O rei Charles III e o príncipe William participarão de uma rara agenda conjunta na próxima quarta-feira, 21 de outubro, em Aberfan, no sul do País de Gales. Acompanhados da rainha Camilla, eles prestarão homenagem às vítimas do desastre ocorrido em 1966, que deixou 144 mortos.
A cerimônia será realizada no Jardim Memorial de Aberfan, construído no terreno onde funcionava a Escola Pantglas. Charles e William depositarão coroas de flores, enquanto Camilla colocará um arranjo floral em memória das pessoas que morreram na tragédia. A programação também prevê encontros com sobreviventes, familiares das vítimas e moradores da comunidade.
Após a cerimônia, os integrantes da família real seguirão a pé até o Centro Comunitário de Aberfan e Merthyr Vale, onde deverão conversar com outros sobreviventes e moradores que preservam a memória do episódio.
O desastre aconteceu em 21 de outubro de 1966, quando resíduos acumulados na mina de carvão de Merthyr Vale desceram a encosta e atingiram a escola, 20 residências e uma fazenda. Cerca de 150 mil toneladas de lama e detritos soterraram a região. Entre os mortos estavam 116 crianças, muitas com idades entre sete e dez anos, e 28 adultos. Quase metade dos alunos da escola morreu no deslizamento, considerado uma das maiores tragédias da história recente do País de Gales.
A visita também relembrará a reação da rainha Elizabeth II ao desastre. A monarca só esteve em Aberfan oito dias depois do acidente, inicialmente enviando o marido, o príncipe Philip, para representá-la. Segundo o conteúdo, Elizabeth seguiu a orientação de seu secretário particular, Lord Charteris, que acreditava que a presença dela poderia atrapalhar os trabalhos de resgate.
A decisão provocou críticas públicas e se tornou um dos episódios mais controversos do reinado de Elizabeth II. A rainha teria considerado a demora em visitar a comunidade um dos maiores erros de sua trajetória como soberana. Em 1974, ela participou da inauguração do jardim memorial criado para preservar a memória das vítimas e oferecer um espaço de homenagem às famílias.
Entre os encontros previstos para a nova visita está uma conversa entre Charles e Gareth Jones, que tinha seis anos quando ocorreu o desastre. Ele escapou depois que um funcionário da escola o colocou em segurança e o orientou a correr para casa. Seus dois irmãos mais velhos também sobreviveram.
Hoje com 66 anos, Jones conheceu o príncipe Philip pouco depois da tragédia, quando o então duque de Edimburgo visitou Aberfan. Uma fotografia daquele momento, na qual o menino aparece ao lado do marido de Elizabeth II, teria despertado o interesse de Charles em reencontrá-lo.
Em entrevista ao Daily Mail, Jones afirmou que se lembra de ter pensado que Philip era o rei, por ser marido da rainha. Ele também disse que a fotografia continua sendo especial porque mostra o pai de Charles e observou que não havia outras crianças na imagem, pois elas morreram no desastre.
William já havia visitado Aberfan em 2023, pouco depois de assumir oficialmente o título de príncipe de Gales. Na ocasião, esteve no local com a esposa, Kate Middleton, conversou com moradores e pessoas afetadas pelo desastre e visitou o cemitério da cidade ao lado do sobrevivente Jeff Edwards.
Segundo Edwards, em relato à revista PEOPLE, a visita foi especialmente emocionante para Kate. A princesa teria refletido sobre o fato de as crianças mortas terem entre sete e dez anos, faixa etária semelhante à dos filhos do casal. Na época, o príncipe George tinha nove anos, a princesa Charlotte, sete, e o príncipe Louis, cinco.
Em 2016, no aniversário de 50 anos da tragédia, Charles, então príncipe de Gales, participou de uma cerimônia em Aberfan. Em discurso, recordou o impacto do desastre e destacou a solidariedade demonstrada pela comunidade. Ele afirmou que recebeu a notícia enquanto estudava na Escócia, após retornar de um período de estudos na Austrália, e descreveu a sensação de desespero ao saber do ocorrido.
O episódio também foi retratado na terceira temporada de The Crown, série da Netflix sobre acontecimentos do reinado de Elizabeth II. A produção, que apresenta Olivia Colman no papel da monarca, aborda o dilema sobre o momento da visita da rainha e as críticas provocadas por sua ausência inicial.
Apesar das críticas à demora de Elizabeth II, Gareth Jones afirmou que não guarda ressentimentos em relação à monarca. Para ele, a decisão de esperar antes de visitar Aberfan também poderia ser entendida como uma demonstração de respeito às famílias enlutadas.
Seis décadas depois do desastre, a visita de Charles, Camilla e William pretende preservar a memória das 144 vítimas e reafirmar o vínculo da família real com a comunidade galesa.











