
O Brasil ainda tem mais de 100 mil famílias acampadas esperando por terra. Esse número expressa o pequeno avanço das políticas públicas efetivas voltadas para os povos do campo no país, segundo a carta final do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizado em Salvador, na Bahia.
O documento, lido nesta sexta-feira (23), último dia do evento, pela deputada estadual Rosa Amorim (PT-Pernambuco) e pelo dirigente nacional do MST, Márcio Santos, responsabiliza o agronegócio por bloquear a reforma agrária no Brasil.
“Esse bloqueio vai na contramão da construção de um projeto de país, uma vez que a Reforma Agrária Popular é expressão da disputa contra o modelo hegemônico do agronegócio e apresenta um caminho para a superação da crise civilizatória e do colapso ambiental que vivemos”, informa o documento, que alerta para o poder do agronegócio, “que controla a maior parte do Congresso, dos meios de comunicação e do poder judiciário”.
Em novembro de 2025, o Congresso derrubou 56 dos 63 vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do chamado PL da Devastação, proposta que altera as regras para o licenciamento ambiental em atividades e empreendimentos causadores de impactos.
Já o Plano Safra 2025/2026, voltado ao agronegócio, é 82,75% superior ao reservado ao Plano Safra da Agricultura Familiar. Esses são exemplos de como as diversas esferas políticas trabalham em favor do modelo de concentração de terras e produção de commodities no país.
“Por isso, o palco da luta de classes passa, necessariamente, pelo enfrentamento ao modelo do capital do agronegócio, minerário e energético, pela democratização da terra, pela defesa do território e pela centralidade da questão ambiental”, sugere a carta.

A partir da análise sobre o cenário político e social do Brasil e do mundo, a carta final do encontro do MST lista os caminhos para atravessar “este tempo histórico”, lembrando dos objetivos da luta: melhores condições de vida e trabalho; defesa da paz e da soberania contra as guerras e as bases militares e proteção da natureza e contra os agrotóxicos.
“O modelo de agricultura do agronegócio, energético e mineral do capital, são inimigos de classe e seguiremos enfrentando-os. Para derrotar este modelo e construir outro projeto de desenvolvimento do nosso país, devemos intensificar as articulações e a unidade da classe trabalhadora e dos povos do Brasil e do mundo”, informa o documento, que destaca ainda o agronegócio como “braço do capital nacional e internacional no campo”.
“Enquanto modelo hegemônico de agricultura, o agronegócio está baseado em commodities para o mercado, na destruição e apropriação dos bens comuns da natureza e no uso intensivo de agrotóxicos, que contaminam o solo, a água, o ar e colocam em risco a garantia de uma vida saudável”, aponta a carta.
Na análise da conjuntura global, o documento chama atenção para os avanços do imperialismo. “O império [dos EUA] está decadente e como não têm saídas para a humanidade, ele aprofunda sua violência, apontando suas armas contra a Palestina, pela ofensiva sionista, financiando tentativas de golpe nos países do Sahel, em especial a Burkina Faso, bem como as inúmeras investidas para desestabilizar países como Cuba, Haiti, Colômbia, México, Irã e tantos outros”.
A carta ressalta a necessidade da luta antiimperialista e o internacionalismo como prática, “movendo a nossa solidariedade e unidade em brigadas de militantes, em especial com a Venezuela, Palestina, Haiti e Cuba, e com os povos em luta em todo mundo”.
Após a leitura da carta, teve início o Ato Político pela Reforma Agrária, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e da primeira-dama Janja da Silva. O ato marca os 42 anos do MST, celebrados no dia 22 de janeiro.
O 14º Encontro Nacional do MST teve início na segunda-feira (19), com a participação de mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, que debateram a conjuntura política atual os seus desafios e o papel do movimento neste contexto.
As crianças também tiveram espaço no 14º Encontro Nacional do MST e, neste encerramento, entregaram uma carta ao presidente Lula.
“Nosso grande sonho de Sem Terrinha, é ver a terra repartida e que todas as crianças e suas famílias tenham um lugar para morar, trabalhar, brincar e viver com dignidade”, ressalta o documento, elaborado por 157 crianças, representando todas as outras que vivem nos acampamentos e assentamentos no Brasil. “E queremos que essas terras onde estão nossos acampamentos virem assentamentos, queremos ver a Reforma Agrária acontecer”, diz a carta.
Entre as solicitações dos pequenas, estão mais escolas no campo, e que nenhuma das que já existem seja fechada. “A lei diz que é direito nosso ter escola do campo, é onde brincamos, estudamos e celebramos, ela é vida nas nossas comunidades”, lembra o documento.
Em outro trecho, elas pedem pelo fim da violência contra os povos do campo. “Queremos que não tenha mais despejo e violência contra os Sem Terra e que o Estado cumpra sua obrigação de garantir a nossa segurança”, pedem, na carta que tem no título a frase “Sem Terrinha em ação: defender a natureza é defender o nosso chão!”.
Salvador, 19 a 23 de janeiro de 2026.
Carta ao povo brasileiro
Passamos por um momento de mudança de época, marcado por guerras e pelo avanço do imperialismo em nosso continente. A agressão à Venezuela, com o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, foi uma mensagem atroz para os povos de todo o mundo, em especial de nossa América Latina. Seus interesses são: o saque de nossos bens comuns da natureza – petróleo, minérios, terras raras, águas e florestas – mas também a tentativa de impedir o avanço do multilateralismo e da soberania dos povos.
O império está decadente e como não têm saídas para a humanidade, ele aprofunda sua violência, apontando suas armas contra a Palestina, pela ofensiva sionista, financiando tentativas de golpe nos países do Sahel, em especial a Burkina Faso, bem como as inúmeras investidas para desestabilizar países como Cuba, Haiti, Colômbia, México, Irã e tantos outros.
No Brasil, este contexto se expressa na consolidação do agronegócio como braço do capital nacional e internacional no campo. Enquanto modelo hegemônico de agricultura, o agronegócio está baseado em commodities para o mercado, na destruição e apropriação dos bens comuns da natureza e no uso intensivo de agrotóxicos, que contaminam o solo, a água, o ar e colocam em risco a garantia de uma vida saudável. Também se evidencia pelo avanço da extrema-direita, resultado dessa crise, e que ocupará um papel central na disputa das eleições de 2026. Todavia, estes enfrentamentos não se darão somente pela via eleitoral, visto que as big techs e a mídia hegemônica têm manipulado espaços na sociedade, inclusive entre a juventude brasileira.
Apesar da agressão imperialista e do capital transnacional, o povo resiste! Segue em mobilizações crescentes, inclusive dentro dos EUA. Temos o desafio de qualificar nossa análise: a contradição mais evidente do sistema capitalista em crise está justamente no imperialismo e nas lutas antiimperialistas, pois é em tempos de crise que este modelo atua de forma ainda mais mais violenta e, embora esteja em decadência, ele não ruirá se não houver a consolidação de um bloco contra-hegemônico, capaz de enfrentá-lo, desde os povos e da classe trabalhadora de todo mundo.
Neste contexto de transformação do mundo da forma como o conhecemos, devemos reconhecer a força que nos trouxe até aqui, mas também admitir os desafios que devemos superar enquanto organização política para estar à altura do que a luta de classes exige da classe trabalhadora organizada neste tempo histórico. Esse balanço se faz fundamental para ajustar nossa análise e nossa tática do período.
A Reforma Agrária, enquanto projeto estratégico de país, está bloqueada pela burguesia brasileira e pelo avanço do modelo do agronegócio no campo, que controla a maior parte do Congresso, dos meios de comunicação e do poder judiciário. Por essas razões, tivemos poucas conquistas efetivas de políticas públicas massificadas e capazes de enfrentar a pobreza no campo e melhorar a vida do povo. Isto se expressa no fato de ainda termos mais de 100 mil famílias acampadas!
Esse bloqueio vai na contramão da construção de um projeto de país, uma vez que a Reforma Agrária Popular é expressão da disputa contra o modelo hegemônico do agronegócio e apresenta um caminho para a superação da crise civilizatória e do colapso ambiental que vivemos. Reforçamos que a força do agronegócio vem de seu projeto destrutivo de morte e violência, subsidiado pelo Estado brasileiro de diversas formas: nas inúmeras renúncias fiscais, créditos concedidos, perdões de dívidas altamente prejudiciais para o povo brasileiro e a flexibilização da legislação ambiental e agrária, conduzida pelo Congresso Nacional, inimigo do povo e da natureza!
Esta hegemonia dificulta a realização de uma Reforma Agrária Popular capaz de enfrentar a concentração fundiária, garantir a produção de alimentos saudáveis para toda a sociedade brasileira, assegurar o plantio de milhares de árvores, para o cuidado e recuperação da biodiversidade dos biomas, o combate ao analfabetismo e às violências, e a transformação do campo num lugar bom de se viver. Por isso, o palco da luta de classes passa, necessariamente, pelo enfrentamento ao modelo do capital do agronegócio, minerário e energético, pela democratização da terra, pela defesa do território e pela centralidade da questão ambiental.
Somos herdeiros de Canudos, Contestado e das Ligas Camponesas! Carregamos a responsabilidade e o nome de cada mártir tombado na luta pela liberdade, em especial neste ano de 2026, em que se completam 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. Por isso, nos mantemos em luta, fazendo o enfrentamento ao capital, ao imperialismo, ao patriarcado, ao racismo e a todos os sistemas de opressão. A Reforma Agrária Popular é o caminho que estamos construindo para construção de um outro projeto de futuro.
São 42 anos nos quais, a partir da derrubada das cercas, conquistamos o direito à terra, ao trabalho, à saúde e à moradia digna para se viver. Temos alfabetizado e escolarizado, desde a educação infantil ao ensino superior, organizamos a solidariedade através de diversas formas de associação, cooperação e organização popular. Estamos desenvolvendo projetos estratégicos com o objetivo de massificar a agroecologia e contribuir para reindustrializar o país. Seguimos insistindo na formação de militantes, quadros e na elevação do nível de consciência da nossa base; e dando centralidade à disputa ideológica e cultural da sociedade.
Neste 14º Encontro Nacional, que reuniu mais de 3.000 militantes Sem Terra e diversas organizações aliadas do Brasil e do mundo, referendamos a atualização de nosso Programa de Reforma Agrária Popular, de nossas Normas Gerais e a reformulação de nossa Organicidade, para a garantir maior participação da militância e da base nas decisões e ações do MST.
Estamos decididos a nos recriar! A construir novas formas de organização da nossa base social e fortalecer a construção do poder popular no Brasil e no mundo, massificando a formação de militantes e ampliando a formação de novos quadros para a luta socialista. Isso passa por construir um outro modelo de produção para a agricultura brasileira, pela massificação da agroecologia nos territórios, pela conquista de novos assentamentos, pela formação dos sentidos e da nossa consciência, mas, principalmente, pelas lutas de massas que devemos travar contra os nossos inimigos de classe.
Por isso, reafirmamos compromissos que devem orientar nossa militância e as lutas necessárias para atravessarmos este tempo histórico:
Reafirmar que os objetivos do MST, desde nosso nascimento – lutar pela terra, pela Reforma Agrária, hoje de caráter popular, e pelo socialismo – seguem atuais e se ampliam para além do MST. A Reforma Agrária Popular é uma bandeira de toda classe trabalhadora brasileira para alcançarmos outro projeto de sociedade;
O modelo de agricultura do agronegócio, energético e mineral do capital, são inimigos de classe e seguiremos enfrentando-os. Para derrotar este modelo e construir outro projeto de desenvolvimento do nosso país, devemos intensificar as articulações e a unidade da classe trabalhadora e dos povos do Brasil e do mundo;
Reafirmamos o nosso apoio à candidatura de Lula, de governos estaduais e parlamentares comprometidos com o nosso Programa de Reforma Agrária Popular, como forma de acumular forças para enfrentar a extrema-direita, o fascismo e recolocar a construção de um projeto de país soberano e popular;
A luta antiimperialista e o internacionalismo, como prática, seguirão movendo a nossa solidariedade e unidade em brigadas de militantes, em especial com a Venezuela, Palestina, Haiti e Cuba, e com os povos em luta em todo mundo.
Assim convocamos toda a sociedade brasileira para: – lutar por melhores condições de vida e trabalho e em defesa da paz e da soberania contra as guerras e as bases militares; avançar na luta em defesa da natureza e contra os agrotóxicos. Contamos com a participação de todos e todas que nos apoiam e à classe trabalhadora a se somarem na luta pela Reforma Agrária Popular, rumo à construção de outro projeto de país.