
Trabalhando em montadoras ou cobrindo eventos de lançamentos uma vez que repórter, vivenciei muitas experiências marcantes ao longo dos últimos 35 anos. Sempre entendi, em uma ou outra função, que duas coisas eram e são fundamentais para uma (boa) apresentação: o review muito detalhado e o test drive mais longo, onde o jornalista possa testar o carruagem em diversos tipos de pisos e vias públicas.
Já houve marca famosa e de extremo prestígio que levou um grupo enorme de jornalistas brasileiros para Buenos Aires a término de saber um novo veículo. Para logro de todos, o test drive era um mero rolezinho no recinto da fábrica. Não chegava a 800 metros de contato com o resultado. Pensa em um grupo de jornalistas bravos? A empresa te leva pra Argentina, você fica fora de mansão praticamente três dias… pra marchar menos de 1 km no novo veículo?
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Natividade: Motor1.com
Uma regra que sempre utilizei: definido o lugar do evento de lançamento, convém escolher muito o trajectória. Quando eu trabalhava na JAC Motors, lá no início, em 2011 ou 2012, por exemplo, sempre evitava escolher roteiros de test drive que fossem muito sinuosos e, principalmente, com pisos irregulares, visto que a maioria dos modelos (J3, J5, J6) possuía suspensão traseira muito macia – e esse tipo de estrada iria substanciar essa percepção negativa.
Anos depois, com suspensões mais muito calibradas, uma vez que a do T40, bolamos um trajectória de 130 km entre São Paulo e uma cidade do interno em que os repórteres podiam testar o carruagem em autoestradas, estradas vicinais, trechos urbanos, de terreno, paralelepípedos (!!), serrinhas, curvas de subida, curvas fechadas, descidas e subidas mais íngremes. Pensa uma situação em que um carruagem deva ser testado? Sim, havia. Só que não são todas as montadoras que acertam nisso.
Mercedes-Benz Classe S 2021
Uma vez, eu fui pra Alemanha para saber a novidade geração do Mercedes-Benz Classe S. O pé de boi da família ali tinha lá seus 250 cv. O S600 (motor V12) chegava quase a 400 cv. E era “o sedã” da Mercedes-Benz. Os caras deram a largada na porta da fábrica, em Stuttgart, e disseram: “te vejo em Lucerna (Suíça)”. Eram murado de 280 km, sendo boa secção desse trecho em território teuto por autobahnen, aquelas rodovias onde não há limite de velocidade. Tipo: “se vira aí. Pé no porão e até lá”. Escolha perfeita para aquele tipo de resultado.
Só que o evento de apresentação da SLS (a novidade asa de gaivota) foi feito, anos depois, na Rota Panamericana no México. Zero contra, a não ser pelo trajo de o trecho escolhido ter piso de concreto, não asfalto. A cada 200 metros, você ouvia um “tum” acentuado nas emendas do piso. Com suspensão firme, a reverberação do “tum” vinha até o volante. Incomodava. E poderia sugerir que a suspensão era áspera, quando, na verdade, a culpa era do piso. Qual outro lugar, exceção feita a um ou outro viaduto, você encontraria essas malditas emendas de concreto?? Cá a MB errou.
Foto de: Mario Villaescusa / Motor1.com
Em agosto de 2002, a Volkswagen promoveu o lançamento do Polo 1.0 16V no litoral catarinense. No test drive, nós descíamos de Joinville para Florianópolis, ou seja, um roteiro praticamente ao nível do mar. E faz uma tremenda diferença em motores (principalmente com inferior rendimento) a avaliação em localidades com baixas altitudes. Sabia disso? Vc perde 1% de potência a cada 100 metros de altitude (em motores aspirados). Embora as injeções modernas compensem um pouco, o oxigênio recebido “pobre” não fará milagres.
Isso quer proferir que um suve de 150 cv perde uns 10 cv em São Paulo. Ao contrário disso, a maior pressão atmosférica (ao nível do mar) faz com que o motor “respire” melhor e ofereça o rendimento previsto. Ou seja: lá na BR 101, o Polo tinha verdadeiramente os 79 cv declarados na ficha técnica. Porquê o roteiro escolhido era um “descidão”, você mal percebia a falta de fôlego do motorzinho.
Só que a General Motors, poucos dias antes, fizera a apresentação da Meriva com motor 1.8, em um roteiro que ia de Guarulhos a Campos do Jordão, interno de SP. Essa cidade fica a 1.600 m de altitude e só é acessada depois de vencer a subida de uma serra repleta de curvas fechadas. Ou seja: tudo inexacto. Minivan é o tipo de carruagem que aderna nas curvas e não se lança carruagem pesado na subida!
Os jornalistas que estiveram nos dois eventos chegaram a comentar: “não parece que o Polo anda mais?” Não era só sensação, não. Lá no basta de Campos do Jordão, os 102 cv da Meriva reduziam-se a 84 ou 85 cv (ar rarefeito). Porquê a minivan era muito mais pesada que o Polo 1.0, e o teste foi feito na subida de serra, andava menos mesmo.
Porsche 911 Carrera GTS (992)
Foto de: Motor1 Brasil
Isso gera polêmica. Há muitos jornalistas que não gostam de test drives em autódromos, mas eu tenho a opinião de que qualquer coisa supra de 300 cv se torna imperceptível para se testar em vias públicas. Carros com 300 cv ou 400 cv ou 500 cv são iguais na rua. Eles só serão devidamente testados em autódromos, que são os locais onde você poderá chegar aos limites. Nessas circunstâncias, você consegue apurar as diferenças mais próximas.
Poucas semanas detrás, eu participei do evento de lançamento do Porsche 911 992.2. O padrão “indispensável”, de “ingresso”, é o Carrera, que possui motor biturbo de 394 cv. É um carruagem que faz 0 a 100 km/h em 4,1 segundos. Aí você desce desse carruagem e sobe no novo GTS, que inclui a tecnologia T-Hybrid (motores elétricos no câmbio e no turbo): ele tem 541 cv e faz 0 a 100 km/h em 3 segundos. São diferenças significativas de desempenho, evidente. Mas que, insisto: só podem ser sentidas numa pista, exatamente o que a Porsche proporcionou no Autódromo Velocittá (Mogi das Cruzes, SP).
Agora eu gostaria de narrar uma história muito pessoal, que não mostra erro ou acerto de nenhuma montadora. Vale unicamente pelo “causo” mesmo.
Eu era estagiário em 1989 da Autolatina, holding que geria os negócios de Volkswagen e Ford no Brasil. Logo no meu primeiro evento, que era o motor AP-1800 que passaria a equipar o Escort (versões Ghia e XR-3), meu gerente me manda até a fábrica da Ford, em São Bernardo do Campo. “Vai na Oficina, procura o fulano e pede pra ele carregar a caçamba dessa F1000 com o motor que ficará exposto no display do evento”.
Ao chegar lá, o fulano me deu uma canseira de umas 3 horas. Finalmente apontou onde estava o motor: um caixote de madeira, semidesmontado. Sabe atrevimento de estagiário?? “Põe essa porra aí na caçamba e eu vou levar assim mesmo!” Ao que o simpático respondeu: “tô indo almoçar. Põe você”. Bom, lá fui eu, suado e cansado, com o motor desmontado em direção do hotel onde seria feito o evento, no núcleo de SP.
Passei antes na oficina do meu pai – ele fazia manutenção de empilhadeiras –, peguei um kit indispensável de ferramentas emprestadas e me debandei para a rua Augusta. O relógio marcava 18h30 horas.
Eu entendo de motor. Mas uma coisa é entender, a outra é trabalhar neles. Apanhei de todas as chaves fixas que você imaginar. Levei surras das chaves de frincha. Terminei a montagem por volta de 00h30 do outro dia. Quanto tempo um mecânico teria levado? 2 horas? Levei o triplo.
Foto de: Motor1 Brasil
Final de 2006, a VW andava borocoxô. A marca se arrastava com Gol, Kombi, Santana… e zero de novo havia no horizonte. Essa demanda acabou sendo discutida e propostas estratégicas pra reaver o prestígio foram colocadas. O “lançamento” que serviria de cenário era o do Novo Polo, onde fizemos um test drive de quase 200 km – para primar o ótimo handling daquela geração – e até uma prova de rigidez torcional, em que aquele carruagem era réplica. Isso deveria resgatar um pouco do prestígio da marca.
VW Polo IV 2.0 GT 2008 (BR)
Foto de: Motor1 Brasil
Para completar, sugeri um quiz com os jornalistas. Nele, eu colocaria key messages que enaltecessem as virtudes não só da marca, escondidas em perguntas e respostas, mas que também valorizassem a empresa. E que tinham pouca aderência se proferidas de modo tradicional. Virei o “apresentador”, no palco. Mais de 100 jornalistas na plateia e eu lendo as perguntas. Exemplo:
“A Instalação VW já destinou recursos para quantas crianças desde 1979, quando foi fundada?
Todo mundo acertava, óbvio. E a retenção da informação era muito maior. (Estratégia, lembra?)
Locamos aquelas máquinas de teclas múltiplas de respostas e eu ia lendo as questões. Quem errasse, caía fora. Eu mando essa no microfone: “todos os grandes pilotos brasileiros tiveram marcantes passagens com a Volkswagen nas pistas”. Vira um jornalista e rebate:
— Eu comecei na Despensa Fiat!
Não perdi a chance da piada.
— Por isso que sua curso de piloto não foi pra frente…!!”