Mulheres com ensino superior completo recebem, em média, 30,1% menos que homens com o mesmo nível de escolaridade em Uberlândia. Os dados são do Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (CEPES/UFU).
Segundo o estudo mais recente, divulgado em agosto, a remuneração média de admissão foi de R$ 5.192 para os homens e R$ 3.629 para as mulheres. A diferença chega a R$ 1.563 por mês.
O levantamento indica que a desigualdade salarial entre homens e mulheres com graduação permanece praticamente no mesmo patamar dos últimos dois anos. Em dezembro de 2024, homens com ensino superior completo eram admitidos com salário médio de R$ 4.782, enquanto a média entre as mulheres era de R$ 3.294, uma diferença de 31,1%.
Em dezembro de 2025, a distância seguia semelhante: R$ 4.872 para os homens e R$ 3.392 para as mulheres, o que representava uma disparidade de 30,4%.
Para o economista do CEPES/UFU Welber Tomás, parte da diferença pode ser explicada pela distribuição de homens e mulheres entre diferentes profissões e setores da economia. De acordo com ele, ocupações com maior presença feminina frequentemente têm remuneração inferior à de áreas tradicionalmente ocupadas por homens.
“Algumas ocupações que são tipicamente ocupadas por mulheres têm menor remuneração do que ocupações que são tipicamente ocupadas por homens. Porém, mesmo quando nós estimamos qual a diferença, considerando não só educação, mas também posição, setor e ainda características individuais, vamos chegar em algum nível de diferença menor que 30%, ali na casa de 10% ou 8% no salário hora”, afirma Tomás.
A análise aponta que as diferenças de ocupação e de inserção no mercado explicam apenas parte da distância salarial. Mesmo considerando outras características dos trabalhadores e dos postos de trabalho, ainda permanece uma diferença de remuneração entre homens e mulheres, segundo o economista.
Entre profissionais com pós-graduação, a desigualdade é ainda maior, embora tenha diminuído nos últimos meses. Em dezembro de 2024, a diferença salarial era de 46,4%. Em agosto de 2026, chegou a 32,9%.
Essa aproximação ocorreu principalmente pela redução do salário médio dos homens com pós-graduação, que caiu de R$ 9.096 para R$ 6.507. Entre as mulheres, a média passou de R$ 4.877 para R$ 4.365.
Segundo Welber Tomás, a dinâmica está relacionada ao tipo de vínculo que costuma empregar profissionais com mestrado e doutorado. “A nível de pós-graduação, onde entra mestrado e doutorado, o que acontece no mercado de trabalho é que essas pessoas são muito absorvidas pelo setor público, e neste setor, por força de lei, a desigualdade salarial entre gêneros é muito menor, pois não ocupa o sexo e sim a posição que você está ocupando ali”, explica.
O economista afirma ainda que a realidade salarial de Uberlândia é semelhante à observada em Minas Gerais e no Brasil. “Eu lembro que em todas as vezes que analisamos isso, Uberlândia não tinha um comportamento que se distanciava do que era Minas Gerais ou o Brasil. O mercado de trabalho de Uberlândia espelha bem o mercado de trabalho estadual e nacional, e rotineiramente não vemos diferença que dê para apontar como significativa”, diz.
Para a historiadora e pesquisadora Cláudia Guerra, os números revelam um problema que ultrapassa a questão econômica. “O mérito não explica essa desigualdade. Apesar das mulheres serem mais escolarizadas, elas não recebem como os homens, e esta diferença não é uma questão só de renda, mas que revela estruturas históricas que vêm culturalmente desvalorizando o trabalho feminino, sobrecarregando as mulheres com o cuidado e que vão limitando a sua autonomia econômica”, analisa.
Cláudia Guerra também afirma que a diferença entre qualificação e remuneração não é um problema individual. “As mulheres estudam durante anos, conquistam um diploma universitário, muitas conquistam até a pós-graduação, eu, por exemplo, tenho doutorado, investem na formação, constroem uma carreira, mas no final das contas recebem milhares de reais a menos que os homens”, diz.
De acordo com a pesquisadora, a qualificação profissional, por si só, não é suficiente para superar a desigualdade histórica e sistemática entre os gêneros no mercado de trabalho e na sociedade. “A desigualdade salarial não vai decorrer da falta de qualificação feminina. Ela persiste, pois essas estruturas históricas, sociais, culturais e econômicas continuam distribuindo de forma desigual as oportunidades, o reconhecimento profissional e a responsabilidade de cuidado”, conclui.











