O economista André Lara Resende, integrante da equipe que elaborou o Plano Real, publicou um artigo em que acusa o Banco Central (BC) de contribuir para o desequilíbrio fiscal do Brasil por meio das taxas elevadas de juros. No texto, ele defende a adoção de novas regras para as despesas públicas e os juros.
“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu.
Ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Lara Resende é formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e tem PhD em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Ele também atuou em instituições financeiras no Brasil.
O economista questiona a teoria usada pelo mercado financeiro e pelo BC para justificar a taxa Selic de 13,75% ao ano. Segundo ranking da Moneyou, o Brasil tem a maior taxa de juros real do mundo.
“Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica”, afirmou.
Escrito às vésperas do primeiro turno eleitoral, o artigo também acusa “todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade”.
O Banco Central justifica os juros elevados, entre outros fatores, pelas pressões inflacionárias e pelos déficits fiscais primários. Esse resultado ocorre quando as despesas superam as receitas, sem considerar os gastos com a dívida. Segundo a autoridade monetária, o aumento das despesas primárias em relação à arrecadação pressiona a inflação.
Lara Resende reconhece que o Brasil gasta mal e classifica como irracional a alocação de recursos em situações como as emendas parlamentares, as vantagens salariais do Judiciário e as isenções tributárias. Apesar disso, afirma que o déficit fiscal brasileiro é pequeno e está entre os menores do mundo.
“Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, escreveu.
A dívida pública brasileira passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2022, para cerca de 82,9% do PIB em agosto de 2026. Para conter esse avanço, analistas do mercado financeiro têm defendido cortes nas despesas da União, medida que tende a afetar políticas sociais.
O economista reconhece que o crescimento da dívida é insustentável, mas sustenta que o problema não está nos gastos primários, que incluem despesas com serviços públicos. “Nos últimos anos, exceto durante a Covid, o resultado primário foi apenas ligeiramente negativo; já o déficit nominal, puxado pelos juros, foi sempre alto e agora aproxima-se de 10% do PIB”, explicou.
“O equilíbrio das contas públicas não é uma condição necessária e nem suficiente para o bom funcionamento da política econômica”, afirmou no artigo, publicado na plataforma Substack.
Para Lara Resende, a redução da taxa de juros é o caminho para enfrentar o desequilíbrio fiscal. Nos 12 meses anteriores, os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento, o equivalente a 8,9% do PIB.
“A economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica”, concluiu.
O Banco Central afirma que a taxa atual é necessária para manter a inflação sob controle. A Selic elevada reduz o crescimento econômico e a demanda, o que tende a pressionar os preços para baixo.
Comunicados do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por definir a Selic, apontam o aquecimento da economia e do mercado de trabalho e a trajetória dos gastos públicos como fatores que contribuem para a inflação e justificam juros altos.
“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros”, diz a última ata do Copom.
No artigo, Lara Resende contesta a ideia de que o Banco Central não teria outra alternativa para controlar a inflação além da manutenção de juros elevados. Segundo ele, não existe mais uma relação inversa entre desemprego e inflação que indique que o aumento do desemprego, um dos efeitos dos juros altos, reduz a inflação.
“A fragilidade conceitual e empírica deste modelo macro convencional que pauta a política dos BCs é tão flagrante que, apesar de ainda dominante e repetido na mídia como verdade incontestável, passou a ser criticado até mesmo pelos economistas mais conservadores”, afirmou.
O economista reconhece que a redução dos juros provoca aumento da inflação, mas considera que essa relação é de curto prazo e transitória.
Como alternativa, Lara Resende propõe um novo regime fiscal e monetário, com planejamento conjunto de metas fiscais e de juros para um período de quatro a cinco anos. As metas seriam anunciadas simultaneamente.
“As metas de inflação seriam anunciadas em conjunto com metas para a taxa básica de juros. O BC se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, 3%, e taxa de crescimento nominal potencial”, explicou.
O economista também afirma que não há corte de gastos capaz de interromper o crescimento da dívida em relação ao PIB sem a redução dos juros para “em torno da taxa de crescimento nominal da economia”. Ele acrescenta que o Banco Central precisaria intervir no mercado de câmbio para evitar uma depreciação mais intensa do real.
“Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso”, escreveu.











