A ministra Luciana Santos informou, em entrevista nesta semana, alterações no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Segundo ela, o Brasil pretende comprar dois supercomputadores que estão entre os dez mais potentes do mundo: um dos Estados Unidos e outro da China. O investimento previsto é de R$ 2 bilhões.
Os editais para as compras devem ser publicados nos próximos dias e ainda aguardam a decisão final do presidente. A estratégia anunciada tem três frentes: aquisição de uma máquina de ponta, uma encomenda tecnológica com a China e investimentos em processadores de arquitetura RISC-V, com previsão contratual de transferência de tecnologia de hardware e software.
Na avaliação de Philipe Moura, a escolha de fornecedores dos dois países ocorre em um cenário de disputa entre Estados Unidos e China pela liderança global em inteligência artificial. Para ele, a decisão representa uma tentativa de preservar opções, embora não seja exatamente uma posição de neutralidade.
O contexto internacional inclui a criação, há menos de um mês, da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), em Xangai. O acordo foi assinado por 29 países, e o Brasil está entre os fundadores. Nenhuma outra grande democracia ocidental assinou o documento, que prevê sede na China.
Em dezembro de 2025, o Departamento de Estado americano lançou a Pax Silica, coalizão voltada à proteção da cadeia do silício e à redução da dependência em relação à China. Na cúpula de junho de 2026, conforme comunicado da diplomacia americana, dez novos signatários elevaram o grupo a 24 integrantes. Entre eles estão Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá e União Europeia. O Brasil não aparece na lista.
O PBIA prevê R$ 23,03 bilhões, aproximadamente US$ 4,4 bilhões, entre 2024 e 2028. Conforme o documento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), os recursos têm diferentes origens, incluindo crédito, recursos públicos e contrapartidas de investimentos privados.
O orçamento é dividido em cinco eixos. O maior, voltado à inteligência artificial para inovação empresarial, concentra R$ 13,79 bilhões. Já os temas de infraestrutura e desenvolvimento contam com R$ 5,79 bilhões. Na análise de Moura, os números indicam que o plano foi concebido principalmente para ampliar o uso da tecnologia, com menor peso na construção de sua infraestrutura física. Os R$ 2 bilhões destinados aos supercomputadores equivalem a mais de um terço do eixo de infraestrutura originalmente previsto.
A comparação com outros países também dimensiona o esforço. O fundo InvestAI, da União Europeia, pretende mobilizar € 200 bilhões, sendo € 50 bilhões do setor público e € 150 bilhões de capital privado. A França anunciou € 109 bilhões em compromissos privados, nacionais e estrangeiros, para projetos de inteligência artificial, enquanto a Bpifrance prevê mobilizar € 10 bilhões até 2029. A HUMAIN, financiada pelo fundo de investimento público da Arábia Saudita, anunciou cerca de US$ 100 bilhões. O orçamento da Coreia do Sul para este ano supera US$ 7 bilhões.
No setor privado, estimativas compiladas pelo Financial Times apontam que Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta devem investir, juntas, cerca de US$ 700 bilhões em 2026.
O desenho brasileiro também tem sido alvo de questionamentos na imprensa e nas redes sociais. A compra de equipamentos dos dois lados pode elevar os custos, fragmentar a operação e exigir a manutenção de duas estruturas tecnológicas separadas. Há ainda o risco de o país ter dois hardwares rivais sem controlar outras etapas da cadeia, já que os chips continuariam sendo projetados e fabricados no exterior.
Por isso, Moura considera que a frente relacionada à arquitetura RISC-V pode ser mais relevante do que a aquisição dos dois supercomputadores. Das três iniciativas, segundo ele, essa é a que busca dar maior ênfase ao desenvolvimento de capacidade tecnológica própria.
A suspensão administrativa, pelo governo americano, do acesso a modelos de ponta em junho deste ano também ajuda a explicar a importância da redundância tecnológica. Os editais deverão esclarecer as cláusulas de transferência de tecnologia, os responsáveis por fiscalizar seu cumprimento e o custo de manter duas estruturas operando em paralelo.
Para Philipe Moura, professor convidado da Fundação Dom Cabral, especialista em inteligência artificial, estratégia e geopolítica, cofundador da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), consultor de empresas e governos, palestrante e desenvolvedor de programas de capacitação em IA para lideranças públicas e privadas, os editais poderão indicar se o país está comprando capacidade de escolha ou apenas duas máquinas para administrar a mesma dependência tecnológica.











