Os pais de uma adolescente de 13 anos processaram o Google nos Estados Unidos após descobrirem que a filha passou meses conversando com ferramentas de inteligência artificial da empresa sobre depressão, automutilação e suicídio. A família acusa a companhia de expor crianças a riscos psicológicos sem oferecer alertas adequados a responsáveis e instituições de ensino.
O caso ocorreu na Carolina do Norte, onde a estudante utilizava um Chromebook fornecido pela escola. Segundo a ação, apresentada em um tribunal da Califórnia, a jovem trocou milhares de mensagens com ferramentas de IA do Google, principalmente o Gemini e o Modo IA integrado à Busca.
Identificada pelo pseudônimo Emma no processo, a adolescente começou a usar os recursos para tirar dúvidas escolares no segundo semestre de 2025. O volume de interações aumentou significativamente em dezembro, período que coincidiu com a disponibilização do modelo Gemini 3 Flash.
De acordo com os pais, as conversas passaram a tratar de questões pessoais, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares e diferentes métodos de suicídio. A denúncia também afirma que a IA orientou a menina sobre como esconder sinais de automutilação dos familiares e de outras pessoas próximas.
A família sustenta que o Google incorporou ferramentas generativas a produtos utilizados por estudantes sem apresentar informações claras sobre os riscos envolvidos. Os responsáveis também questionam a falta de mecanismos capazes de identificar situações de sofrimento psicológico e alertar adultos responsáveis.
Segundo informações da Reuters e da Bloomberg, os pais só descobriram a situação depois que um sistema de monitoramento da escola identificou um documento escrito pela adolescente com referências ao próprio funeral. O alerta permitiu que a família percebesse a gravidade do conteúdo produzido pela estudante.
A denúncia afirma que a escola levou semanas para identificar os registros e comunicar os pais, que desconheciam o uso do computador escolar para conversas sobre sofrimento psicológico.
Outro ponto levantado pela família é o acesso ao histórico das interações. Segundo a ação, contas escolares não oferecem aos responsáveis a mesma possibilidade de consultar integralmente o histórico de conversas disponível em contas pessoais. Com isso, os pais afirmam ter enfrentado dificuldades para reconstruir o que aconteceu durante os meses de uso das ferramentas.
O processo busca responsabilizar o Google pelos danos alegados e pede indenização financeira. A empresa informou que está analisando as acusações.
O caso ocorre em meio à crescente pressão sobre o uso de inteligência artificial em instituições de ensino. Nesta semana, o Google anunciou mudanças nas configurações de suas ferramentas para contas escolares e pretende desativar o Gemini por padrão para estudantes, permitindo que as instituições decidam se manterão o acesso.
A medida também envolve recursos de IA incorporados à Busca, como resumos gerados automaticamente. Segundo a Reuters, escolas que quiserem preservar o acesso dos alunos ao mecanismo de pesquisa ainda precisarão lidar com a presença dessas funcionalidades.
Uma pesquisa da organização Common Sense Media já havia apontado riscos relacionados ao uso de ferramentas de IA por crianças e adolescentes. Entre as preocupações estão a dificuldade dos sistemas para identificar sinais indiretos de pensamentos suicidas e a possibilidade de respostas que normalizem comportamentos associados a transtornos alimentares.
Especialistas também alertam que conversas prolongadas com chatbots podem criar uma falsa sensação de acolhimento. Dessa forma, crianças e adolescentes podem acreditar que estão recebendo apoio suficiente e demorar a procurar ajuda de familiares ou profissionais especializados.
O processo contra o Google se soma a outras ações judiciais que questionam a responsabilidade de empresas de tecnologia pelos efeitos de seus chatbots. Em 2025, os pais do adolescente Adam Raine processaram a OpenAI, alegando que o ChatGPT contribuiu para a morte do filho, de 16 anos, ao fornecer informações relacionadas a métodos de suicídio.
A Character.AI também enfrentou processos após a morte de Sewell Setzer III, de 14 anos, que desenvolveu uma relação emocional com um personagem controlado por IA. Em janeiro de 2026, Google e Character.AI concordaram, em princípio, em encerrar diversas ações judiciais relacionadas a esses casos, sem que isso representasse necessariamente uma admissão de responsabilidade.
As novas acusações ampliam o debate sobre os limites da inteligência artificial em ambientes frequentados por menores de idade, especialmente quando essas ferramentas passam a ser usadas como confidentes para questões emocionais e psicológicas.











