Levantamento do Instituto Update com 12 candidaturas à Presidência da República mostra que propostas dirigidas às mulheres aparecem em diferentes campos políticos, principalmente em temas como violência, saúde e cuidado. Questões relacionadas à participação política, à presença feminina nos espaços de poder, à segurança no ambiente público e à autonomia tiveram menos espaço.
“Os programas reconhecem problemas que afetam diretamente as mulheres, mas avançam menos quando se trata de incorporá-las como sujeitos de decisão e de pensar sua experiência cotidiana de forma mais ampla”, afirmou Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.
A análise considerou apenas propostas explicitamente relacionadas às mulheres. Políticas universais de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte não foram contabilizadas automaticamente como políticas para esse público.
Segundo Carol, também é necessário diferenciar a simples presença de um tema de uma proposta estruturada. Em vários casos, há referências relevantes, mas pouco detalhamento sobre implementação, metas, instrumentos ou articulação com políticas já existentes.
Participação política
A pesquisa concluiu que as mulheres aparecem mais como destinatárias de políticas do que como participantes do poder. Na pesquisa Mulheres em Diálogo (2025), do Instituto Update, 72% das entrevistadas disseram concordar plenamente com o aumento da representação feminina em cargos políticos.
Apesar disso, apenas um candidato apresentou uma proposta específica sobre participação político-eleitoral feminina. A iniciativa inclui o combate à violência política de gênero, a formação de candidatas e lideranças e regras relacionadas ao financiamento partidário.
Quando o critério é ampliado para a presença de mulheres em espaços de liderança e decisão, um segundo candidato passa a contemplar o tema, com propostas de incentivo à liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal.
Carol citou a segurança como exemplo da diferença entre o reconhecimento da capacidade das mulheres e o espaço dado a essa dimensão nos programas. Pesquisa realizada neste ano pelo Instituto Update e pelo Instituto Fogo Cruzado mostrou que 70% das mulheres concordam total ou parcialmente que mulheres têm melhores ideias e soluções para a segurança pública.
Violência contra as mulheres
Nove dos 12 planos analisados, o equivalente a 75%, têm propostas explícitas sobre violência contra mulheres, feminicídio ou proteção às vítimas. Se fossem consideradas todas as propostas sobre violência doméstica, independentemente do recorte de gênero, o número chegaria a 10 planos.
A violência contra as mulheres é a agenda mais disseminada entre os programas, embora as medidas apresentadas sejam diferentes. Entre elas estão a ampliação de redes de proteção e casas-abrigo, a integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social, o monitoramento eletrônico de agressores, medidas protetivas e o endurecimento penal.
Para o Instituto Update, os programas reconhecem amplamente as mulheres como vítimas de violência, mas ainda incorporam pouco a insegurança que restringe sua circulação e o uso da cidade. Apenas um candidato relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano.
A pesquisa Mulheres, Polícia e Facções (2026), realizada pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, mostrou que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite. Além disso, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de utilizar algum meio de transporte pelo mesmo motivo.
Para Carol Althaller, os resultados ajudam a ampliar a noção de segurança. Segundo ela, relatos coletados nos grupos qualitativos mencionam iluminação, transporte, prevenção da violência de gênero, cuidado com áreas abandonadas e fortalecimento das redes comunitárias. Essas dimensões do cotidiano, afirmou, muitas vezes ficam fora de uma agenda concentrada apenas em policiamento e punição.
Autonomia econômica
Sete dos 12 planos, ou 58%, apresentam propostas específicas relacionadas a trabalho, renda, crédito, empreendedorismo ou independência econômica das mulheres. Em cinco deles, também aparece a igualdade salarial ou remuneratória entre homens e mulheres.
O tema tem forte apoio entre as mulheres. Na pesquisa Mulheres em Diálogo (2025), 94% das entrevistadas concordaram que homens e mulheres devem receber o mesmo salário em cargos equivalentes.
Os planos, no entanto, apresentam diferentes formas de compreender a autonomia. Em alguns programas, ela aparece associada a salário, direitos, proteção social, creches e políticas públicas. Em outros, o foco está no acesso ao crédito, na educação financeira, no empreendedorismo e na construção de patrimônio.
O Instituto Update concluiu que existe convergência em torno da ideia de autonomia das mulheres, mas também uma disputa sobre os caminhos para alcançá-la.
Políticas de cuidado
O levantamento mostrou ainda que sete dos 12 planos, também 58%, relacionam explicitamente creches ou políticas de cuidado à vida econômica e social das mulheres.
Em alguns casos, o cuidado é tratado como infraestrutura pública capaz de liberar tempo, ampliar a participação feminina no mercado de trabalho e reduzir desigualdades. Em outros, aparece associado à maternidade, à proteção da família ou ao apoio às responsabilidades familiares. Há também programas que propõem ampliar serviços públicos de cuidado para reduzir a sobrecarga doméstica das mulheres.
De acordo com o Instituto Update, o ponto de convergência é o reconhecimento de que o cuidado interfere diretamente na autonomia. “A diferença está em quem deve assumir essa responsabilidade e qual deve ser o papel do Estado. Essa disputa de significado também ajuda a compreender por que uma mesma palavra pode aparecer em projetos políticos bastante distintos”, analisou o instituto.
Propostas dirigidas às mulheres em planos de governo. Foto: Instituto Update/Divulgação











