Caos após chuva no Rio de Janeiro expõe urgência de medidas de adaptação climática nas periferias e centros urbanos

Já previstas no calendário, as chuvas de verão voltaram a provocar estragos na cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana desde o último final de semana. Nesta segunda-feira (9) o Centro de Operações e Resiliência da cidade do Rio registrou 60 pontos de bolsões d’água, 26 deslizamentos, duas quedas de muro, oito quedas de árvores sobre fiação e acionou a sirene de alerta em nove comunidades, sendo sete na zona norte. Além disso, em Copacabana, duas pessoas precisaram ser socorridas vítimas de descargas elétricas.

As chuvas também atingiram a região da Baixada Fluminense, em especial Duque de Caxias e Nova Iguaçu, que já estavam registrando chuvas intensas desde o final de semana. Em Caxias, foram registrados 20 deslizamentos e 26 bairros afetados até a tarde de segunda-feira (9).

Diante desse cenário que se repete a cada ano, a deputada estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Dani Monteiro (Psol), quer uma atuação mais efetiva das prefeituras e do estado em medidas que contenham o impacto das chuvas. “Tudo acerca do tema anda a passos lentos ou sequer sai do papel, especialmente na área de prevenção de desastres, drenagem e contenção de encostas, que precisariam ser tratadas como urgência”, disse ao Brasil de Fato. A deputada informa que está recebendo denúncias pela Comissão de Alerj e acompanhando a situação das famílias atingidas.

Ela disse ainda que possui projetos protocolados para implementação de programas de prevenção e resposta a desastres ambientais de enchentes, alagamentos e deslizamentos PL 2913/2024, incluindo distribuição de cartões para compras de materiais de construção e o PL 6911/2025, que institui as comissões territoriais de acompanhamento de obras e ações de prevenção, adaptação e resposta a eventos climáticos extremos no Estado do Rio de Janeiro.

“Não é normal ter medo da chuva”, publicou em uma rede social, a Jovem Campeã do Clima da Presidência da COP30, Marcele Oliveira. Ela pediu que as cidades se preparem para a adaptação climática com planejamento e orçamento. “Não pode ser em 2030, tem que ser agora! E pode começar com coleta seletiva e reciclagem, plantio de árvores, desassoreamento de rios, educação ambiental”, acrescentou. Em entrevista ao Brasil de Fato, em junho de 2025, Oliveira comentou a iniciativa impulsionada por ela na zona oeste da capital. “Em Realengo hoje não temos só um parque, mas uma política pública de parques urbanos e ecológicos nas periferias da cidade do Rio”.

Obras em curso na capital

Entre os anúncios recentes realizados pela prefeitura e pelo Estado do Rio de Janeiro há diversos projetos relacionados a dragagem e canalização dos rios para evitar que as enchentes se repitam. Um projeto antigo que o prefeito Eduardo Paes (PSD) prometeu tirar do papel ainda em novembro de 2025 está relacionado à bacia do rio Acari, um dos pontos mais críticos da zona norte da capital.

Uma promessa que se arrasta por uma década e para a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ana Lúcia Britto é insuficiente por não prever a realocação das pessoas que vivem na faixa marginal do Rio. “Essas pessoas serão realocadas? Para onde? Para tirar as pessoas, você tem que construir casa, não basta colocar todo mundo no aluguel social”, questiona.

Outro projeto anunciado na mesma época é a instalação de um novo sistema de drenagem em Realengo e que inclui a construção de um reservatório subterrâneo, também chamado de “piscinão” em Realengo. As obras são realizadas pela Fundação Rio-Águas, e os investimentos são de cerca de R$ 123,5 milhões, com recursos do Governo Federal, por meio do Ministério das Cidades, que coordena o programa Novo PAC, e da Caixa Econômica Federal. A obra segue o que foi adotado na Praça da Bandeira, onde desde 2013, está em operação um “piscinão”. O novo reservatório terá capacidade para acumular aproximadamente 20 milhões de litros de água, o que equivale a 20 mil caixas d’água de mil litros.

 :: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::

Projeto Iguaçu

Um outro projeto discutido há vários anos é o Iguaçu, que prevê medidas de contenção do impacto das chuvas na baixada Fluminense. Entre os municípios beneficiados está Duque de Caxias, um dos mais afetados pelas últimas chuvas. O saída do projeto do papel se arrasta ao longo de décadas e algumas obras chegaram a ser concluídas até 2014, principalmente em Belford Roxo.

O projeto foi contemplado no novo PAC e em 2024, o governo de Cláudio Castro apresentou um projeto para a sua nova fase ao Ministério das Cidades. Questionado pela reportagem sobre o andamento do projeto, o governo informou em nota que em dezembro de 2025, a Caixa Econômica concluiu a aprovação do projeto e, até o final do mês, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) irá publicar o edital para o processo de licitação.

Para a também pesquisadora do Observatório das Metrópoles, o novo projeto está muito focado em obras que dão visibilidade eleitoral como dragagem e canalização dos rios, sem garantir áreas verdes que funcionem como “esponjas” para absorver a água da chuva. “Hoje em dia ninguém canaliza mais rio. A lógica internacional hoje é essa lógica da ‘cidade esponja’“, argumenta. Ela aponta que caso essas soluções não estejam previstas, o risco de enchente volta a ocorrer nos próximos anos. Diferente da região da Praça da Bandeira, já amplamente urbanizada quando um reservatório subterrâneo foi instalado, a cidade de Duque de Caxias ainda possui muitas áreas que podem ser destinadas a espaços verdes e funcionarem como esponja na avaliação de Britto. Por isso, ela defende que o município preveja e mantenha áreas verdes e áreas de preservação para evitar mais gastos com grandes obras e ter mais eficiência no combate às fortes chuvas.

0 Votes: 0 Upvotes, 0 Downvotes (0 Points)

Leave a reply

Loading Next Post...
Seguir
Sign In/Sign Up Sidebar Search
COLUNISTAS
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...