A Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (FALE) nasceu de um sonho de Jussara Megueria, conhecida como Tia Jussara, e se tornou um centro de acolhimento para pessoas que vivem com HIV e estão em situação de vulnerabilidade em Uberlândia. Atualmente, a instituição abriga 67 adultos e oito crianças.
Ao longo de sua história, a organização não governamental recebeu pessoas que não tinham para onde ir e ofereceu mais do que moradia: uma oportunidade de reconstruir a vida. Mantida pela solidariedade dos moradores e da comunidade, a FALE precisa de doações para continuar funcionando.
A história começou quando Jussara sonhou que fundaria uma casa de apoio. Depois de acordar, ela passou a acolher em sua própria residência pessoas em situação de rua que precisavam de abrigo. O apartamento onde vivia com o marido ficou pequeno para a quantidade de assistidos, e vizinhos chegaram a denunciar o trabalho realizado no local.
Parentes e amigos do casal se mobilizaram para comprar uma casa. Ao longo das décadas, o imóvel passou por ampliações e adaptações feitas pelos próprios moradores, com o objetivo de atender quem procurasse ajuda.
Segundo o coordenador da instituição, Carlos Pernanze, muitos moradores que já viveram nas ruas atuam em atividades como construção, manutenção, elétrica, pintura e cozinha. “Eles acabam ajudando, tanto nos cuidados com a casa quanto no auxílio aos mais debilitados”, explicou.
Além do trabalho dos moradores, a FALE recebe apoio sazonal de empresas, voluntários, estudantes da Universidade Federal de Uberlândia e profissionais da saúde do município, que fazem visitas mensais. De acordo com Carlos, empresas e voluntários doam cestas básicas, produtos de limpeza e itens de higiene, além de promoverem conversas e palestras com os acolhidos.
A instituição mantém contato direto com a assistência social da Prefeitura de Uberlândia e recebe visitas frequentes de profissionais da rede municipal de saúde. No entanto, conforme relatou o coordenador, a casa não recebe apoio financeiro do Executivo municipal e não aceita emendas parlamentares. Assistentes sociais encaminham pessoas para a instituição, mas, segundo ele, não há auxílio direto para a alimentação dos moradores ou para a manutenção do imóvel.
A reportagem procurou a Prefeitura de Uberlândia para saber quais serviços e auxílios são oferecidos à FALE, mas não recebeu resposta. O canal permanece aberto.
Para ex-moradores, a instituição representa mais do que abrigo e alimentação. Uma mulher contou que chegou à FALE pesando 20 quilos, depois de se afastar de familiares e amigos e enfrentar problemas relacionados ao uso de álcool e drogas. Ela afirmou que buscou ajuda médica antes de ser encaminhada à casa.
O marido dela, também ex-morador, relatou que permaneceu na instituição por 20 anos e chegou ao local pesando 35 quilos. Ele contou que descobriu ser soropositivo enquanto estava preso e que, depois de sair, pensou em desistir da vida diversas vezes. O sobrinho o levou à FALE, onde encontrou outras pessoas vivendo com HIV e passou a enxergar a própria condição de outra maneira.
O HIV não tem cura, mas pode ser controlado com o Tratamento Antirretroviral (TARV), fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O acompanhamento médico pode reduzir a carga viral, impedir a transmissão sexual e permitir uma vida longa e saudável.
O casal afirma que ver moradores vivendo em condições saudáveis e reconstruindo suas trajetórias ajudou a fortalecer a esperança de superar as dificuldades. Rivelino Sousa, de 55 anos, voluntário externo da FALE, define o ambiente como uma “oficina de almas”, em que os moradores ajudam uns aos outros e recebem o máximo que a instituição consegue oferecer.
Segundo os ex-moradores, a gratidão pelo acolhimento recebido no momento mais difícil os motivou a cuidar de outras pessoas que enfrentavam situações semelhantes. Eles também relembraram Veroca, uma travesti que morreu na casa em decorrência da aids e foi enterrada por colegas, depois que não localizaram familiares ou amigos que pudessem assumir a responsabilidade.
Fundada há 36 anos, a FALE foi criada para acolher pessoas que vivem com HIV. A instituição precisa de auxílio financeiro, alimentos e produtos de higiene, especialmente durante o período de festas de fim de ano e de chuvas. A maior parte dos recursos vem de bazares realizados com roupas recebidas por meio de doações.
A casa está localizada na Rua Pedro Quirino da Silva, 321, no bairro Nossa Senhora das Graças, em Uberlândia. O atendimento prioriza pessoas soropositivas, que também se ajudam na administração dos medicamentos prescritos e na busca por atendimento médico especializado.
De acordo com os responsáveis, a instituição deixou de pedir doações pela internet depois que golpistas passaram a usar a causa para arrecadar dinheiro. As contribuições podem ser feitas via Pix, pelo CNPJ 23.092.331/0001-02.
Pessoas que precisam de apoio emocional podem procurar o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188, gratuito e disponível 24 horas, ou pelo site cvv.org.br.











