Uberlândia poderia ter elegido pelo menos mais três deputados federais e outros três estaduais caso parte dos votos destinados a candidatos de outras cidades tivesse sido direcionada a concorrentes com base eleitoral no município. Com isso, a representação local na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) poderia dobrar, já que a cidade elegeu três representantes em cada uma das casas.
A conclusão consta de um levantamento baseado no resultado oficial das eleições. Na disputa para deputado federal, 583 candidatos receberam votos em Uberlândia. Dos 380.231 votos nominais registrados, pelo menos 202.536 foram destinados a candidatos com base eleitoral na cidade. Outros 177.695 votos foram distribuídos a concorrentes de outros municípios e regiões de Minas Gerais.
O deputado federal mais votado em Uberlândia foi Nikolas Ferreira (PL), que tem base em Belo Horizonte e recebeu 101.713 votos no município.
Para deputado estadual, 658 candidatos tiveram votação em Uberlândia. Do total de 364.821 votos nominais, pelo menos 273.356 foram para candidatos da cidade, enquanto 91.465 foram destinados a concorrentes de outras localidades. Bruno Engler (PL) foi o candidato de fora mais votado, com 15.238 votos — o quinto melhor desempenho entre todos os concorrentes votados no município.
Segundo maior colégio eleitoral de Minas Gerais, com mais de 540 mil eleitores, Uberlândia tem histórico de votar em candidatos de outras cidades e regiões. Em 2022, 876 candidatos a deputado federal receberam votos no município. Na disputa para deputado estadual, foram 1.002 candidatos com alguma votação.
O publicitário Hélio Mendes, que disputou uma vaga de deputado estadual em 1986 e trabalhou como assessor parlamentar do deputado federal Homero Santos, de Uberlândia, em 1988, avalia que a dinâmica eleitoral mudou desde aquele período. Segundo ele, antes das redes sociais, com menos partidos e campanhas que exigiam viagens para o contato com os eleitores, Uberlândia tinha uma representação política mais expressiva.
“Naquele período, Uberlândia tinha aproximadamente um terço da população atual e chegou a contar, conforme me lembro, com quatro deputados federais, um senador e três deputados estaduais. Era uma representatividade que a cidade já não possui”, relembrou.
Para Mendes, o fortalecimento político de cidades do entorno, como Patrocínio, Patos de Minas, Araxá e Ituiutaba, também contribuiu para a mudança. Esses municípios passaram a valorizar e projetar suas próprias lideranças. Além disso, moradores dessas localidades que vivem em Uberlândia podem manter vínculos políticos com as cidades de origem.
Cálculos baseados no resultado oficial indicam que a diferença entre o último candidato eleito e os suplentes de Uberlândia mais próximos dentro de determinadas chapas seria suficiente para garantir mais uma vaga em pelo menos três chapas de deputado federal e em outras três de deputado estadual.
Na disputa estadual, Leonídio Bouças (PSDB) teria sido eleito novamente se recebesse mais 5.790 votos, número necessário para superar o último eleito de sua chapa. Arnaldo (União) precisaria de mais 27.709 votos para conquistar uma vaga.
Mesmo considerando os mais de 91 mil votos destinados a candidatos de fora, ainda haveria margem para uma vaga adicional na ALMG. Pelizer (PL) precisaria de mais 30,4 mil votos; Maria Hilda Leão (PP), de 35,1 mil; e Dr. Igino, de 36,4 mil votos para alcançar a eleição.
Na disputa federal, Ana Paula Leão (PP) teria sido reeleita se recebesse parte dos 177 mil votos destinados a candidatos de fora. A diferença para o último eleito de sua chapa foi de 45,7 mil votos. Gilmar Machado (PT) precisaria de mais 46,4 mil votos para obter o mesmo resultado.
Ainda haveria votos suficientes, em uma situação hipotética, para uma terceira vaga federal. O candidato mais próximo seria Ronaldo Tannús (Pode), que precisaria receber mais 48,2 mil votos.
Para Alexandre Walmott, professor de Direito da Universidade Federal de Uberlândia e cientista político, a votação expressiva em candidatos de outras regiões está relacionada ao sistema proporcional brasileiro e às novas formas de comunicação. Segundo ele, o modelo estimula os eleitores a procurar candidatos em uma espécie de lista geral, sem necessariamente limitar a escolha aos nomes ligados à cidade.
“O sistema eleitoral brasileiro proporcional é montado para um grande bloco que são os candidatos estaduais, ainda mais considerando a existência da propaganda televisiva e hoje também das mídias eletrônicas. O eleitor e a eleitora acabam buscando informações variadas, inclusive a possibilidade de votar em candidatos que não sejam necessariamente do berço da sua cidade”, comentou Walmott.
Hélio Mendes aponta quatro fatores para a redução do caráter regional dos votos: o alcance das redes sociais, que rompeu barreiras territoriais; a influência das emendas parlamentares; a mobilização de segmentos sociais, como a comunidade evangélica; e o aproveitamento do momento político por candidatos associados a lideranças nacionais. Na avaliação dele, esse movimento favoreceu candidatos do PL e ajudou Nikolas Ferreira, somado à capacidade de comunicação e ao carisma do deputado.
Walmott observa, porém, que a votação em candidatos de fora é menor na disputa para a Assembleia Legislativa do que para a Câmara dos Deputados. Para ele, a predominância de nomes locais no pleito estadual pode ser explicada pela ausência de candidatos com grande projeção nacional.
“Quando a gente olha para os votos da Assembleia Legislativa, esse é um voto mais regional. Sendo mais regional, talvez você não tenha uma concorrência tão grande desses mega candidatos, mas especificamente dos candidatos locais”, afirmou.
Uma alternativa defendida por alguns especialistas para ampliar a representação regional seria o voto distrital. Walmott pondera, no entanto, que o modelo também poderia favorecer a formação de currais eleitorais, com grupos e famílias dominando territórios e sendo reeleitos indefinidamente.
Hélio Mendes afirma que os desafios ultrapassam o caso de Uberlândia e incluem a desilusão dos eleitores, a sensação de sub-representação e a queda na qualidade do debate político. Para ele, os partidos também perderam parte da identidade programática que tinham no passado. “Precisamos de representantes que tenham propósito, preparo e compromisso com o interesse público”, concluiu.











