ressignificando emoções, sentimentos e datas — Brasil de Fato

Quando eu era criança e morava no Rio Grande do Sul, a palavra “finados” nunca foi uma das minhas prediletas na língua portuguesa, pois me remetia a dias sombrios, cemitérios e ventos. Em contrapartida, a palavra “saudade” era uma das minhas favoritas nesse período do ano.

Saudade, palavra que habita o coração da língua portuguesa, especialmente no Brasil, traduz as emoções que se vivem no Dia de Finados, pois descreve um sentimento complexo no qual se misturam falta, desejo, lembrança e amor por algo ou alguém distante. Mais do que nostalgia, a saudade é presença na ausência, é memória que pulsa. Embora outras línguas tentem capturar esse sentimento com termos como sehnsucht (alemão), hiraeth (galês) ou mono no aware (japonês), nenhuma o faz com exatidão.

Ao ler, na trilogia O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, a personagem Ana Terra dizer “Noite dos ventos, noite dos mortos”, identifiquei-me imediatamente com ela. Para mim, o vento dos finados carrega uma simbologia profunda: traz em seu movimento a saudade de nossas perdas e a força interior que empreendemos para seguir resilientes às ausências e às lembranças de quem ainda vive plenamente em nossos corações, embora já tenha partido fisicamente.

Na fase adulta, quando ainda vivia no Rio Grande do Sul, o feriado de Finados passou a significar viajar ao litoral com amigos no primeiro feriado pré-verão ou ir à Praça da Alfândega, em Porto Alegre, e passear entre as bancas da Feira do Livro. Em anos eleitorais, também representava forte movimentação política em busca de resultados importantes, que muitas vezes foram históricos para a sociedade gaúcha.

Com os mexicanos, aprendi que o respeito, o amor e o carinho por nossos ancestrais e entes queridos não precisam estar vinculados à dor e ao sofrimento – Foto: Mônica Cabanas

Quando fui viver no México, em 2016, o Dia de Finados passou a ser o Día de los Muertos, e não foi somente o idioma que mudou, mas também a minha percepção pessoal sobre essas celebrações, que foram redefinidas e reinterpretadas. O país vive esses dias de forma totalmente diferente do Brasil, e, com os mexicanos, aprendi que o respeito, o amor e o carinho por nossos ancestrais e entes queridos não precisam estar vinculados à dor e ao sofrimento, podendo ser vividos com luz, cores e poesia.

No México, o Día de Muertos, celebrado entre 27 de outubro e 2 de novembro, é uma das festas mais emblemáticas do país. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, é uma celebração da vida por meio da memória. Ao contrário do luto silencioso, os mexicanos recebem seus mortos com cor, música, comida e afeto. Altares são montados com fotos, velas, flores de cempasúchil, caveiras de açúcar e os pratos favoritos daqueles que partiram — tudo para acolher os espíritos que, segundo a tradição, regressam para visitar suas famílias.

Nesse período, um fenômeno natural se entrelaça com o espiritual no país: a chegada das borboletas-monarca. Vindas do Canadá e dos Estados Unidos, elas percorrem 4 mil quilômetros guiadas por uma bússola invisível, como se obedecessem a um chamado ancestral. Para os povos originários mexicanos, essas criaturas aladas não são apenas viajantes, mas sim almas que retornam. Mensageiras do além, elas cruzam os céus como sinais de que aqueles que partiram estão de volta, ainda que por um breve instante, para celebrar o amor e a memória.

Em tempos de COP30 e à medida que nos aproximamos do Dia de Finados, é importante dizer que esse delicado e essencial ciclo das borboletas-monarca está ameaçado. O desmatamento, os agrotóxicos e as mudanças climáticas colocam em risco não apenas a espécie, mas também o elo entre a natureza e a tradição. Ainda assim, as monarcas resistem — e, com elas, a esperança de que a memória também possa voar.

*Mônica Cabanas é jornalista e correspondente do Brasil de Fato em Genebra.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

0 Votes: 0 Upvotes, 0 Downvotes (0 Points)

Leave a reply

Loading Next Post...
Seguir
Sign In/Sign Up Sidebar Search
COLUNISTAS
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...