Desenvolvedores africanos estão recorrendo a sistemas chineses de inteligência artificial por causa do custo reduzido, da possibilidade de personalização e do acesso aberto. A tendência ganhou destaque depois que Ernest Mwebaze testou modelos americanos e chineses para criar uma ferramenta voltada aos diferentes idiomas de Uganda. No projeto, a tecnologia chinesa apresentou melhor desempenho.
Ex-pesquisador do Google, Mwebaze criou o Sunflower, sistema utilizado por agricultores ugandenses para receber informações sobre clima e cultivo em idiomas locais. Segundo ele, o modelo da Alibaba funcionou melhor do que alternativas da Meta e do Google para essa finalidade.
“Queremos construir coisas da forma mais barata possível, mas que funcionem muito bem”, afirmou Mwebaze, de acordo com o The New York Times.
A adoção de modelos chineses também ocorre em outros países do continente. No Quênia, empreendedores utilizam essas ferramentas para aprimorar serviços jurídicos e empresariais. Na Nigéria, desenvolvedores trabalham em soluções educacionais, enquanto no Gana surgem chatbots adaptados às necessidades locais.
Código aberto influencia decisões
Um dos principais atrativos dos sistemas chineses é o código aberto. Ao contrário dos modelos fechados, que normalmente exigem pagamentos e seguem as regras das empresas responsáveis por sua criação, essas ferramentas podem ser baixadas e modificadas pelos usuários.
Entre os fatores que pesam na escolha estão o menor custo para desenvolver aplicações, a possibilidade de incorporar dados próprios, o uso em projetos com poucos recursos e o maior controle sobre a tecnologia.
Para muitos desenvolvedores africanos, a prioridade não é utilizar o modelo mais avançado do mercado, mas uma ferramenta capaz de resolver o problema necessário. “Por que usar uma Ferrari cara para levar as crianças à escola quando um Toyota hatchback pode fazer a mesma coisa?”, questionou o empreendedor Moses Kemibaro ao The New York Times.
Sistemas de código aberto, como o Qwen, da Alibaba, permitem baixar, modificar e criar novas soluções com mais liberdade.
Disputa tecnológica entre China e Estados Unidos
A presença chinesa no setor de tecnologia africano começou antes da expansão da inteligência artificial. Empresas do país participaram da ampliação de redes de telecomunicações no continente, estabelecendo uma base para a oferta de novas soluções.
Apesar do avanço dos modelos chineses, empresas africanas continuam recorrendo a ferramentas americanas em determinadas situações. Sistemas da OpenAI e da Anthropic ainda são procurados para tarefas técnicas que exigem maior precisão.
A escolha também envolve fatores políticos. Depois de problemas com respostas do Sunflower sobre a China, Mwebaze passou a procurar alternativas para evitar uma dependência excessiva de um único fornecedor. “Precisamos garantir que não estamos do lado errado da geopolítica”, afirmou.
A experiência africana indica que a disputa pela inteligência artificial não depende apenas de qual país desenvolve os modelos mais avançados. Custo, liberdade de uso e capacidade de adaptação também influenciam quais tecnologias chegam aos usuários.











