Em uma oficina de Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, o seleiro Cleuber Custódio mantém viva a ligação com o rodeio por meio do trabalho artesanal com o couro. A cidade fica a cerca de 70 quilômetros de Uberlândia.
Há 11 anos, Cleuber produz e reforma selas e arreios, confecciona cintos, faz tranças e tramas e prepara equipamentos usados por peões. A rotina pode chegar a 12 horas diárias, entre encomendas destinadas a diferentes estados brasileiros.
Antes de trabalhar na selaria, Cleuber foi peão de rodeio e competiu em países como Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Honduras e México. Depois de sofrer acidentes durante a carreira, deixou as montarias, mas continuou ligado ao universo do rodeio.
“Basicamente, eu faço o que o seleiro faz. Faço praticamente quase tudo. Trabalho também com reforma, faço sela, faço arreio. Praticamente quase todo tipo e modelo de arreio eu faço”, conta.
Entre as atividades da oficina, o bordado no couro ocupa um espaço especial. Cleuber passa horas diante da mesa, repetindo movimentos e ajustando a força aplicada às ferramentas para criar os desenhos.
“Tem alguns detalhes, alguns pontos em que você dá vida no bordado e não precisa fazer com tanta força. Já para rebaixar, eu particularmente gosto de usar um pouco mais de força para levantar o bordado e ficar mais aparente”, explica.
O cuidado também evita danos às peças. “Já aconteceu de eu fazer um pouco de força e as peças quebrarem. Então, tem que ter um grauzinho de força para não danificar”, relata.
Na selaria artesanal, o tempo de produção varia conforme o tipo de encomenda. Um cinto leva aproximadamente dois dias. Peças maiores podem exigir semanas ou meses de trabalho. Uma sela específica para mulas e burros já acumulava cerca de seis meses de produção.
O modelo tem partes tramadas manualmente com couro e exige cálculos para definir a distância dos furos, a largura e a espessura dos tentos. Apenas uma das tramas da borda pode consumir cerca de quatro dias.
“É um trabalho bem demorado porque é todo manual. Não tem máquina para fazer esse trabalho”, afirma Cleuber. Em agosto, ele já tinha encomendas com previsão de entrega apenas para o fim do ano.
“Eu trabalho todos os dias da semana. Oito horas por dia, para mim, aqui é muito pouco. Trabalho, em média, 12 horas por dia. Nos finais de semana trabalho menos, mas também não fico sem trabalhar, porque a demanda é muito alta”, diz.
Embora esteja no interior de Minas Gerais, a oficina atende clientes de Tocantins, Paraná, Mato Grosso, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo Cleuber, parte da procura está relacionada ao número reduzido de profissionais que ainda dominam determinadas técnicas da selaria artesanal.
A profissão começou a ser aprendida fora do Brasil, durante a carreira como peão. Em uma competição no México, Cleuber quebrou a perna durante uma montaria, passou por cirurgia e recebeu a recomendação de ficar aproximadamente três meses sem competir.
“Eu tive um acidente, quebrei a perna e tive que fazer cirurgia. Foi onde eu aprendi. Eu não podia mais montar, tinha que ficar três meses parado. E fui aprendendo lá no México”, lembra.
Durante a recuperação, ele começou a aprender técnicas de bordado em couro. A atividade, iniciada no período em que ficou afastado das arenas, abriu caminho para a profissão que seguiria nos anos seguintes.
Em outra competição no México, Cleuber sofreu um acidente ainda mais grave. Sua mão escapou da corda durante a montaria, e o touro mudou o movimento e pisou no lado esquerdo do corpo do peão.
“A mão escapou da corda. Ele veio de contramão, rodando de contramão, e acabou pisando em mim. É muito rápido. Você não vê nada. Quando percebe, já aconteceu”, recorda.
O impacto provocou fraturas nas costelas, uma lesão grave no braço e uma hemorragia interna. “O problema maior foi a questão da hemorragia interna”, conta.
Anos depois, um sorteio colocou Cleuber novamente diante do mesmo touro. Ele reconheceu o animal e, apesar dos questionamentos dos amigos, decidiu fazer a montaria.
“Falei que ia montar nele. Eu senti uma paz muito grande”, lembra. Dessa vez, conseguiu completar o desafio. “Montei nele, parei nele e rodei nele. Esse dia Deus me honrou naquele lugar. Eu lavei a alma, tirou um peso bem grande das minhas costas.”
As montarias ficaram para trás, mas o rodeio continuou presente na vida de Cleuber. Hoje, as selas, os arreios e os demais equipamentos produzidos na oficina são usados em arenas, cavalgadas e comitivas. No vocabulário do meio, ele ajuda a “traiar” os peões.
Além de fabricar equipamentos, Cleuber começou a trabalhar com animais jovens destinados ao rodeio. “Eu faço tanto o equipamento e também a gente está começando a mexer com os tourinhos de rodeio”, explica.
A trajetória do seleiro revela uma parte da cultura sertaneja que existe antes de o competidor entrar na arena. Em eventos como o Barretão, os oito segundos da montaria concentram a atenção do público, mas o rodeio também depende de profissionais, técnicas e conhecimentos ligados à preparação dos equipamentos.
Em Tupaciguara, cada arreio, trama e pedaço de couro trabalhado por Cleuber mantém técnicas artesanais presentes na rotina de quem vive do campo e do rodeio.











