Entidades alertam para riscos de listas de boicote por divergência política
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial para esta matéria.
Política

Entidades alertam para riscos de listas de boicote por divergência política

Compartilhar Facebook X WhatsApp Telegram

A circulação de listas que identificam empresas, comerciantes, profissionais liberais e trabalhadores com o objetivo de promover boicotes por causa de preferências políticas provocou reação de entidades representativas e órgãos ligados ao sistema de Justiça.

Nas últimas semanas, organizações empresariais, seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) alertaram para os riscos jurídicos e democráticos de iniciativas que incentivam o boicote econômico ou a perseguição profissional por razões político-partidárias.

A mobilização ocorre após o aumento de relatos de constrangimentos, discriminação e retaliações registrados depois das eleições de 2026.

Bares e restaurantes

O setor de bares e restaurantes está entre os mais atingidos por esse tipo de lista. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) foi uma das primeiras entidades empresariais a se manifestar oficialmente sobre o assunto.

Em nota intitulada “Abrasel repudia listas de boicote e discurso de ódio após as eleições”, a entidade condenou a divulgação de listas que relacionam estabelecimentos a determinadas posições políticas e estimulam consumidores a deixar de frequentá-los.

A Abrasel afirmou que empresários têm diferentes convicções políticas e que a diversidade de opiniões deve ser respeitada. Também advertiu que campanhas destinadas a causar prejuízos econômicos a empresas e trabalhadores podem gerar responsabilização civil e judicial. Segundo a associação, essas iniciativas atingem não apenas os proprietários, mas também funcionários que dependem da atividade para obter renda.

“A divulgação dessas listas pode configurar ato ilícito e sujeitar os responsáveis a ações na Justiça. Do mesmo modo, o consumidor é livre para escolher onde vai comer e beber. Nenhum estabelecimento pode discriminar ou se recusar a atender alguém em função de seu posicionamento político ou ideológico”, diz a nota.

Reação da OAB

A Ordem dos Advogados do Brasil também se posicionou. Em suas redes sociais, a OAB de Tocantins divulgou uma nota de repúdio a listas que expõem empresas, profissionais e cidadãos por causa de suas preferências políticas.

A entidade destacou que a liberdade de manifestação e a pluralidade de ideias são pilares do Estado Democrático de Direito. A seccional ainda advertiu que atos de discriminação ou constrangimento podem resultar em responsabilização legal.

Para a OAB, divergências eleitorais não podem ser usadas como justificativa para perseguição econômica, exposição pública ou restrição de direitos.

Ação do Ministério Público do Trabalho

O Ministério Público do Trabalho identificou situações em que plataformas digitais são utilizadas para pressionar empresários a “vigiar, expor, deixar de contratar e demitir funcionários por causa do voto”. Diante disso, procuradores ingressaram com uma ação civil pública contra a Meta, responsável por plataformas como Instagram, Facebook e Threads, para que esse tipo de publicação seja retirado do ar.

Segundo o MPT, após o segundo turno das eleições, perfis nas plataformas passaram a convocar empregadores a adotar essas medidas. “Publicações de empresários, influenciadores e até parlamentares orientam vasculhar as redes sociais de trabalhadores para descobrir em quem votaram e, no caso de a opção ser diferente do patrão, mandá-los embora”, afirmou o órgão.

O procurador do trabalho Maurício de Mello informou que o MPT recebeu 1.140 denúncias de assédio eleitoral apenas nos três dias posteriores ao pleito. O número faz parte de um total de 3.080 denúncias registradas desde o início da campanha.

De acordo com o procurador, os dados mostram que uma parcela significativa das ocorrências foi registrada depois da definição do resultado das urnas. “Quase 30% das denúncias ocorreram pós-processo eleitoral. Isso é uma preocupação muito grande”, disse.

O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, afirmou que os efeitos dessas práticas atingem trabalhadores assalariados, profissionais autônomos e pequenos estabelecimentos comerciais que manifestaram posicionamentos políticos.

Comparação com perseguição na Alemanha nazista

A ex-deputada federal gaúcha Manuela d’Ávila (PCdoB) publicou um vídeo em que comparou a divulgação de listas de boicote político à perseguição econômica promovida contra comerciantes judeus na Alemanha nazista.

Segundo ela, identificar publicamente empresas e profissionais para estimular prejuízos econômicos por causa de suas convicções políticas é uma prática autoritária que deve ser combatida ainda no início.

“Sabe como começou o boicote aos judeus na Alemanha nazista? Com listas. Em 1933, os nazistas organizaram um boicote nacional contra estabelecimentos e profissionais judeus. Eles identificavam quem eram essas pessoas, onde trabalhavam e quais lojas e negócios lhes pertenciam”, declarou.

Referência histórica

O professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército, Francisco Carlos Teixeira, confirmou a referência histórica citada por Manuela d’Ávila.

Segundo o professor, a elaboração de listas é uma “prática comum” em regimes autoritários, ditaduras e no fascismo. Ele afirmou que o método também foi adotado durante a ditadura militar brasileira, com consequências como cassações, exílios e mortes.

“Na Alemanha nazista, esse processo foi claramente colocado em prática e nós o chamamos, historicamente, de processo de fascistização: a ocupação das instituições a partir do expurgo de pessoas consideradas perigosas para o regime”, explicou.

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta
Miramontes 350×750
Notíciasletter
Receba nossas noticias
Um resumo direto no seu e-mail.
Sign In/Sign Up Pesquisar
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...