem fios, carregador por indução, rodas de 17″ (pintadas de preto desde a chegada da linha 2026), acendimento automático dos faróis e sensor de chuva.



Foto de: Motor1.com



Foto de: Motor1.com



Foto de: Motor1.com

O Duster também não se redime em segurança. Além de itens obrigatórios, tem 6 airbags (frontais, laterais e de cortina), câmeras com visão 360º e monitor de ponto cego. É uma lista enxuta – para não dizer outra coisa – e que deve em itens de assistência à condução.

Desde seu lançamento em 2011, a proposta do Duster sempre foi a de oferecer mais espaço por menos. E nada muda na linha 2026. O SUV tem 4,36 m de comprimento e entre-eixos de 2,67 m. Seu porta-malas é o maior da categoria: 475 litros. São números que o colocam o Duster mais perto de um Jeep Compass cobrando o equivalente a um Jeep Renegade 4×2 mais caro. Pena que existe uma coisa que chama CAOA Chery Tiggo 7, maior que os três, e que pode ser adquirido por preços partindo de R$ 140 mil.



Foto de: Motor1.com

Mesmo quando o Duster encontra uma brecha para se destacar, o mercado está tão concorrido que não é difícil encontrar um competidor, direto ou indireto, que o supere. Peguemos os números do motor 1.3 TCe como mais um exemplo: entregava até 170 cv e 27,5 kgfm com etanol. Bons números, mas os do Renegade eram melhores (até 185 cv e o mesmo torque). Com as novas regras de emissões, o da Jeep foi a 176 cv, mas o da Renault também caiu, para 163 cv mantendo os 27,5 kgfm. O Duster sempre tenta, mas quase nunca consegue ser o melhor.

Se há um ponto positivo da recalibração de seu motor é que, curiosamente, está andando mais e bebendo menos. Veja a evolução em relação ao ano modelo 2024 testado no ano passado na tabela abaixo:



Foto de: Motor1.com

Renault Duster 1.3 TCe (números com etanol) ano/modelo 2024 ano/modelo 2026
Aceleração 0 a 100 km/h 9,9 segundos 9,08 segundos
Retomada 40 a 100 km/h 7 segundos 6,41 segundos
Consumo Urbano: 6,9 km/l
Rodoviário: 10,1 km/l
Urbano: 7,9 km/l
Rodoviário: 10,3 km/l

E mesmo sem conseguir um descanso, o Duster segue aí, firme e forte. Parece o personagem Merovíngio em “Matrix Reloaded” (2003) que, ao fugir do protagonista Neo, fala: “eu sobrevivi aos seus antecessores e vou sobreviver a você”. O SUV da Renault viu a ruína do EcoSport, a chegada de dezenas de rivais e até concorrência dentro de casa que o levou a um novo posicionamento de preço ao qual ele não pertencia, perdendo metade de seu apelo. E mesmo assim, contra todas as expectativas, o Duster segue no mercado. Não é possível, tem que ter um motivo para isso…



Foto de: Motor1.com

De desafiante a desafiado

Foi com muito mais perguntas do que empolgação que peguei o Duster Iconic Plus para testar. É curioso que Renault se esforçou: colocou apêndices plásticos nas laterais, uma barra no para-choque dianteiro para abrigar os faróis de milha (que são de milha mesmo, só acendem com o farol alto), alguns detalhes em laranja para contrastar e, ainda assim, é um visual que passa desapercebido. A Renault também não se ajuda e oferece apenas cores discretas no catálogo.

A cabine é simples, idem para o acabamento. Está anos-luz à frente do primeiro Duster, que mais parecia um Logan por dentro, mas fica atrás de T-Cross e, principalmente, do Renegade nesse quesito. Mas, se você olhar para cima e para os lados, vai perceber um espaço bem maior. E isso se reflete em maior conforto para quem vai na frente, mesmo se for grande. Os ombros não se aproximam das colunas, há muita margem para erguer o banco.



Foto de: Motor1.com

Reflexo de um projeto mais antigo, o console central não é gigante, nem tem altura para bater no seu cotovelo. Se você não gosta da impressão que alguns SUVs passam de estarem te abraçando, serem grandes por fora e apertados por dentro, o Duster é um dos poucos que vai te atender.

Como o Duster também é mais largo, o banco traseiro consegue levar três adultos de fato. Em tese, caberiam até dois assentos infantis nas pontas e um passageiro no assento central. O porta-malas vou repetir: é o maior da categoria e beira os 500 litros. Se você precisa de mais que isso, é melhor ligar na Volkswagen e pedir um Delivery Express de uma vez.



Foto de: Motor1.com

Mais uma vez, o Duster se salva pelo espaço interno, como sempre fez. Mas não vai ficar sem alguns puxões de orelha: um Kardian ter painel digital desde a versão básica e Duster não oferecer isso nem na versão mais cara é motivo para uma conversa de canto lá na fábrica de São José dos Pinhais (PR). A multimídia continua lenta, mas dessa vez não simplesmente travou como em outros carros da Renault que testei anteriormente. O assento do motorista é muito alto, mesmo na regulagem mais baixa. Ótimo para quem gosta de andar nas alturas, mas só.

O Duster até facilita um pouco sua vida, com as câmeras 360º para ajudar nas manobras, tem um isolamento acústico a par dos rivais e tem uns resquícios de cuidado: o capô tem dois amortecedores para mantê-lo aberto em um segmento que parece que você precisa agradecer por ter uma varetinha para cumprir a função.

Andando, sofre da síndrome “pós-PL8”: depois da recalibração no início do ano para atender às regas de emissões do Proconve L8, o Duster demora para responder inicialmente, o que te faz instintivamente acelerar mais, aí ele responde com mais força do que você gostaria. Mas esse efeito de elástico é algo muito comum na categoria. 



Foto de: Motor1.com

O câmbio CVT tenta compensar esse efeito e é bem calibrado. Não deixa o giro ficar alto ao menos que você demande potência total. No geral, pagar a mais pelo 1.3 turbo é muito mais negócio que ficar o 1.6 aspirado das versões de entrada. O único que desafia o Duster 1.3 TCe em desempenho é o Renegade.

Na estrada, o SUV da Renault com motor mais forte também brilha. Comportado, silencioso e, para meu espanto, até um tanto firme nas curvas. A 120 km/h, o motor está a 2.300 rpm e as viagens ficam bem tranquilas. Mesmo se você andar carregado, aproveitando todo o espaço do Duster, tem torque sobrando para compensar.

Mesmo com a surpresa, não consegui pensar em um caso em que o Duster Iconic 1.3 TCe fosse objetivamente a melhor opção. Mas a vida do SUV da Renault sempre foi um desafio, seja ante o progenitor da categoria, dezenas de rivais e até canibalismo em casa, o Duster nunca teve vida fácil, se apegando ao preço mais baixo e ao excelente espaço interno. Como fica agora, que a Renault tirou o elemento de preço baixo dessa equação?

Vou propor um exercício: finja que você precisa de espaço. Isso já vai eliminar quase todos os SUVs compactos de seu escopo e talvez até o Compass. Se precisa do espaço, precisa de desempenho para levar muita coisa. Você, como eu, detesta que os carros estão sendo dominados por telas e interações por superfícies de toque. Viram o que eu fiz? Acabei de explicar porque o Duster 1.3 TCe ainda está aqui.



Foto de: Motor1.com

Não há outro carro que reúna espaço, capacidade e simplicidade nessa faixa de preço. Pode não ser o maior nicho de mercado, mas tem mantido a Renault feliz o suficiente para manter o SUV em linha. Só que, se quisessem vender mais, precisariam tirar ao menos R$ 20 mil dos preços. Deixaria de parecer “o carro errado” e seria mais “preço certo”.

O Renault Duster nasceu como um desafiante, mas foi desafiado sua vida inteira. Parece que se acostumou a estar na desvantagem e isso lhe dá força para seguir em frente. Pode não impressionar muita gente, mas os poucos que são impressionados por eles, não o trocariam por outro carro. Não é fórmula para campeão de venda, mas é o que trouxe o SUV até aqui. 

Renault Duster 1.3T 2026




Motor

dianteiro, transversal, 4 cilindros, 16 válvulas, 1.332 cm3, comando duplo variável, injeção direta, turbo, flex




Potência e torque

156 (G) / 163 (E) cv de 5.500 a 6.000 rpm; 27,5 kgfm de 1.600 a 3.750 rpm




Transmissão

câmbio automático CVT com simulação de 8 marchas; tração dianteira




Suspensão

McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, rodas de liga-leve aro 17″ com pneus 215/60 R17




Comprimento e entre-eixos

4.376 mm; 2.673 mm




Largura

1.832 mm




Altura

1.693 mm




Peso

1.353 kg em ordem de marcha




Capacidades

tanque 46 litros; porta-malas 475 litros




Preço como testado

R$ 171.290




Aceleração

0 a 60 km/h: 4,2 s; 0 a 80 km/h: 6,3 s; 0 a 100 km/h: 9,1 s (etanol)




Retomada

40 a 100 km/h (em D): 6,4 s; 80 a 120 km/h (em D): 6,1 s




Consumo de combustível

cidade: 7,9 km/litro; estrada: 10,3 km/litro (etanol)

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