O turismo de observação de baleias-jubarte tem ajudado a preservar a espécie e também transformado a economia de cidades do litoral brasileiro. Em Caravelas, no sul da Bahia, o movimento de visitantes cresce principalmente entre julho e agosto, quando as baleias chegam à região para se reproduzir.
Paulo Salomão começou a acompanhar o pai em viagens pelo mar aos 6 anos, no início da década de 1980, em Ponta de Areia, distrito pesqueiro de Caravelas. Apesar de sentir muito enjoo, insistiu na atividade. Aos 18 anos, fez o curso de piloto de embarcação oferecido pela Marinha do Brasil.
A criação do Parque Marinho dos Abrolhos, em 1983, e a adoção de regras ambientais mudaram a atividade na região. Com a pesca proibida dentro do parque, Salomão passou a transportar turistas até o arquipélago e a ensinar mergulho. Seu primeiro barco recebeu o nome de Teimoso.
Atualmente, ele tem quatro embarcações, incluindo uma de grande porte, com camas para 50 pessoas, e emprega dez trabalhadores. Além dos mergulhadores interessados nos peixes, tartarugas e corais de Abrolhos, o empresário passou a receber um fluxo maior de visitantes interessados nas baleias.
“Há uns dez anos, o maior fluxo de pessoas passou a ser em julho e agosto. Hoje só agosto, que é o pico, ganha dos três meses de verão. Todo mundo vem pra ver as baleias”, contou Salomão, segundo a Agência Brasil.
O Arquipélago dos Abrolhos é considerado uma das principais áreas de reprodução das baleias-jubarte. Todos os anos, os animais percorrem cerca de 4 mil quilômetros desde a Antártica, onde se alimentam, até as águas mais quentes do sul da Bahia, onde acasalam e têm os filhotes. Cerca de 90% das jubartes que chegam ao Brasil se concentram na região.
Segundo Salomão, o crescimento do turismo de observação também criou oportunidades de trabalho. “Muitas pessoas, que antes tinham outras profissões, hoje são marinheiros e estão trabalhando na área”, afirmou. Para quem já atuava no turismo, a temporada das baleias ampliou a renda, ao levar visitantes ao município durante o inverno.
A população de baleias-jubarte no Brasil passou de menos de 2 mil indivíduos no início da década de 1990 para cerca de 35 mil, de acordo com a última estimativa do Instituto Baleia Jubarte, feita em 2022. Entre os fatores apontados estão a proibição da caça no país, decretada em 1987, a criação do Parque Marinho dos Abrolhos e o trabalho de grupos voltados à pesquisa e à preservação da espécie.
O Instituto Baleia Jubarte surgiu como projeto em 1988 e foi institucionalizado há 30 anos, com apoio da Petrobras, principal financiadora das atividades até hoje. Para o diretor executivo da entidade, Eduardo Camargo, o turismo de observação “agrega valor econômico à baleia viva” e permite a convivência com os animais sem interferir em seu ciclo de vida.
“O que precisa é regular isso de uma forma que não seja prejudicial para elas, mas também não ignore que você tem pessoas vivendo ali. É uma forma de criar uma renda limpa, quando ela é bem feita”, disse Camargo à Agência Brasil.
Os operadores precisam seguir normas da Marinha e do Ministério do Meio Ambiente. Uma portaria publicada em agosto determina que as embarcações mantenham distância mínima de 100 metros dos animais e permaneçam próximas por, no máximo, 60 minutos — ou 30 minutos quando houver fêmeas com filhotes. Apenas dois barcos podem se aproximar ao mesmo tempo.
A legislação também proíbe tocar ou capturar as baleias, persegui-las ou cercá-las, além de realizar qualquer manobra que obrigue os animais a mudar de direção. A fiscalização cabe ao poder público. O Instituto Baleia Jubarte, por sua vez, oferece capacitação a trabalhadores do setor em parceria com municípios.
Algumas localidades adotaram um selo de responsabilidade e firmaram acordos de cooperação com o instituto. O selo “Amigo da Baleia” é concedido apenas a operadores que participam da capacitação, explicou Camargo.
Na avaliação do diretor executivo, o contato com as jubartes também aumenta a conscientização ambiental. “Ver as baleias é uma experiência que muda as pessoas. Faz, talvez, ela consumir menos plástico, separar melhor seu lixo”, afirmou.
O Instituto Baleia Jubarte mantém centros de visitação em Caravelas, Praia do Forte, Itacaré, Vitória e Ilhabela, além de um ponto recém-inaugurado em Porto Seguro. A entidade também trabalha com operadores de turismo, levando profissionais para atividades educativas e para a coleta de dados destinados a pesquisas.
De acordo com o diretor de Pesquisa do instituto, Milton Marcondes, as baleias são importantes para o equilíbrio ambiental. Ao se alimentarem na Antártica e defecarem nas áreas de reprodução, elas liberam nutrientes na água e aumentam a produtividade de diversas espécies, inclusive peixes de interesse pesqueiro.
Um estudo do Fundo Monetário Internacional e da Universidade de Duke, realizado em parceria com o Instituto Baleia Jubarte e a organização Great Whale Conservancy, estimou que as baleias presentes no Brasil, incluindo as jubartes, contribuem com mais de US$ 82 bilhões em serviços como fertilização dos mares, captura de carbono e turismo de observação.
A reportagem da Agência Brasil informa que o repórter e a repórter fotográfica viajaram a Abrolhos e Caravelas a convite da Petrobras.











