Tetiana Bubynets, de 19 anos, Oleksiy Svirin, de 41, e Roman Karpiy, de 48, morreram no início de julho, em Zaporizhzhia, no sudeste da Ucrânia, durante um ataque de drone na guerra contra a Rússia. O caso chamou atenção porque o equipamento era conduzido de forma autônoma por inteligência artificial.
Em 6 de julho, um grupo de pessoas se abrigou junto à parede de um prédio residencial depois de ouvir explosões provocadas por um enxame de drones russos. Um dos aparelhos seguiu até o local. Programado para atingir tanques de gás propano, altamente inflamáveis, o drone se dirigiu a uma área próxima a um posto de combustível.
Ao perceberem a aproximação, as pessoas correram para se dispersar em um estacionamento. O drone tentou contornar o prédio, mas bateu na parede e explodiu, lançando estilhaços. Bubynets, Svirin e Karpiy morreram em razão dos ferimentos provocados pela explosão. Entre os destroços, autoridades encontraram um chip da Nvidia.
A guerra entre Rússia e Ucrânia se tornou um campo de testes para drones militares, incluindo equipamentos com sistemas autônomos de inteligência artificial. “Daqui uns anos, estaremos vivendo num filme da franquia ‘Exterminador do Futuro’”, afirmou o coronel Serhiy Minaiev, comandante da defesa aérea de Zaporizhzhia, segundo o jornal New York Times. “Não é piada. Máquinas estão decidindo atacar.”
De acordo com especialistas e autoridades militares, as decisões são processadas por módulos da Nvidia. A empresa confirmou ao jornal que o componente encontrado nos destroços era um minicomputador Jetson Orin.
A Nvidia afirmou que o dispositivo tem uso comum e foi desenvolvido para consumidores civis, como estudantes, desenvolvedores e startups. A companhia também declarou que vende o componente em diversos países, mas não na Rússia. Com isso, o equipamento teria chegado aos drones utilizados pelo país por meio de redes paralelas.
Rússia e Ucrânia já testavam o uso de inteligência artificial em drones. A novidade é a adoção de uma camada autônoma, capaz de permitir que os equipamentos cumpram missões sem controle humano direto. Segundo autoridades, a Rússia estaria experimentando essa tecnologia na região de Zaporizhzhia, aparentemente contra estruturas civis, como postos de combustível e tanques de gás propano. As razões para a escolha desses alvos não são conhecidas.
A Ucrânia também testa drones autônomos na Crimeia, região ocupada por forças russas. Segundo o jornal, nenhum civil morreu durante esses experimentos.
Antes dos sistemas autônomos, os drones eram controlados remotamente por meio de ondas de rádio ou cabos de fibra óptica. Essas formas de comunicação podem ser interceptadas, o que levou ao desenvolvimento de equipamentos conhecidos como jammers. Drones programados com uma missão, treinamento e capacidade própria de decisão seriam mais difíceis de bloquear.
“A possibilidade de você ter um sistema automatizado, de maneira autônoma, que ataque, faça a decisão do alvo e a decisão de eliminar é, sem dúvida, algo impressionante”, afirmou Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em entrevista sobre o tema.
O professor ressaltou, porém, que o desenvolvimento de uma arma também cria um segundo ciclo, o chamado ciclo do “anti”. Entre as formas de enfrentar drones estão interferências no espectro eletromagnético, blindagens sobre alvos, camuflagem digital e técnicas que dificultam a identificação correta do objetivo.
Em Zaporizhzhia, moradores instalaram redes entre postes e fiações para proteger áreas contra drones pilotados por militares ou controlados autonomamente. Outra medida foi colocar folhas de plástico em ângulos incomuns ao redor de tanques de propano em postos de gasolina, numa tentativa de confundir os sistemas de reconhecimento de imagem dos equipamentos.
Para Teixeira, drones autônomos com inteligência artificial são uma “tendência da guerra”, mas isso não significa o fim da participação de soldados nos conflitos. Segundo ele, essas máquinas podem atuar em conjunto com a infantaria, as forças blindadas e as unidades de artilharia, sem representar, por si só, uma mudança completa no campo de batalha.
Sobre a regulamentação de sistemas autônomos letais, o professor afirmou que ela dependerá do contexto dos conflitos atuais. Na avaliação dele, enquanto for conveniente às grandes potências manter esses sistemas sem regras, eles provavelmente continuarão sem regulamentação. Caso o potencial de destruição se torne muito elevado, tratados e mecanismos de controle poderão ser criados e impostos pelas principais potências ao restante do mundo.











