Sistemas de inteligência artificial capazes de planejar e executar tarefas complexas, como coletar dados e escrever código, prometem reduzir o trabalho humano. Na prática, porém, relatos de empreendedores mostram que a tecnologia também tem ampliado a jornada de trabalho e prejudicado o descanso.
Aditya Sharma, de 27 anos, fundou uma startup de software para equipes de tecnologia da informação em San Francisco. Nas últimas semanas, ele abandonou uma rotina regular de sono e chegou a dormir às 6h depois de passar a noite supervisionando seus agentes de IA.
“O custo de os agentes ficarem bloqueados por oito horas é alto demais”, disse Sharma ao Wall Street Journal. “Eles podem terminar o trabalho a qualquer momento, no meio da noite.”
Peter Pezaris, de 56 anos, também relatou uma rotina mais intensa. Depois de mais de 30 anos na indústria de tecnologia e quatro saídas bem-sucedidas, ele havia prometido à esposa que se aposentaria neste ano. Há quatro meses, no entanto, lançou sua quinta startup para aproveitar o crescimento da inteligência artificial.
Pezaris estima que a empresa opere 30 vezes mais rápido com os agentes do que operaria sem eles. O ganho de velocidade, porém, trouxe mais clientes, demandas e horas de trabalho. Ele costuma trabalhar das 7h30 às 2h da manhã.
“É como uma droga”, afirmou ao Wall Street Journal sobre trabalhar com agentes de IA. “Nunca fiz drogas de verdade, mas imagino que seja assim que se sente.” Segundo ele, “cada minuto” sem trabalhar representa a perda do equivalente a uma semana de trabalho.
Em Boston, o fundador de uma startup Ajay Kalia, de 43 anos, passou a controlar seus agentes pelo Apple Watch. O relógio vibra a cada dez minutos com uma nova solicitação. “Não sei se é saudável estar correndo e olhar para o meu relógio para dar permissão ao meu agente de fazer algo”, disse ao jornal.
Kalia começa a maioria dos dias entre 5h30 e 6h e encerra o expediente por volta das 21h ou 22h. A cada poucos meses, ele precisa reorganizar o trabalho para acompanhar a evolução dos modelos de IA. “Você pode construir conceitos maiores e muito mais ambiciosos com esses novos modelos, o que é fantástico”, afirmou. “Exceto que você nunca termina.”
Abby Grills, de 33 anos, é cofundadora de uma plataforma de coleta de dados em San Francisco. A empresa tem apenas dois funcionários: ela e o outro sócio. Embora planejem contratar, os dois frequentemente concluem que podem resolver mais uma tarefa com a ajuda dos agentes.
“Achamos que conseguimos fazer, só nós dois”, disse Grills ao Wall Street Journal. Ela trabalha cerca de dez horas por dia e tira um dia de folga nos fins de semana. Durante um programa de aceleração, em 2024, acompanhou de perto os efeitos do excesso de trabalho, quando um colega foi hospitalizado por não comer alimentos sólidos. “Estou exausta o tempo todo”, admitiu.
Segundo Kalia, ninguém em sua rede de fundadores cogitou tirar férias ou demonstrou preocupação com o esgotamento, embora muitos pareçam próximos do limite. “Todo mundo reconhece quietamente que, por um lado, é insustentável – mas, por outro, por que você pararia?”, disse ao jornal.
Sharma também afirmou ter ganhado peso nos últimos meses e relatou dificuldade para se manter presente com outras pessoas fora do trabalho. “Eles simplesmente exigem sua atenção”, disse, referindo-se aos agentes. “Ele precisa de algo? Posso ajudá-lo de alguma forma?”











