A inteligência artificial pode contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas, mas também dificultar a redução das emissões de gases de efeito estufa. A avaliação é de Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Amazônia Sustentável, centro de estudos da universidade.
Entre as possíveis contribuições da tecnologia estão o desenvolvimento de sistemas mais sofisticados de alerta para desastres e a busca por alternativas para amenizar a escassez de água em diferentes partes do mundo.
No curto prazo, porém, a expansão da inteligência artificial pode representar um obstáculo para o combate às mudanças climáticas. Isso ocorre porque a tecnologia depende de data centers, estruturas que consomem grandes quantidades de eletricidade e água.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), data centers voltados à inteligência artificial devem consumir quase três vezes mais eletricidade do que Nigéria, Paquistão e Bangladesh juntos. Somados, os três países abrigam 650 milhões de pessoas.
Nem toda a eletricidade utilizada por essas estruturas pode ser gerada por fontes renováveis, como energia solar, hidrelétrica e eólica. No Brasil, parte da geração também depende de usinas termelétricas.
As termelétricas produzem energia a partir do calor gerado pela queima de combustíveis como carvão, gás natural, óleo ou biomassa. O calor aquece a água em uma caldeira, produzindo vapor que movimenta uma turbina conectada a um gerador.
O impacto ambiental varia de acordo com o combustível utilizado. A queima de combustíveis fósseis, especialmente óleo e carvão, libera grandes quantidades de gás carbônico. O processo também pode emitir gases tóxicos, como óxidos de enxofre e nitrogênio, além de fuligem, prejudicando a qualidade do ar, favorecendo doenças respiratórias e contribuindo para a ocorrência de chuva ácida.
Para Artaxo, “data centers gigantescos consomem uma quantidade brutal de recursos naturais – eletricidade e água, em particular”. O professor também afirmou que “instalar data centers para emitir gases de efeito estufa na geração de eletricidade não faz o menor sentido, nem no Brasil, nem em outros países”.
O especialista defende a criação de regras no Brasil e em âmbito global para que os data centers sejam instalados apenas quando sua energia for gerada por fontes solar e eólica.
Há propostas nesse sentido nos planos de governo de candidatos à Presidência da República em 2026 e contrapartidas no Redata. Enquanto isso, empresas de tecnologia, que se tornaram grandes compradoras de energia, apoiam projetos de fontes renováveis e também de combustíveis fósseis.
Em um discurso recente, Simon Stiell, responsável pela área de clima da ONU, classificou a indústria de inteligência artificial como “devoradora de energia”. Para ele, o setor precisa respeitar a ciência e se alinhar, com urgência, aos esforços climáticos globais.











