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Entre a tecnologia e a verdade: os riscos da IA na informação em saúde
Imagem: Reprodução
Colunistas

Entre a tecnologia e a verdade: os riscos da IA na informação em saúde

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Durante anos, aprendemos a desconfiar das mensagens que chegavam pelas redes sociais prometendo curas milagrosas, emagrecimento rápido, condenando vacinas ou apresentando “tratamentos naturais” como substitutos de medicamentos. Hoje, porém, existe um novo desafio: a informação falsa pode ser produzida por inteligência artificial, e pode parecer extremamente convincente.

Uma revisão narrativa publicada em 2026 na Aposta: Revista de Ciencias Sociales, da qual também participo como autora¹, chama atenção para esse fenômeno e mostra que a IA (inteligência artificial generativa) pode ampliar a capacidade de produção e disseminação de desinformação em saúde. O estudo analisou pesquisas publicadas entre 2018 e 2025 e identificou diferentes formas pelas quais conteúdos falsos ou enganosos podem ser produzidos por sistemas de inteligência artificial.

O problema começa justamente onde muitos de nós enxergamos uma vantagem da tecnologia: a facilidade de produzir textos claros, rápidos e aparentemente bem fundamentados.

Um sistema de inteligência artificial pode escrever em poucos segundos um texto sobre uma doença, um medicamento, uma vacina ou determinado tratamento. Pode organizar tópicos, utilizar uma linguagem convincente e até apresentar referências que parecem científicas. Para quem lê, isso pode transmitir uma sensação de autoridade.

Mas aparência de conhecimento não é a mesma coisa que conhecimento confiável.

A máquina também pode errar, e errar com confiança!

Um dos pontos mais importantes discutidos no estudo é o fenômeno conhecido como “alucinação” dos modelos de inteligência artificial. Em determinadas situações, o sistema pode produzir uma informação incorreta sem que exista uma intenção deliberada de enganar.

Isso inclui informações não sustentadas pelas fontes, interpretações equivocadas e até referências ou citações que não correspondem adequadamente ao que está sendo afirmado.

E aqui existe uma diferença fundamental entre uma busca comum na internet e uma conversa com uma inteligência artificial.

Quando procuramos uma informação em um site, conseguimos, em princípio, verificar de onde ela veio. Já uma resposta produzida por um chatbot pode aparecer pronta, organizada e escrita em tom seguro, sem que o usuário perceba imediatamente quais informações foram verificadas e quais podem estar erradas.

Na área da saúde, isso é particularmente preocupante.

Uma informação errada sobre um filme ou uma receita culinária pode um inconveniente. Uma informação errada sobre medicamentos, vacinação, sintomas, diagnóstico de doenças ou tratamento pode interferir diretamente em decisões que afetam a saúde de uma pessoa.

O falso também pode parecer científico

Talvez uma das conclusões mais preocupantes seja que não basta mais ensinar as pessoas a procurar “cara de notícia falsa”.

A inteligência artificial consegue produzir conteúdos com aparência profissional e adaptá-los para diferentes públicos.

O artigo apresenta, por exemplo, um experimento no qual um único modelo de linguagem conseguiu produzir, em apenas 65 minutos, 102 textos de blog e mais de 17 mil palavras de desinformação sobre vacinas e cigarros eletrônicos, incluindo depoimentos falsos e referências com aparência científica. Além disso, foram produzidas 20 imagens realistas em menos de dois minutos.

Isso muda a escala do problema.

A desinformação tradicional exigia alguém disposto a escrever, editar e distribuir uma quantidade enorme de conteúdo. Com ferramentas de inteligência artificial, a produção pode ser muito mais rápida, barata e personalizada.

E existe ainda outro elemento: as pessoas podem ter dificuldade para perceber que determinado conteúdo foi produzido por uma máquina.

Quando a resposta convincente ganha mais confiança do que deveria

Um estudo citado na revisão, envolvendo 697 participantes, comparou conteúdos verdadeiros e falsos relacionados a temas como vacinação, covid-19 e tratamentos homeopáticos para câncer. Os resultados mostraram que os textos produzidos pelo GPT-3 podiam ser considerados mais convincentes do que aqueles produzidos por usuários humanos.

Esse dado merece atenção.

Não significa que a inteligência artificial seja incapaz de fornecer informações corretas. Muito pelo contrário: as próprias ferramentas podem ser extremamente úteis para educação, pesquisa e comunicação em saúde.

O problema está em confundir capacidade de comunicação com autoridade científica.

Uma resposta bem escrita não é necessariamente uma resposta correta.

Uma resposta detalhada não é necessariamente uma resposta baseada em evidências.

E uma referência bibliográfica apresentada por uma inteligência artificial não deve ser considerada verdadeira simplesmente porque possui nome de autor, título de artigo e aparência acadêmica.

E onde entram os profissionais de saúde?

É justamente nesse ponto que os profissionais de saúde continuam sendo fundamentais. Eles não precisam competir com a inteligência artificial. Tampouco precisa rejeitar a tecnologia. O caminho mais seguro é utilizá-la de maneira crítica e supervisionada.

Uma inteligência artificial pode ajudar a explicar um conceito, organizar informações, resumir um documento ou auxiliar na comunicação. Mas ela não deve substituir a avaliação profissional nem ser tratada como fonte final para decisões clínicas.

O próprio artigo defende a participação dos profissionais de saúde, especialmente na atenção primária, na orientação da população sobre o uso crítico dessas ferramentas e na verificação das informações antes que sejam repassadas.

Antes de iniciar, interromper, substituir ou modificar um tratamento porque “a inteligência artificial disse”, é necessário voltar ao básico: quem é a pessoa, qual é o diagnóstico, quais medicamentos utiliza, quais são suas condições clínicas e quais evidências sustentam aquela recomendação?

A tecnologia não conhece toda a história clínica de um paciente simplesmente porque consegue escrever uma resposta sobre sua doença.

Precisamos aprender a verificar, não apenas a identificar

Talvez a principal mudança que a inteligência artificial nos obrigue a fazer seja abandonar a ideia de que conseguiremos identificar uma informação falsa apenas pelo jeito como ela foi escrita.

O artigo aponta que é mais prudente ensinar as pessoas a checar fontes e referências do que esperar que consigam reconhecer um suposto “estilo de máquina”.

Na prática, isso significa fazer perguntas simples antes de compartilhar uma informação de saúde:

De onde veio essa informação?

Existe uma fonte confiável? O estudo realmente diz aquilo que o texto afirma?

A informação foi publicada por uma instituição de saúde ou por um profissional habilitado?

Estamos diante de uma evidência científica ou apenas de um depoimento?

E, principalmente:

essa informação é suficiente para tomar uma decisão sobre a minha saúde?

A inteligência artificial não precisa ser nossa inimiga

É importante deixar claro: o problema não é simplesmente a existência da inteligência artificial.

A tecnologia também apresenta oportunidades importantes para a saúde, para a educação e para a comunicação científica. O próprio artigo reconhece que os modelos de linguagem podem ser utilizados em diferentes áreas da medicina, da pesquisa e da educação em saúde.

O desafio é estabelecer limites.

Precisamos de maior transparência e auditoria por parte das empresas que desenvolvem essas ferramentas, mecanismos para comunicar falhas, regulação adequada, educação digital e em saúde e participação ativa dos profissionais de saúde.

Há, inclusive, uma comparação interessante apresentada no artigo: os autores sugerem que alguns princípios da farmacovigilância (como vigilância, transparência e regulação) podem servir de inspiração para lidar com os riscos relacionados à inteligência artificial em saúde.

Essa talvez seja uma das maiores lições que podemos tirar desse debate.

A tecnologia pode ser extremamente poderosa. Mas, quando o assunto é saúde, poder sem responsabilidade pode se transformar em risco.

A inteligência artificial pode produzir uma resposta em segundos.

Nós, seres humanos, continuamos responsáveis por decidir se devemos acreditar nela.

E, quando essa decisão envolve a saúde de alguém, alguns segundos de verificação podem fazer toda a diferença.


¹ ABREU, A. B. et al. Desinformação em saúde produzida por Inteligência Artificial. Aposta: Revista de Ciencias Sociales, v. 24, n. 120, e2185, 2026. DOI: https://doi.org/10.23900/ra.v24i120.2185.

Por Fernanda Resende,
biomédica e farmacêutica em formação

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