
Se você é entusiasta, já deve ter percebido que nos últimos anos o carro a combustão como conhecemos está passando por um processo de morte lento e gradual, principalmente no mercado europeu. A última vítima dessa nova realidade é Civic Type R, a versão hatchback mais esportiva do japonês. Não porque a Honda queria, mas porque foram obrigados a isso.
A justificativa oficial é que a decisão foi tomada “em conformidade com a legislação europeia”. Em outras palavras, o modelo não atende mais às rigorosas normas de emissões em vigor no continente.
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Essa mesma pressão ambiental forçou recentemente sua conterrânea Mazda a eliminar o motor 2.0 do Miata na região, deixando apenas o bloco 1.5 como opção. A Volkswagen também tirou de linha o câmbio manual de seis marchas do Golf GTI – tendência que agora vale para todos os mercados onde é vendido e também onde ainda será, como no Brasil. A nova geração, esperada para 2027, será exclusivamente automática, como já acontecia na Europa com o Golf R.
As restrições europeias não poupam nem marcas generalistas nem premium. A Hyundai já retirou do mercado as versões N do compacto i20 e do médio I30. A Ford, por sua vez, acabou com toda a produção de carros pequenos, iniciando com o Fiesta, em 2023, e recentemente com o anúncio do fim de produção do Focus, que ocorrerá até novembro.
A nova legislação europeia também traz exigências além das emissões. Foi ela que forçou a Porsche a tirar o 718 Cayman e o Boxster do mercado europeu no ano passado. As novas normas de segurança cibernética da União Europeia, que exigem atualizações eletrônicas mais complexas, tornaram a manutenção desses dois modelos inviável.
Versões limitadas, como o GT4 RS e o Spyder RS, ganharam isenções temporárias, mas não durarão muito: serão produzidos somente até outubro deste ano. Até o SUV Macan a combustão da geração atual teve que dar seu adeus precoce, com morte definitiva programada para 2026.
Nem mesmo SUVs escaparam: Porsche Macan dará seu adeus até 2026.
Na Toyota, o GR86 já foi aposentado por não atender às novas regras gerais de segurança (GSR2), levando junto o “irmão” Subaru BRZ. Já a francesa Alpine conseguiu uma sobrevida de dois anos para o esportivo A110, por ser uma marca de baixo volume. Mas o modelo será descontinuado em julho de 2026, dando lugar ao futuro sucessor elétrico.
Mesmo os modelos que sobrevivem enfrentam um ambiente hostil. Impostos altíssimos sobre veículos com alta emissão tornam a compra de esportivos proibitiva em diversos países. Na Holanda, um Toyota GR Yaris começa em absurdos € 89.295 (cerca de R$ 510 mil). Na França, a tributação obrigatória de CO₂ leva o mesmo hot hatch a ultrapassar os seis dígitos em euros.
Foto de: Toyota
É claro que os reguladores europeus têm seus motivos. Todos os carros impactam o meio ambiente. Mas é difícil aceitar que um compacto de 1.6 litro, como o GR Yaris, seja mais nocivo ao planeta do que um Mercedes-Benz EQG, com 3 toneladas e motor elétrico. A diferença? O elétrico não emite nada pelo escapamento, mesmo tendo o dobro do peso.
A Europa não está proibindo veículos poluentes em si. A estratégia é forçar os fabricantes a compensarem suas emissões com vendas de híbridos e elétricos. Desde 2025, as montadoras precisam atingir uma média de 93,6 g/km de CO₂. A meta, adiada agora para 2027, ainda é difícil – e vai piorar: em 2030, esse limite cairá para 49,5 g/km.
Caso não consiga atingir metas, Volkswagen terá que pagar bilhões em multa
O preço do descumprimento? Multa de €95 por grama excedente por carro registrado. Para gigantes como a Volkswagen ou a Stellantis, isso pode significar bilhões. Só a VW estimava um risco de multa de €1,5 bilhão em 2025. A Renault chegou a projetar que a indústria como um todo poderia pagar até €15 bilhões em sanções, caso não cumpra os objetivos.
Novo foco das montadoras é em híbridos, como é o caso do Range Rover Sport PHEV
Com mais tempo para ajustar suas estratégias, as montadoras estão intensificando o empurrão para cima dos carros elétricos e híbridos plug-in. Nos primeiros quatro meses de 2025, os elétricos já alcançaram 15,3% de participação nas vendas da UE. Os híbridos convencionais subiram para 35,3%. Plug-ins, 7,9%. Esses dados mostram que há progresso, mas o desafio é manter o equilíbrio com os modelos a combustão que ainda restam.
A verdade é que os esportivos a combustão enfrentam um problema duplo: poluem mais e vendem pouco. Para muitas fabricantes, não vale o custo de desenvolver um motor limpo para um carro de nicho.
Algumas marcas já adotaram o caminho híbrido, caso do novo Mercedes-AMG C63, que trocou o V8 por um sistema híbrido com quatro cilindros. Outras, como a Porsche, irão além: os novos Boxster e Cayman, com previsão de chegarem até o começo de 2026, serão totalmente elétricos.
A Europa caminha para seu objetivo final: zero emissões de CO₂ até 2035 em todos os carros novos. Na prática, isso decreta o fim do motor a combustão no continente. Há exceções para combustíveis sintéticos ou hidrogênio, mas a adoção em larga escala ainda parece improvável. Para os entusiastas, é o fim de uma era.
E não só na Europa. O impacto dessas regras será global, já que as principais montadoras esportivas ainda têm raízes profundas no velho continente.
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