
Desde março, trabalhadores com carteira da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) assinada passaram a ter acesso a uma nova linha de crédito consignado, que utiliza o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) como garantia. A promessa do governo federal é facilitar o acesso a empréstimos com juros mais baixos, mas o modelo exige atenção redobrada por parte dos trabalhadores.
No programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a advogada Lariane Romano Del-Vechio, especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário, explicou como o modelo funciona na prática, os cuidados que devem ser tomados e em que situações vale a pena recorrer a esse tipo de empréstimo. Confira:
Segundo a advogada, o processo começa pelo aplicativo Carteira de Trabalho Digital.
“O trabalhador registrado, seja do setor urbano, rural ou doméstico, acessa o aplicativo e libera seus dados para consulta. A partir daí, os bancos interessados fazem uma análise e enviam propostas, com diferentes taxas de juros, para que o trabalhador escolha a mais vantajosa”, explica Del-Vechio.
A taxa de juros dessa modalidade foi limitada a 1,68% ao mês. O percentual é 40% abaixo do teto anterior, que era de 2,14%. A expectativa do governo é que essa redução estimule a renegociação de dívidas com taxas mais altas, como no caso do rotativo do cartão de crédito.
Em caso de demissão, parte do saldo do FGTS é utilizado para quitar a dívida.
“No momento da contratação, não há retenção do valor total do FGTS. Mas, se o trabalhador for demitido, são bloqueados 10% do seu saldo do FGTS e 100% da multa rescisória. Já quem pede demissão, como não tem direito à multa, tem apenas os 10% bloqueados”, esclarece a advogada.
Enquanto o vínculo de trabalho permanece ativo, o empréstimo é pago por meio de desconto direto na folha de pagamento.
Para a especialista, o empréstimo pode ser útil, mas só em situações de “extrema necessidade”.
“É interessante desde que o trabalhador analise bem as cláusulas. Se for para quitar uma dívida com juros mais altos, como cartão de crédito ou outro empréstimo, pode valer a pena. Mas é preciso avaliar se essa nova parcela vai comprometer a renda familiar”, alerta.
Ela reforça que um valor aparentemente pequeno, como R$ 300 por mês, pode acabar pesando no orçamento ao longo do tempo. “Hoje pode não parecer nada, mas depois pode ser que essa redução da renda mensal pese.”
Sim. Segundo Del-Vechio, essa possibilidade pode pressionar os bancos a oferecerem taxas menores.
“Agora que é possível migrar dívidas entre instituições, imagino que vai haver uma espécie de ‘leilão’ de juros, o que pode beneficiar os trabalhadores com melhores ofertas. É fundamental que eles comparem as condições e escolham o que for mais vantajoso”, afirma.
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira, uma às 9h e outra às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.