Os 30 anos do Ford Ka, o compacto que marcou gerações

A década de 1990 foi uma época de grandes mudanças no mundo automotivo. Mas uma marca, em especial, aproveitou o timing para realmente impactar no design de seus carros. Era uma ruptura completa com o que existia até então. E a filosofia valia para todos os mercados, desde um pacato e – até então – conservador Taurus até os compactos europeus vendidos até então.

Foi em 1996, há exatos 30 anos, que veio o grande impacto: um carrinho chamado Ford Ka. Ele nasceu na mesma época em que surgiam outros compactos pequenos arredondados e com cara sorridente, como o Corsa de segunda geração e o Renault Twingo. E embora para muitos ainda pareça apenas um usado típico de primeiro carro, tecnicamente e visualmente ele já está no rol de carros clássicos. Pois é.

Um rival para o Twingo

No fim de 1996, a Ford marca presença em um novo território: o “Sub-B”, mais tarde popularizado como a categoria dos subcompactos. O Ka, com 3,62 m de comprimento, deve sua existência – ironicamente – ao crescimento do Fiesta. Se no lançamento, em 1976, ele tinha discretos 3,56 m, em 1996 já havia crescido para 3,82 m.

A ideia do braço europeu, na época, era que ambos compartilhassem muito na parte técnica e mecânica, mas sem que o Ka fosse apenas um Fiesta encolhido. Para isso, elencou Claude Lobo, francês que também criou o primeiro Focus, para que criasse o anti-Twingo perfeito, mas com a filosofia Ford. Nascia, ali, a identidade New Edge.



Foto: Ford

O Ka ficou marcado pelo design dominado por cantos arredondados e também pelos grandes para-choques de plástico sem pintura. No trânsito urbano isso é extremamente prático, mas divide opiniões. Ainda assim: o Ka chama atenção. Na época, a imprensa especializada comparava circular pelo centro da cidade com ele a um “desfile na passarela”.

Mesmo com o foco em cidades, o pequeno não deixava de lado a versatilidade. Com um entre-eixos incomum para a categoria, de 2,45 m, o Ford oferecia um espaço interno surpreendente. A depender da versão, contava até com um pequeno relógio analógico ao centro. Testes da época indicavam que ele poderia levar até duas caixas de água no porta-malas, e a altura para a cabeça também era considerada notavelmente generosa. 



Ousado no visual, conservador no motor

Sob a chapa de proposta vanguardista, a Ford foi conservadora. No início, havia dois quatro-cilindros 1,3 litro da família Endura, um com 50 cv e outro com 60 cv. Com aceleração de até 17,7 segundos até 100 km/h, o Ka não era exatamente um bólido nas ruas, mas compensava muito disso no seu comportamento dinâmico. Ele contorna curvas quase de forma neutra e, muitas vezes, entrega mais prazer ao volante do que carros bem mais caros e com pretensões esportivas.

Ao longo dos anos, a Ford Europa ampliou bastante a linha: a limitada “Edition Lufthansa” (1997) era um “mini” mais sofisticado, com bancos de couro contornados em amarelo, por salgados 23.500 marcos alemães. Bem mais barato foi o Ka “Student”, lançado em janeiro de 2005 por apenas 7.990 euros. 







Foto: Ford

Imagens de: Ford

A partir de 2000, surgiu um teto de lona elétrico com função one-touch. Em 2002, a proposta ficou ainda mais ousada: chegou o Streetka, produzido pela Pininfarina, com 95 cv — um verdadeiro chamariz para quem gosta de rodar ao sol. Em 2003, veio o Sportka, com o motor 1,6 litro do Streetka e suspensão mais firme, um carrinho capaz de divertir de verdade. 

Em junho de 2002, a fábrica de Valência já comemorava o Ka de número 1 milhão saindo da linha. Um dado chamativo: cerca de 65% dos compradores eram novos clientes – um índice de conquista que poucos modelos da marca alcançaram. Em 2008, a produção da primeira geração foi encerrada após cerca de 1,5 milhão de unidades.

O Ka no Brasil

Se o Ka já era diferente de tudo no mercado europeu da década de 90, o impacto visual em seu lançamento, exatos seis meses depois da apresentação no Velho Continente, causou reboliço tão grande ou maior do que no exterior.

Mesmo dentro da Ford, o consumidor da norte-americana estava acostumado há alguns anos com as derivações de projetos do Corcel, que vinham desde meados dos anos 60, chegando até Escort – o único global entre todos – e o Versailles, um VW Santana com grade diferente. Foi com o fim da Autolatina, na virada de 1996 para 1997, que tudo mudou.



Foto de: Reprodução

De meados de 1995 a 1997, chegaram oficialmente ao mercado Fiesta, Ka e Mondeo, todos em dia com o que o fabricante oferecia no mercado europeu, também com novos motores, diferentes do velho CHT e dos AP 1.8 e 2.0 usados no Del Rey/Versailles. E a Ford precisava disso, principalmente para mostrar que ainda podia se reinventar após um divórcio sofrido com a VW.

O modelo vendido aqui chegou quase idêntico ao europeu, apenas com mudanças de equipamentos de série – afinal, tinha que ser barato – e também na suspensão, que foi erguida em carca de 2,5 cm. No design em si, nada mudou, bem como no interior e nas cores fortes da carroceria.



Foto de: Reprodução

Por aqui, adotou o motor 1.0, derivado do Endura 1.3 do Fiesta e do equivalente europeu. Mais fraco, foi feito sob medida para as regras tributárias que beneficiavam modelos de baixa cilindrada – e potência. Ao todo, entregava 53 cv e 7,8 kgfm de torque, sempre com injeção multiponto.

Primeiro Ford de fato feito aqui pós-Autolatina, o Ka vendeu bem em seus primeiros anos, permanecendo sem grandes mudanças. Somente na linha 2000 chegaria a família de motores Zetec Rocam.



Foto de: Reprodução

No ano seguinte, chegava o Ka XR. O pequeno resgata a sigla esportiva do velho Escort, adotando também spoilers exclusivos, aerofólio e rodas de liga leve, sendo equipado com a versão 1.6 do motor Zetec. Sendo um carro de menos de uma tonelada (930 kg), a potência de 95 cv e 14,2 kgfm de torque dava ao Ka comportamento digno de um kart.

Exclusivo da América do Sul, a reestilização de meio de vida acabou tirando um pouco da personalidade original, mudando o design limpo da traseira para alocar lanternas maiores e o suporte de placa, até então presente no para-choque traseiro. 



Foto de: Reprodução

O modelo seguiu com poucas mudanças depois disso, tendo ficado em linha também até o ano de 2008, tal qual seu equivalente original. Depois disso, ambos se separaram, com o segundo Ka do Velho Continente virando uma versão da marca para o Fiat 500. O brasileiro, por sua vez, mantinha o padrão de duas portas, a mesma plataforma e motorizações, mas com design próprio e sem a mesma genialidade de antes.

Quem hoje procura um Ka “raiz” encontra uma porta de entrada barata para um hobby automotivo. Mas é preciso atenção: a ferrugem ataca sem piedade longarinas e a região da tampa do bocal do tanque, muitas vezes agravada pela falta de cuidado de antigos donos. Ainda assim, quem encontra um bom exemplar leva para casa um pedaço da história do design – e um carro que, mesmo após três décadas, não parece datado.

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