Carlos Lupi e a crise no Ministério do Trabalho durante governo Dilma

A incômoda situação de ter que se explicar publicamente diante de irregularidades com uso de verba pública no Ministério do Trabalho não é novidade para Carlos Lupi. A gestão dele na pasta está sendo questionada após a revelação de um esquema bilionário de desvios em aposentadorias e pensões. Mas, em 2011, no primeiro mandato de Dilma Rousseff na Presidência da República, Lupi também estava à frente do Ministério do Trabalho quando a pasta foi alvo de denúncias sobre desvios de recursos e cobrança de propina em convênios com ONGs na área de qualificação profissional.

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Só em Sergipe, havia 20 inquéritos abertos para apurar desvios em ONGs contempladas com R$ 11 milhões em convênios com o ministério. Além disso, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), a pasta tinha engavetados mais de 500 relatórios com prestação de contas de entidades que receberam dinheiro público. Lupi também se viu às voltas com reportagens mostrando que ele havia, anos antes, acumulado cargos na Câmara dos Deputados e na Câmara Municipal do Rio, e que tinha usado, em viagem oficial, um avião alugado pelo presidente de uma ONG suspeita de desvio de dinheiro.

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Mesmo acossado por escândalos, Lupi se agarrou ao cargo e levou quase mês para sair. No dia 7 de novembro de 2011, ainda no início da crise, O GLOBO publicou uma entrevista na qual ele disse que a denúncia referente às ONGs de Sergipe havia sido feita pelo próprio ministério e que os pagamentos tinham sido congelados. Lupi defendeu auxiliares diretamente envolvidos com suspeitas. Ele afirmou que estava sendo perseguido pela imprensa e por empresários críticos de medidas criadas pelo seu gabinete para regular pagamento de horas extras no país. E garantiu que não pediria demissão.

“Estou no vespeiro. Vou na luta até o fim. Descarto totalmente a renúncia. Morro, mas não jogo a toalha. Alguns nascem para se acovardar. Outros, para lutar. É o meu caso”, disse o político do PDT.

Carlo Lupi em reunião com integrantes do PDT em 2011 — Foto: André Coelho

O governo Dilma estava pressão para demitir Lupi após as revelações. No dia 8 de novembro, depois que parlamentares do próprio PDT protocolaram na Procuradoria Geral da República (PGR) um pedido de abertura de inquérito criminal para apurar as denúncias de corrupção na sua pasta, o então ministro reuniu a imprensa e disse que, para ele sair do cargo, “só se eu for abatido à bala, e tem que ser uma bala muito forte porque eu sou pesadão!”. Segundo Lupi, sua relação com Dilma era forte o bastante para aguentar aquela situação e ele ainda carregaria “o caixão de muita gente que quer me enterrar.”

“Duvido que a Dilma me tire. Ela me conhece bem. Alguns aqui vão ficar muito tristes com o resultado desse episódio”, garantiu Lupi. “Eu me benzo todos os dias, meu amor. Tenho o santo forte”.

A gota d’água que faltava caiu no dia 30 de novembro daquele ano, quando a Comissão de Ética Pública da Presidência da República recomendou à Dilma que exonerasse o ministro, com base nas denúncias. O grupo ainda advertiu Lupi por descumprir regras previstas no Código de Conduta da Alta Administração Federal. Depois de resistir por 28 dias, com a imagem desgastada também por suas próprias declarações, o pedetista pediu demissão, antecipando-se, assim, a uma decisão de Dilma, que anunciaria sua exoneração no dia seguinte, seguindo a recomendação da comissão de ética.

Lupi anunciou sua saída com uma nota no site do Ministério do Trabalho. No comunicado, ele atribuiu sua saída à “perseguição política e pessoal da mídia” e à divulgação do parecer da comissão de ética, que chamou de condenação sumária com base no noticiário. “Faço isto para que o ódio das forças mais reacionárias e conservadores deste país contra o trabalhismo não contagie outros setores”.

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