
A Nissan anunciou um acordo com a Uber e a startup britânica de inteligência artificial Wayve para operar um serviço piloto de robotáxis em Tóquio ainda neste ano. O projeto reúne três áreas complementares: a Nissan será responsável pelos veículos, a Uber fornecerá a plataforma de mobilidade e a Wayve contribuirá com o sistema de direção autônoma baseado em inteligência artificial.
A fabricante japonesa participará do programa com versões adaptadas do Nissan Leaf de terceira geração, apresentado em 2025. Esses carros servirão de base para a integração do software de condução autônoma da Wayve e dos sensores necessários à operação automatizada. A ideia é aproveitar a experiência da Nissan com veículos elétricos para testar robotáxis silenciosos e não poluentes em um dos centros urbanos mais densos do mundo.
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Para a marca japonesa, o projeto também tem valor estratégico: participar de um serviço de mobilidade autônoma pode ajudar a fortalecer sua presença em áreas como software embarcado e integração com plataformas digitais.
Pioneira da eletrificação ao lançar o primeiro Leaf em 2010, a Nissan chegou a liderar por vários anos o mercado global de carros elétricos. Em março de 2020, porém, o Tesla Model 3 ultrapassou o Leaf e tornou-se o BEV mais vendido da história.
Desde então, a empresa japonesa passou a ser vista como um caso de estagnação tecnológica e hoje não figura sequer no Top 10 dos maiores fabricantes globais de veículos elétricos, tendo sido superada por companhias como BYD, Geely, Volkswagen, SAIC, BMW, Hyundai-Kia, GAC, Changan e GM.
Executivos da Nissan, Uber e Wayve posam com o Leaf robotáxi
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No projeto do robotáxi, a Uber será responsável por integrar o serviço ao seu aplicativo de mobilidade. O sistema permitirá que os usuários solicitem viagens normalmente pelo app, que então despachará um veículo autônomo disponível.
No Japão, onde o transporte de passageiros é altamente regulamentado, o serviço deverá ser operado por um parceiro local licenciado de táxi, enquanto a Uber atuará como plataforma tecnológica e de intermediação.
Depois de encerrar seu programa interno de desenvolvimento de carros autônomos — o Advanced Technologies Group (ATG) — em 2020, a empresa passou a adotar uma estratégia diferente: atuar mais como “plataforma para autonomia” do que como desenvolvedora direta da tecnologia.
Em vez de um único sistema próprio, a Uber passou a integrar ao seu aplicativo veículos autônomos desenvolvidos por diferentes empresas, como Waymo, Aurora e Motional, dependendo do mercado e das parcerias locais.
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O elemento mais inovador da parceria está no software da Wayve. A empresa britânica desenvolve um sistema de direção autônoma baseado em inteligência artificial que dispensa mapas em alta definição.
Enquanto alguns concorrentes dependem de mapas extremamente detalhados para navegar, o sistema da Wayve utiliza uma abordagem conhecida como “mapless”, baseada em aprendizado de máquina. Por meio de câmeras e sensores, o software interpreta o ambiente em tempo real e aprende a dirigir de forma semelhante a um motorista humano.
Assim, o Wayve AI Driver pode adaptar-se a situações novas sem depender de um “trilho digital” previamente programado. A empresa afirma que já testou essa tecnologia em centenas de cidades e vem aplicando o sistema também em projetos de veículos de entrega no Reino Unido. A tecnologia é vista como especialmente promissora para cidades complexas como Tóquio, onde ruas estreitas, cruzamentos irregulares e grande fluxo de pedestres representam desafios para sistemas baseados em mapas estáticos.
A estratégia da Wayve é atuar como fornecedora de software para fabricantes de automóveis. Um dos projetos em desenvolvimento prevê integrar essa tecnologia à próxima geração do sistema Nissan ProPILOT, ampliando as capacidades de assistência à condução em veículos de produção a partir de 2027.
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A Wayve vem testando sua tecnologia em diferentes regiões do Japão desde o início de 2025. A nova parceria com a Uber e a Nissan permitirá ampliar esses testes em um projeto piloto de robotáxis na capital japonesa.
De acordo com o plano divulgado pelas empresas, a primeira fase do programa deverá contar com operadores de segurança a bordo dos veículos enquanto o sistema é validado em condições reais de uso.
Caso o programa avance conforme o previsto e obtenha as autorizações regulatórias necessárias, a iniciativa poderá evoluir para uma operação comercial mais ampla nos próximos anos.
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Fonte: Patrick George
A iniciativa chega em um momento de forte competição global no setor. Empresas como Waymo já operam robotáxis comercialmente em cerca de dez cidades dos Estados Unidos, enquanto a Tesla promete para breve o início da produção de seus veículos autônomos Cybercab (sem volante).
A China, por sua vez, possui hoje o maior ecossistema de robotáxis do mundo. O país já ultrapassou a fase de testes e entrou na escala comercial: mais de 15 cidades permitem corridas pagas com veículos autônomos, incluindo as quatro grandes metrópoles — Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen — que desde o fim de 2025 autorizam operação totalmente sem motorista.
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Fonte: InsideEVs
Wuhan tornou-se o principal polo global desse tipo de serviço. Ali, a Baidu mantém uma frota de mais de 500 robotáxis operando 24 horas por dia em uma área de cerca de 4.500 km². Entre as empresas líderes estão Baidu (Apollo Go), Pony.ai, WeRide e AutoX, que juntas operam milhares de veículos autônomos em diversas cidades chinesas.
A rápida expansão se explica por uma combinação de custos menores, política pública centralizada e maior aceitação do público. Empresas como Baidu e Pony.ai reduziram em cerca de 70% o custo dos sensores nos últimos dois anos, permitindo que um robotáxi como o Baidu RT6 seja produzido por cerca de US$ 35 mil — valor próximo ao de um carro elétrico convencional.
Embora todos tenham o mesmo objetivo de permitir que o carro dirija sozinho, os principais projetos de condução autônoma hoje seguem caminhos tecnológicos bem diferentes. Enquanto a Wayve aposta no “mapless”, a Tesla utiliza câmeras e redes neurais treinadas com enormes volumes de dados coletados pelos próprios carros da marca. O objetivo é criar uma espécie de “visão artificial” capaz de interpretar o ambiente quase exclusivamente por imagens, dispensando sensores mais caros como o LiDAR.
A vantagem é o custo menor e a possibilidade de escalar rapidamente a tecnologia em milhões de veículos. Por outro lado, críticos apontam que a ausência de sensores adicionais pode dificultar a detecção precisa de objetos em condições adversas.
A norte-americana Waymo, por sua vez, segue um terceiro caminho: seus veículos utilizam um conjunto amplo de sensores, incluindo LiDAR, radar e câmeras, combinados com mapas tridimensionais extremamente detalhados das áreas onde o serviço opera. Esse sistema cria uma representação muito precisa do ambiente, permitindo que o carro saiba exatamente onde está e o que acontece ao seu redor.
A desvantagem é que cada cidade precisa ser cuidadosamente mapeada antes da operação, o que torna a expansão geográfica mais lenta e cara. É justamente nesse ponto que soluções como a da Wayve esperam ganhar vantagem nos próximos anos.